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Augusto Heleno se torna um barulhento militante nas redes sociais

O general que comanda o serviço secreto do governo usa o Twitter para atacar adversários, rebater críticos, debater com anônimos e criticar a imprensa

BATEU, LEVOU – O general Heleno e as mensagens trocadas com críticos e adversários: “Por que ‘no te callas”‘

BATEU, LEVOU – O general Heleno e as mensagens trocadas com críticos e adversários: “Por que ‘no te callas”‘ (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Quando assumiu o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, em janeiro, o general da reserva Augusto Heleno afirmava que seu comportamento discreto era uma exigência do cargo. Não era exagero retórico. O ministro é, na prática, o chefe do serviço secreto brasileiro. Cabe a ele, entre outras coisas, levar ao conhecimento do presidente informações delicadas e muitas vezes sigilosas captadas pelos espiões da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Também é dele a missão de proteger o presidente de eventuais ameaças e atentados. Nos primeiros sete meses de governo, no papel de conselheiro, o general atuou para contornar crises, antecipar problemas e conter disputas internas — tudo na surdina, sem chamar atenção. Mas algo mudou radicalmente. De um tempo para cá, o ministro do silêncio se transformou num barulhento ativista nas redes sociais.

Heleno tem usado sua conta no Twitter para atacar adversários, rebater críticos, debater com anônimos e criticar a imprensa, num nível de fazer inveja aos militantes mais radicais do mundo digital. O último alvo do general foi Fernando Henrique Cardoso. Em mensagem postada no sábado 5, o ex-presidente criticou o governo Bolsonaro. “A violência dos bandidos assim como as do governo preocupam”, escreveu o tucano, ponderando que “armas nas mãos de bandidos ou de quem não sabe usá-las aumenta o medo”. Em resposta ao tucano, o ministro escreveu também em seu Twitter: “Por que no te callas” (“Por que não te calas”, em espanhol). Fernando Henrique não replicou. No dia seguinte, Heleno mirou o jornal Folha de S.Paulo, a quem chamou de “Folha de São Pravda”: “Pode haver matéria mais cretina, inconsistente e parcial? Que vergonha!”, afirmou, referindo-se a uma reportagem que relacionava um suposto esquema de candidaturas laranjas do PSL à campanha de Bolsonaro. A imprensa, aliás, sempre mereceu uma atenção especial do ministro-chefe do GSI.

Quando atuava só nos bastidores, Augusto Heleno tinha o hábito de listar manchetes publicadas pelos jornais e revistas. Era o jeito dele de criticar o trabalho dos jornalistas. As que ele considerava a favor do governo ganhavam a cor azul. As contrárias eram pintadas de vermelho. A prevalência do azul ou vermelho servia como um indicador para informar o presidente quanto ao grau de simpatia que determinado veículo tinha ou não pelo governo. Antes de assumir a chefia do GSI, Heleno foi comandante militar da Amazônia e conselheiro do candidato Bolsonaro durante a campanha. Nesse período, ele já considerava que a imprensa fazia uma “campanha sórdida” contra o futuro presidente: “Ele (Bolsonaro) é alvo de calúnias, maledicências e distorções propositais de fatos — em uma ação antidemocrática e lamentável”, disse ainda durante a disputa eleitoral.

O ministro também tem batido boca com críticos do governo, muitos deles anônimos. “Você acredita que a terra é plana. Daí pra frente tudo o que você fala fica desmoralizado”, instigou, certo dia, um tal ElGualberton. Heleno retrucou: “Jamais disse essa imbecilidade. O que falei, em relação ao meio ambiente, é que a ciência evolui. Na Idade Média, se acreditava que a Terra era plana. Os canalhas deturparam”. Antes disso, o ministro classificou um site como “comunistoide” por ter noticiado que ele havia dito que não tinha como “controlar a farra do tráfico em voos oficiais”. Era uma referência ao episódio em que um militar brasileiro foi preso na Espanha com 39 quilos de cocaína a bordo de um avião da FAB. “Jamais disse tamanha estupidez. Tomem vergonha na cara”, rebateu o general.

O ativismo virtual de Heleno começou após ele próprio ter sido alvejado por bolsonaristas. Quando veio à tona a falha que permitiu a utilização do avião oficial para transportar cocaína, o ministro foi fustigado pelo filho do presidente: “Por que acha que não ando com seguranças? Principalmente os oferecidos pelo GSI”, alfinetou o vereador Carlos Bolsonaro. O ministro engoliu a provocação a seco — e, ao que parece, foi a última vez.

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2019, edição nº 2656