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A tragédia e as tragédias do crack no Rio de Janeiro

Menino de 10 anos que morreu atropelado no Rio era filho de uma dependente de drogas e irmão de outro frequentador das cracolândias

O caso não chega a surpreender, mas não é possível conter o espanto com mais uma tragédia do crack registrada no Rio de Janeiro na manhã desta quinta-feira. Em mais uma fuga da cracolândia, como várias exibidas pelos telejornais, um menino de apenas 10 anos morreu atropelado ao tentar cruzar a Avenida Brasil – via expressa com seis pistas por onde os carros passam em alta velocidade. A história do pequeno Rafael Ribeiro, órfão de pai, filho de uma mãe dependente química e com um irmão que também perambula pelas cracolândias, é dramática. Mas não é um caso isolado. De acordo com a diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), da UERJ, Maria Teresa Aquino, o perfil de algumas dezenas dos jovens e crianças que marcham com as hordas de ‘zumbis’ dominados pela droga é exatamente este: “São crianças com relações familiares esgarçadas. Quando há mãe ou pai, de forma geral, também são dependentes. É difícil imaginar, mas são pessoas sem noção do que é uma casa, mesa, cadeira. Existem crianças que, em 12 anos de vida, nunca fizeram uma refeição com a família”, explica Maria Teresa.

O clichê “tragédia anunciada” se aplica perfeitamente ao episódio desta manhã no Rio. A primeira fuga exibida pelos telejornais ocorreu em novembro de 2012. Aos montes, adolescentes, mulheres e crianças saltavam as muretas da Avenida Brasil, enquanto motoristas tentavam frear ou desviar, como se um estranho rebanho surgisse no meio da pista. A reação de quem assiste às imagens é previsível: como ninguém foi atropelado? Rafael foi o primeiro a cruzar com a morte nessa situação específica das operações.

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As ações de recolhimento em cracolândias ocorrem há dois anos no Rio. Passam de 150 as abordagens desse tipo, em que frequentemente agentes são recebidos a pedradas, são apreendidas facas, lâminas e armas, e invariavelmente há tentativa de fuga. Os menores de idade que não têm família ou alguém responsável por eles são encaminhados para abrigos, por força do decreto da prefeitura que instituiu no município do Rio a internação compulsória. Está em estudo no momento a internação involuntária também de adultos – projeto que recebeu em Brasília apoio do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Segundo o secretário de Assistência Social e vice-prefeito do Rio, Adilson Pires, a internação obrigatória – projeto que recebe críticas de grupos de defesa dos direitos humanos – conseguiu reduzir em 30% o número de crianças e adolescentes nas cracolândias. Os críticos não atacam frontalmente a medida de internação, mas afirmam que não há estrutura compatível com essa política nos abrigos da prefeitura. “A maneira como a abordagem está sendo feita é truculenta. E, pelo que conheço dos abrigos, não há tratamento médico e atenção hospitalar. Se os menores fossem encaminhados para uma clínica, eu talvez pudesse concordar com a internação compulsória”, afirma Margarida Pressburger, representante do Brasil no subcomitê de prevenção à tortura da ONU.

Segundo Pires, os agentes envolvidos no processo de abordagem foram chamados para fazer uma revisão na maneira de se aproximar do usuário. “Diante da morte, estou analisando um novo protocolo de abordagem”, disse o vice-prefeito. Ciente de que, desde a ocupação da maior cracolândia do Rio, a do Jacarezinho – que foi dispersada depois da ocupação da favela pela polícia, em 2012 -, houve uma migração dos usuários da droga para as imediações da favela Parque União, na margem da Avenida Brasil, Pires afirma que providências mais eficientes estão sendo tomadas. “Essa nova cracolândia tem elemento de gravidade adicional: fica perto de uma via de grande movimento e velocidade. Há o risco iminente. Por isso, temos q apresentar de forma emergencial, um plano q solucione esse risco para a vida de quem usa crack e de quem passa pela Brasil”, disse.

O vice-prefeito afirmou estar em contato com o secretário municipal e Saúde, Hans Dohmann, para arrumar alternativas de tratamento também aos adultos, que são maioria nas cracolândias. “Envolve tanto internação voluntaria quanto involuntária. Para isso, precisamos de locais para internar. A secretaria de Saúde está vendo onde é possível internar, se conseguimos comprar leitos na rede privada, e como montar convênios com, por exemplo, clínicas terapêuticas”, afirmou Pires, reiterando que provavelmente na próxima semana deve haver algum posicionamento.