Avanço de Cury nas redes sociais tem uma série de contradições e anomalias, aponta estudo
Segundo levantamento feito a partir das ferramentas Brandwatch e Fanpage Karma, movimento indica manipulação de seguidores, de engajamento e de motores de busca
O avanço surpreendente do escritor Augusto Cury nas métricas de engajamento nas redes sociais nos últimos dias veio embalado por uma série de contradições e anomalias no Instagram, principal rede social do candidato à Presidência pelo Avante, que sugerem possíveis estratégias de marketing de influência, incluindo manipulação artificial de seguidores, engajamento e mecanismos de busca (como o Google Trends), além do uso de influenciadores. As práticas são vetadas pela legislação eleitoral e podem ensejar punições que vão desde o pagamento de multas até a cassação do registro da candidatura, dependendo da gravidade da infração apurada.
A constatação está em estudo elaborado a partir de dados coletados pelas ferramentas Brandwatch e Fanpage Karma, além da extração direta de comentários dos perfis de Augusto Cury. A análise compara o desempenho do candidato com o de outras figuras de relevância nacional e internacional, considerando métricas como crescimento do número de seguidores, volume de publicações e repercussão nas redes sociais e na imprensa, padrões dos comentários no Instagram, análise do Google Trends e atuação de influenciadores, entre outras fontes.
Uma das anomalias que chamam a atenção é o crescimento sem paralelo entre os presidenciáveis. Considerando todo o histórico desde a criação de cada conta, Cury teve o maior salto diário entre os principais candidatos: 1,6 milhão, contra 678. 000 de Lula e 240. 000 de Flávio Bolsonaro. Segundo a análise, “é altamente improvável que um candidato sem exposição midiática relevante apresente um crescimento tão abrupto e muito superior ao de candidatos com ampla projeção nacional, sobretudo porque, no mesmo dia em que Cury ganhou 1,6 milhão de seguidores, foi também o candidato menos mencionado na imprensa e nas redes sociais.
“A discrepância torna-se ainda mais significativa pelo fato de esse salto ter ocorrido sem qualquer acontecimento político ou midiático de dimensão equivalente, enquanto os picos de Flávio e Lula estiveram associados, respectivamente, ao lançamento da candidatura do senador do PL ao Planalto por meio de uma carta do ex-presidente Jair Bolsonaro e à vitória de Lula na eleição presidencial de 2022”.
Crescimento maior que o de Trump
Outra comparação que chama a atenção é o desempenho de Cury em relação a outros personagens com alto potencial de engajamento nas redes sociais. O número de 1,6 milhão de seguidores no Instagram conquistados em 24 horas e 2,4 milhões em 72 horas supera o registrado por figuras internacionais relevantes, como o presidente americano Donald Trump (1,4 milhão em janeiro de 2026 após a captura do venezuelano Nicolás Maduro), o jogador Neymar (1,3 milhão após jogo da Copa do Mundo de 2022 contra a Croácia) e a cantora Anitta (631. 000 em fevereiro de 2019 por causa da parceria com o rapper americano Snoop Dogg).
A trajetória irregular do engajamento é outro ponto que causa estranheza. Segundo o estudo, o formato da curva de crescimento é um dos primeiros elementos analisados quando há suspeita de compra de seguidores. Quanto mais gradual e coerente com o histórico do perfil, maior a probabilidade de o crescimento ser orgânico. Saltos abruptos, concentrados em períodos muito curtos e sem relação com acontecimentos de grande repercussão, são sinais de possível aquisição artificial — embora não constituam, isoladamente, uma prova.
O movimento contrário também pode ocorrer quando as plataformas removem contas falsas ou automatizadas. Entre elas estão os chamados mass followers (seguidores em massa): perfis criados para seguir, comentar, compartilhar e visualizar em massa, simulando uma relevância maior do que a real. O Instagram de Augusto Cury apresenta esse padrão: registra perdas concentradas nos mesmos dias em que diversos outros perfis também perdem seguidores, movimento compatível com remoções em bloco realizadas pela plataforma.
