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AO VIVO: debates terminam após 34 horas; deputados discursam

Por Eduardo Gonçalves e João Pedroso de Campos, de Brasília - 16 abr 2016, 08h11

Após 34 horas de debates, encerrou-se às 18h horas deste sábado a sessão de discussão dos 25 partidos na Câmara dos Deputados sobre o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. A previsão inicial era de que a maratona terminasse às 11 horas, mas houve muitos pedidos de deputados para falar no tempo de liderança, o que é previsto pelo regimento. Apesar dos atrasos, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, garantiu que a sessão de votação do processo começará às 14 horas deste domingo. Por seguir a ordem da maior para a menor bancada, o PMB foi o último partido a discursar. O PEN, que era o penúltimo, abriu mão do discurso para evitar mais demoras no processo. Terminada essa fase, começou a sessão para discursos individuais, que se arrastará por toda a madrugada de sábado e manhã de domingo.

Em reunião encerrada no fim da tarde, catorze partidos pró-impeachment fecharam um acordo para reduzir o tempo de debate dos deputados individuais. Segundo o deputado Jovair Arantes (PTB-GO), autor do relator que será votado amanhã, cerca de 60 deputados já inscritos para falar no tempo regimental garantido às lideranças dos partidos abriram mão de discursar novamente porque já falaram em sessões anteriores. No ritmo atual, explicou o deputado, contando os discursos de todos os inscritos, são cerca de 250, a votação começaria entre meia-noite e duas horas da manhã do domingo para segunda. Além disso, Jovair Arantes explicou que, se necessário, os líderes partidários que defendem o impeachment também abrirão mão de seus discursos, que podem chegar a dez minutos.

Eduardo Cunha tem uma carta na manga para evitar que os discursos deste sábado, que devem invadir a madrugada, atrasem a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff na tarde de domingo. Regimentalmente, ele tem o poder de colocar em votação no plenário um requerimento, que pode ser feito à Mesa Diretora por qualquer parlamentar, para que a discussão se encerre depois de quatro oradores inscritos individualmente falarem da tribuna.

O deputado Weliton Prado (PMB-MG), o único do partido e o último a discursar, fez um discurso crítico tanto a Dilma como a Temer. Reiterou o seu posicionamento favorável ao impeachment da mandatária, mas ressaltou que será contra a eventual posse do peemedebista. “Eu acho que o plano de Temer [Uma Ponte para o Futuro] será uma Ponte para Passado. Por isso, eu espero que ele não chegue a assumir, mas não podia deixar de ouvir o povo”, afirmou”, afirmou ele.

Apesar de atrasar a sessão, oposicionistas mantiveram os discursos de liderança. Mirando os indecisos, o deputado Arthur Virgílio Bisneto (PSDB-AM) lembrou dos deputados que votaram contra o impeachment de Collor. “Não é fácil sobreviver a um processo tão doloroso como esse. Aos que querem vender os seus votos, [quero lembrar] que foram 38 a favor de Collor. Somente dois deputados sobreviveram àquele fatídico momento da nossa nação. Aqueles que se dizem indecisos tomem cuidado com as urnas, pois elas elegem e punem”, afirmou. Em seguida, Ricardo Tripoli (PSDB-SP) disparou que o governo desrespeitou o Congresso Nacional ao cometer as pedalas fiscais, que, segundo ele, foram “aprimoradas” na gestão Dilma.

Conhecido por não ter papas na língua, o deputado federal (PTdoB-PE) fez um dos discursos mais inflamados contra o afastamento de Dilma. Disse ter “nojo” do vice-presidente Michel Temer e que o processo de impeachment é uma espécie de “seguro cadeia” para Eduardo Cunha se livrar da Lava Jato. “Depois que descobriram as contas dele [Eduardo Cunha] na Suíça, eu parei de bater no deputado. Parei porque ninguém chuta cachorro morto, mas hoje vou ter que bater porque o cachorro continua latindo”, exclamou.

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Numa fala dirigida aos que pretendem se abster da votação, Evandro Gussi (PV-SP) afirmou que a própria Constituição convoca os deputados a deliberarem sobre o pedido de destituição da presidente. “Uma função que não pode ser delegada a qualquer outra pessoa. Aqueles que tentaram descredenciar a legitimidade dessa Casa para tal julgamento ofendem a cada um de nós e a si próprios. Se a presidente da República não é capaz de se submeter a uma decisão soberana de dois terços do Congresso Nacional é porque ela realmente não merece ocupar a cadeira em que está”, afirmou nos discursos reservados ao PV. O deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF) também pediu para que todos os parlamentares apareçam amanhã na votação. “Onde estão os Judas do Congresso, que vão trair a população que estarão se vendendo?”.

