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Alvo da Acarajé, executivo da Odebrecht está preso na Suíça

Fernando Migliaccio foi preso no dia 17 de fevereiro. Decisão não tem relação com mandado expedido por Moro, segundo MPF

Por Laryssa Borges, de Brasília, e João Pedroso de Campos 23 fev 2016, 15h13

Fernando Migliaccio da Silva, o executivo da Odebrecht apontado pelo Ministério Público Federal como operador de duas offshores da empreiteira utilizadas para pagar propinas no exterior, foi preso em Genebra, na Suíça, na quarta-feira passada. O juiz Sergio Moro, que conduz as ações penais da Operação Lava Jato em Curitiba, havia decretado a prisão dele no dia 11 de fevereiro, no âmbito da Operação Acarajé, a 23ª fase da Lava Jato. Mas as informações davam conta de que o executivo da empreiteira estava na Flórida, nos Estados Unidos, onde teria morado desde a deflagração da Operação Erga Omnes, que prendeu Marcelo Odebrecht.

A prisão de Migliaccio foi feita por policiais suíços com base em ordem do Ministério Público Federal da Suíça, onde a Odebrecht é investigada. O MPF informa, no entanto, que a prisão dele “não tem relação com o mandado expedido no Brasil, que era desconhecido das autoridades estrangeiras” e afirma não saber porque Migliaccio foi preso no país europeu. A prisão do executivo foi informada à Polícia Federal brasileira por um adido policial suíço no dia 18 de fevereiro, um dia depois da prisão de Fernando Migliaccio. “Agradeceríamos confirmação da identidade dele assim como qualquer informação útil, antecedentes policiais e judiciais”, informam as autoridades suíças em documentos enviados ao Brasil.

De acordo com o Ministério Público brasileiro, no esquema de corrupção desvendado pela Lava Jato Migliaccio atuava sob ordens de Marcelo Odebrecht e era responsável por gerenciar contas utilizadas para pagar propina no exterior a agentes públicos. As investigações apontam que ele recebeu, por exemplo, mensagem com dados sobre o pagamento de propina que a Odebrecht deveria fazer na Argentina. As suspeitas são de que o ex-funcionário tenha deixado o Brasil após a fase da Lava Jato que levou, em junho do ano passado, Marcelo e outros dirigentes da Odebrecht para atrás das grades.

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Para a força-tarefa da Operação Lava Jato, a Operação Aracajé reforça o envolvimento de Marcelo Odebrecht no escândalo do petrolão e escancara o pagamento de propina do conglomerado no exterior. Documentos em posse da força-tarefa do Ministério Público comprovam que existia uma planilha de pagamentos ilícitos feitos pela Odebrecht, com destinatários como “Feira”, uma referência ao marqueteiro João Santana, e JD, em alusão ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

Segundo os investigadores, novos indícios apontam que Marcelo Odebrecht detinha o controle do caixa de propina do grupo e conhecimento amplo do uso de offshores para o depósito de dinheiro a corruptos. Na 23ª fase da Lava Jato, as suspeitas são de que Hilberto Mascarenhas Alves Silva Filho e Luiz Eduardo Rocha Soares, que já foram ligados ao Grupo Odebrecht, e Fernando Miggliaccio da Silva atuavam nos pagamentos no exterior por ordem da companhia. Os dois últimos teriam sido retirados do país após buscas e apreensões na Odebrecht em junho de 2015, data da fase da operação que levou Marcelo Odebrecht para a cadeia.

De acordo com o Ministério Público Federal do Brasil, Migliaccio operava as offshores Constructora Internacional Del Sur e Klienfeld Services. Ele teria operado pagamentos de propina da empreiteira em outros países, como a Argentina, cujo ex-secretário de Transportes Ricardo Raúl Jaime teria recebido dinheiro referente à obtenção do contrato de soterramento do Ferrocarril Sarmiento pela Odebrecht. “Nesta seara, impende observar que quando da análise do celular de Marcelo Odebrecht, foram encontradas diversas anotações acerca de ‘Sarmiento'”, afirma o MPF. A polícia descobriu que Migliaccio usava um e-mail sigiloso para tratar de questões suspeitas – o endereço era o.overlord@hotmail.com.

Parte dos 3 milhões de dólares pagos ao marqueteiro João Santana pelo Grupo Odebrecht no exterior partiu de contas ocultas da Klienfeld. Além da offshore controlada por Migliaccio, outra empresa da empreiteira fora do Brasil, a Innovation, fez pagamentos a Santana. As duas offshores já são alvo da Lava Jato por terem sido usadas para abastecer com propina os ex-diretores da Petrobras Renato Duque, Paulo Roberto Costa, Jorge Zelada e Nestor Cerveró. O repasse do dinheiro enviado a João Santana pelas offshores ligadas à Odebrecht ocorreu entre abril de 2012 e março de 2013.

O marqueteiro de Dilma Rousseff e Lula também recebeu do operador de propinas Zwi Skornicki, preso ontem, 4,5 milhões de dólares depositados na offshore panamenha Shellbill Finance SA, de João Santana e sua mulher e sócia, Mônica Moura. A Shellbill Finance SA não foi declarada às autoridades brasileiras.

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