A curva de Augusto Cury em agosto apresenta fortes indícios de aquisição artificial de seguidores. Após um período de crescimento estável, entre 1. 000 e 3. 000 novos seguidores por dia, o perfil registrou abruptamente um salto de 2,4 milhões em apenas 24 a 48 horas, incluindo picos de centenas de milhares de novos seguidores durante a madrugada — uma ruptura extraordinária e incompatível com seu padrão histórico.
Outro ponto a ser destacado é a contradição entre o boom nas redes sociais e o noticiário político. O crescimento extraordinário de Cury no Instagram se deu no mesmo dia em que foi, de longe, o menos mencionado entre os presidenciáveis. Essa repercussão é medida pelo chamado mar aberto, que reúne as publicações que fazem referência ao candidato, sem contabilizar os comentários feitos em suas próprias postagens.
O balanço das publicações coletadas nas principais redes sociais, portais e blogs sobre cada candidato (não contabiliza comentários) em 26 de agosto, dia em que Cury ganhou 1,6 milhão de seguidores no Instagram, mostra: Lula (367. 000), Flávio (239. 100), Renan Santos (73. 200), Ronaldo Caiado (57. 400), Romeu Zema (26. 200) e Augusto Cury (16. 700).
Um ponto importante é a crença de que o crescimento de Augusto Cury teria sido resultado do debate da Band, o primeiro entre os presidenciáveis, no dia 23 de agosto – só ele, Caiado e Renan Santos (Missão) foram ao evento. No entanto, ele foi o candidato menos mencionado no mar aberto naquele contexto, considerando tanto os participantes quanto os não participantes. Seus cortes, declarações e entrevistas não repercutiram organicamente na mesma proporção que os conteúdos dos demais candidatos. Além disso, na terça-feira seguinte ao debate, Augusto Cury registrou apenas 8. 000 menções — aproximadamente um terço do volume alcançado pelo penúltimo colocado, Romeu Zema.
Também chama a atenção o fato de as demais redes sociais do candidato não terem apresentado um salto equivalente ao verificado no Instagram. Todas as demais redes de Augusto Cury apresentaram comportamento normal — algumas com desempenho bem inferior ao dos demais candidatos. Apesar de ser natural que um candidato concentre sua força digital em determinada plataforma, o descompasso no caso de Cury é muito grande. A contradição torna-se ainda mais evidente porque sua suposta base de apoio seria formada, em grande parte, por influenciadores médios e pequenos — muitos deles atuantes no TikTok. Ainda assim, o engajamento de Cury nessa plataforma correspondeu a apenas 1% do volume registrado no Instagram. Se a mobilização fosse efetivamente orgânica e impulsionada por esses influenciadores, seria esperado algum transbordamento relevante de audiência e interação entre as plataformas.
Há, por fim, suspeitas sobre a compra de engajamento (curtidas e comentários) no Instagram. Existe um mercado global, profissionalizado e de baixo custo para a compra de seguidores e engajamento artificial. As contas utilizadas nessas operações são frequentemente classificadas como mass followers: perfis criados ou mobilizados para seguir, curtir, comentar, compartilhar e visualizar conteúdos em massa, simulando uma relevância superior àquela produzida organicamente.
No Instagram, a identificação desses perfis é mais complexa porque grande parte das contas é privada, o que restringe o acesso ao histórico de publicações e interações. Por isso, a análise precisa combinar diferentes indicadores. Um deles é a relação entre “seguindo” e “seguidores”: mass followers costumam seguir um número muito maior de contas do que o número de pessoas que os seguem, comportamento compatível com perfis utilizados para executar ações em massa. Esse indicador, entretanto, não constitui prova isolada e, à medida que esses serviços se tornam mais sofisticados, tende a aparecer com menor frequência e de forma menos evidente.
Outro sinal relevante é a padronização dos comentários. Conversas orgânicas tendem a apresentar maior diversidade de linguagem, contexto e interação, enquanto operações artificiais frequentemente produzem mensagens curtas, genéricas, repetidas ou compostas por pequenas variações de uma mesma narrativa. Em serviços personalizados, um briefing pode ser convertido em dezenas de frases semelhantes e replicado por milhares de contas.
