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Augusto Aras: o procurador do diálogo

A estratégia de botar o pé em várias canoas foi bem-sucedida

Por Da Redação - Atualizado em 27 set 2019, 09h27 - Publicado em 27 set 2019, 06h55

O novo procurador-geral da República demonstrou ser um exímio diplomata. Em seu discurso de posse na última quinta-feira, Augusto Aras ressaltou que o diálogo será “a nota forte” de sua gestão. Só na base da conversa, ele convenceu o presidente Bolsonaro de que era o melhor candidato ao cargo, venceu a resistência dos colegas do Ministério Público que ameaçavam inviabilizar sua indicação e teve o nome aprovado com folga pelo Senado depois de conquistar o apoio de governistas e opositores. Aos 60 anos, Aras exercitou a habilidade retórica de agradar a variados públicos sem, de fato, assumir compromisso com nenhum deles. Na sabatina no Congresso, ele agradou aos lavajatistas ao se comprometer a expandir a “excelência” da operação por outros estados, mas também condenou a estridência, os vazamentos e as prisões alongadas.

Aos bolsonaristas, Aras reafirmou a legalidade das prisões após a condenação em segunda instância, criticou o ativismo do Judiciário em pautas de costumes, como a descriminalização do aborto ou o uso de drogas, teceu comentários favoráveis ao excludente de ilicitude do pacote anticrime do governo e sinalizou que a provável indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada brasileira em Washington não fere as regras de nepotismo. Em um aceno à oposição, o novo procurador disse que o Ministério Público vai se empenhar na proteção dos povos indígenas e endossou o direito de condenados em segunda instância recorrerem em liberdade por meio de habeas-corpus. Aras só enfrentou uma saia-justa quando o senador Fabiano Contarato (Rede), que é gay, questionou o fato de ele ter assinado uma carta redigida por juristas evangélicos que consideram que a instituição familiar deve ser preservada como heterossexual e apoiam a chamada “cura gay”. “O senhor não reconhece a minha família como família? Eu sou doente, senhor procurador?”, insistiu. Aras respondeu que assinou o documento sem ler. A estratégia de botar o pé em várias canoas deu certo. A indicação foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça com folga, por 23 votos a 3. No plenário, foi ainda mais fácil: 68 senadores votaram a favor, dez contra e houve uma abstenção. Em seu derradeiro ato diplomático antes da posse, ele visitou o presidente Bolsonaro no Palácio da Alvorada. O novo PGR entende de política.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2019, edição nº 2654

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