Já no discurso da bancada do PSOL, Chico Alencar (RJ) centrou os ataques no vice-presidente Michel Temer. Lembrando que ele foi citado por delatores da operação Lava Jato e que o PMDB também é responsável pela crise econômica. “O Brasil é o país das transições intransitivas. São só mudanças de perfumaria. Mudar para continuar tudo como está”, afirmou.

A deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP) afirmou que a presidente Dilma Rousseff é responsável pelos esquemas de corrupção que aconteceram em seu governo. “A presidente deveria ter sido vigilante. Deveria ter sabido de cada tostão que entrou na sua campanha. Mas ela não quis saber e preferiu aprofundar essa relação promíscua com as empreiteiras”, afirmou, em tom emocionada, dizendo que ‘falava olhando nos olhos da presidente”. Depois, a deputada citou o caso de uma menina com deficiência física que teria demorado cinco anos para receber a cadeira de Sistema Único de Saúde (SUS). “A senhora teve muito tempo para consertar isso e vem com esse mantra mentiroso de pátria educadora. Isso é crime contra a nossa Constituição”, afirmou a parlamentar.

Na fala das lideranças, oposicionistas reforçaram a gravidade das pedaladas fiscais para a saúde das contas públicas. “Não gastaram pouco. Se olharmos para as curvas de gastos, é coisa de 1 a 2 bilhões para 40, 50 bilhões de reais. Não há país que se sustente. Os programas sociais são muito mais baratos do que a roubalheira que tivemos”, afirmou o deputado Carlos Melles (DEM-MG). Ele ainda destacou que a sucessão de CPIs instauradas no Congresso é a prova de que as ilegalidades no governo Dilma alcançaram um outro nível. “Que vergonha. Nunca tivemos tantas. Quandos se instala uma CPI aqui é porque as coisas já desandaram há muito tempo”.

O deputado Marcelo Aro (PHS-MG) recorreu à filosofia grega para criticar a presidente. Citou o Mito da Caverna, de Platão, que conta a história de prisioneiros que vivem iludidos em uma gruta, enquanto a realidade está do lado de fora. “O que o PT fez foi nos aprisionar em um caverna e projetar sombras na parede que são meras ilusões. Se quisermos sair dessa caverna, é preciso que rompamos as algemas. E essas algemas têm nome: Dilma Rousseff”, exclamou o parlamentar. Único dos oito deputados do PHS a declarar voto contrário ao impeachment, o líder do partido na Câmara, Givaldo Carimbão (AL), afirmou que é um crime contra a democracia tentar destituir a presidente. Na tribuna, ele narrou encontros na última semana com Dilma e Michel Temer, mas negou que os dois tenham lhe oferecido cargos pelo voto.

Nesta sexta-feira, o PT deflagrou uma forte ofensiva para reverter votos pró-impeachment e convencer os indecisos a não comparecer ao dia de votação. Uma tropa dilmista de governadores do Nordeste desembarcou em Brasília para cumprir a tarefa. Algumas tratativas surtiram efeito, como a mudança de posição de Waldir Maranhão (PP-MA), mas o mapa do impeachment do site de VEJA ainda aponta a derrota de Dilma no plenário. Em discurso hoje, o petista Paulo Pimenta (PT-RS) celebrou o que chamou de “vira virou”. “Na realidade, a oposição nunca teve os votos necessários para aprovar a proposta de golpe”. Oposicionistas, por outro lado, garantiram que, apesar da perda de alguns apoios, ainda têm o número de votos suficientes – 342 – para levar o processo ao Senado.

A presidente Dilma também recebeu más notícias ontem à noite: o PP fechou a questão pelo impeachment e o ministro das Cidades, Gilberto Kassab, entregou sua carta de demissão. Além do acirramento da disputa, as falas de hoje devem repercutir o pronunciamento que Dilma faria em cadeia nacional, mas desistiu após ser alertada pelo advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, para o risco de contestação na Justiça. No vídeo, que acabou sendo postado nas redes sociais, a presidente chama os defensores do impeachment de “traidores da democracia” e que eles pretendem “revogar direitos e cortar programas sociais, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida.”

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), chegou por volta das 10 horas ao plenário e reassumiu a presidência da Mesa. Quem estava comandando antes dele era Felipe Bornier (Pros-RJ).

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