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A sociedade civil mostra suas caras na Rio+20

A face ainda mais visível do ativismo ambiental é a dos ingênuos bem-intencionados, das manifestações ruidosas e de baderneiros. Mas os eventos paralelos à conferência mostraram um retrato bem mais animador da busca por um mundo sustentável, com 'ongueiros' altamente capacitados trabalhando lado a lado com empresas e governos

Quando a voz da jovem Brittany Trilford, uma neozelandesa de 17 anos, se fez ouvir nos alto-falantes, a sensação de déjà vu que rondava o Riocentro instalou-se definitivamente. Foi inevitável a comparação com a fala da canadense Severn Suzuki na Eco-92, e uma melancólica constatação: o discurso que, 20 anos atrás, já era crivado de clichês, mas ainda capaz de emocionar, envelheceu, perdeu a força. “Acertei o meu relógio e o tempo está passando: tic, tac, tic, tac”, disse Brittany. “Nós, da próxima geração, exigimos mudança e ação para que tenhamos um futuro”.

Vinte anos antes, Suzuki dissera: “Vocês adultos nos dizem que vocês nos amam. Eu desafio vocês. Por favor, façam as suas ações refletirem as suas palavras.” De volta ao Brasil para a Rio+20, casada, mãe de dois filhos e militante ambiental, ela ganhou espaço por seu discurso original, e não por algo novo que tenha a dizer. “O que eu continuo dizendo é que nós não conseguimos justiça entre as diferentes gerações. Não encaramos o futuro como prioridade”, disse em entrevista ao site de VEJA.

Do outro lado da cidade, no Aterro do Flamengo, a Cúpula dos Povos provocava uma constatação ainda mais melancólica. Em uma cidade que guardava da Eco 92 a lembrança daquele espaço como uma festa libertária, jovem e esperançosa, a cúpula que pretendia denunciar ‘as causas estruturais’ das crises econômica e ambiental, pôr em evidência as ‘falsas soluções’ propostas pelos governos e propor ‘novos paradigmas’ de desenvolvimento sustentável apareceu como uma grande feira de artesanato, de onde saíam passeatas que engarrafaram a cidade para protestar contra qualquer coisa. Contra o Código Florestal, a energia nuclear, a privatização da saúde, a publicidade para crianças, os grandes empreendimentos e tudo o que passe perto do capitalismo.

Índios saem em passeata até o BNDES e param o trânsito com arcos e fechas Índios saem em passeata até o BNDES e param o trânsito com arcos e fechas

Índios saem em passeata até o BNDES e param o trânsito com arcos e fechas (/)

São exageros que poderiam ser considerados apenas folclóricos – como foi a manifestação das mulheres de seios à mostra e, de certa forma, o protesto dos índios contra o BNDES, que resultou no patético flagrante dos seguranças se protegendo da flecha de um aborígene raivoso. Apesar do inusitado da situação, tudo se resolveu civilizadamente. Uma comissão formada por 12 representantes de nações indígenas brasileiras, liderada por Romancil Cretã, coordenador político da Articulação dos Povos Indígenas do Sul (Apinsul), foi recebida pelo vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), João Carlos Ferraz, e manifestou o seu repúdio aos projetos financiados pela instituição que “levam morte aos povos indígenas, em vez de vida”. Ficou acertada a criação de uma nova comissão, com a participação de cinco representantes dos índios, que será recebida pelo presidente do BNDES, Luciano Coutinho, no próximo mês de julho, em data ainda a ser marcada.

Bem diferentes foram as cenas de vandalismo protagonizadas por manifestantes do MST e da Via Campesina na quinta-feira. Militantes das duas organizações invadiram e depredaram o estande da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) no Píer Mauá, montado para expor práticas de agricultura sustentável no Brasil participa da “Rio+20″. Chegaram como se fossem visitantes e, uma vez lá dentro, danificaram maquetes, jogaram tinta vermelha e espalharam panfletos.

Mudanças em 20 anos – Felizmente, essas manifestações que vão da ingenuidade ao banditismo não correspondem ao conjunto do que se chama ‘sociedade civil’ – e isso foi uma das marcas mais positivas da Rio+20. E enquanto o Aterro do Flamengo reunia os grupos ruidosos de sempre, centenas de representantes de ONGs estavam participando de eventos paralelos lado a lado com empresas (como o Humanidade 2012) e governos (como o encontro dos prefeitos do C-40), dos quais saíram as propostas concretas da conferência. Sem a estridência dos ambientalistas que pararam no tempo, essas ONGs mostram que, nos últimos 20 anos, houve uma notável evolução. Do protesto e do ativismo juvenil, boa parte dessas organizações galgou espaços diferenciados , compondo o chamado Terceiro Setor da economia. Tornaram-se meta profissional de pessoas graduadas nas mais diversas áreas do conhecimento e pós-graduadas também, como é o caso dos interessados nos cursos de MBA em Gestão Ambiental, reconhecidos pleo MEC, oferecidos em parceria com não-governamentais como o Centro de Pesquisa Ecológica Ipê, com sede nacional na pequena Nazaré Paulista (SP) e filiais em Manaus e Brasília.

Tornaram-se influentes no debate político acerca de diversos temas socioambientais. O S.O.S Mata Atlântica transformou-se em case de estudo em áreas de marketing de muitas companhias, dado o poder da organização em captar adetpos e doações a campanhas feitas em parceria com os mais diversos setores de negócios – tornou-se famosa a campanha veiculada em tubos de creme dental da marca Sorriso.

Muitas ONGs evoluíram para OSCIPS, sigla de abreviatura para Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, condição que, no Brasil, permite salários de até 20 mil reais ao gestor que as presidem. São organizações que propõem novas políticas públicas a governos ou operacionalizam projetos de interesse para a iniciativa privada, incluindo consultoria estratégica para organizações, fundações e empresas. Segundo estudos de uma dessas OSCIPs, o GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, estima-se que existem 500 mil organizações da sociedade civil em operação no Brasil.

Um dos maiores negociadores de questões brasileiras relacionadas ao clima e ativo participante de reuniões internacionais a convite do governo brasileiro é o Instituto Vitae Civilis, uma não-governamental com sede em São Paulo. Espelha-se com a organização britânica Stakeholders Forum for the Future, que tem assento consultivo na própria Comissão de Desenvolvimento Sustentável da ONU, setor onde se desenham conferências como a Rio+20. Um dos maiores think tanks da atualidade, com cargos disputados por PhDs nos ramos da economia, biologia e sociologia é o World Resources Institute – WRI, organização com sede em Washington (EUA), autora de um prestigiado relatório anual sobre o estado do mundo. “Eco-corporations” famosas como Greenpeace e WWF, com escritórios em dezenas de países, mantêm hoje profissionais com salário de mercado e atuando sob modelos de gestão – sem fins lucrativos – que em nada ficam a dever ao setor privado. Na Índia, o famoso think tank TERI – The Energy and Reources Institute, é presidido por ninguém menos que Rajendra Pachauri, o prestigiado físico e Prêmio Nobel da Paz, que também preside o IPCC – Painel Intergovernamental de Mudança Climática.

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