Assim, a combinação entre repetição textual, baixa aderência ao contexto, horários de publicação, características dos perfis e relação desproporcional entre “seguindo” e “seguidores” oferece uma base mais consistente para identificar possíveis padrões de engajamento artificial.
No momento da extração, a publicação com maior engajamento no perfil de Augusto Cury era um card estático de uma peça simples e institucional, dedicada apenas à comemoração do crescimento do perfil. Uma inspeção manual dos autores dos comentários identificou uma presença relevante de contas sem publicações no feed e que seguem muito mais perfis do que possuem seguidores — características compatíveis com mass followers.
Além disso, 39% dos comentários do card no Instagram se concentram em apenas duas sequências específicas: os emojis de tecla numérica “70” (número do candidato) e a mesma combinação acompanhada do símbolo de confirmação de voto. Duas sequências textuais repetidas em escala constituem um forte indício de comportamento coordenado ou automatizado.
Por fim, há a suspeita de possível manipulação do algoritmo do Google Trends. A ferramenta mede a evolução relativa do interesse de busca por determinados termos e permite identificar a distribuição geográfica das pesquisas. Embora não apresente volumes absolutos, a ferramenta é amplamente utilizada para detectar picos e mudanças atípicas de comportamento. Esses indicadores podem ser influenciados por fazendas de cliques ou redes automatizadas que executam pesquisas em massa — prática classificada pelo próprio Google como tráfego gerado por máquinas.
Esses serviços podem operar a partir de outros países, inclusive da Índia, onde já foram documentadas estruturas desse tipo. Quando a operação não utiliza mecanismos eficientes para distribuir ou mascarar sua origem geográfica, pode deixar como rastro uma concentração anormal de buscas no território de origem, como ocorreu no caso de Augusto Cury – as buscas por seu nome registradas no país asiático cresceram aproximadamente 5. 000%.
Risco legal
A comprovação de que houve irregularidade no manejo de seguidores e de engajamento nas redes sociais pode acarretar punições a Augusto Cury e prejudicar a sua candidatura. Segundo a legislação eleitoral, manipular as métricas de visibilidade na internet ou usar influenciadores pagos para fazer campanha pode ensejar a aplicação de multas, retirada dos perfis do ar e, dependendo da gravidade, do alcance e do conteúdo, levar à cassação do registro.
O uso de influenciadores pagos é vetado. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é permitido que eles ofereçam apoio espontâneo, compartilhamentos orgânicos, façam uso de hashtags e criem mobilizações espontâneas em redes sociais, mas eles não podem receber para fazer circular propaganda eleitoral, nem receber vantagens econômicas para que os seus perfis promovam candidatos.
O que diz Augusto Cury
Em entrevista ao programa Veja Em Foco na segunda-feira, 31, o candidato à Presidência pelo Avante, Augusto Cury, classificou como “absurda” a ideia, levantada por campanhas de adversários, de que poderia estar comprando seguidores nas redes sociais.
“Acha que alguém com meu histórico, que sempre lidou com a verdade, que foi concursado como perito de psiquiatria judicial, que a vida inteira disse que quem não é transparente tem uma dívida impagável consigo mesmo, acha que vamos comprar seguidores? ”, afirmou durante entrevista a Marcela Rahal. “Vou perder a minha essência por causa de uma jornada de uma eleição, já que eu tenho o que os políticos jamais sonharam em ter? Isso é um absurdo. ”
O candidato afirmou que o crescimento nas redes sociais ocorreu de forma espontânea e atribuiu a mobilização a pessoas que teriam se identificado com sua mensagem. Ele também negou ter recorrido a influenciadores pagos para ampliar o alcance da candidatura. “Na verdade, foi um movimento incontrolável”, afirmou. Para Cury, a mobilização teria partido de pessoas que entenderam sua proposta de “pacificação”, disse.







