A reação da direita mundial diante de aproximação das mulheres à esquerda
Com mulheres pendendo à esquerda na crescente divisão de voto por gênero, direita tenta recuperar terreno
Pesquisas eleitorais ao longo dos últimos dezesseis anos mostram que, cada vez mais, o gênero tem se tornado a principal linha divisória da política brasileira, com homens mais voltados à direita e mulheres, à esquerda. Com base em levantamentos recentes, essa distância, que vem se alargando desde 2018, pode atingir seu ápice nas eleições deste ano –no Datafolha de junho, mulheres davam 15 pontos percentuais de vantagem a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto Flávio Bolsonaro (PL) tinha a preferência dos homens por nove pontos percentuais: um abismo de 24 pontos, o maior da série histórica até o momento.
Esse está longe de ser um fenômeno exclusivamente brasileiro, repetindo-se em países europeus, nos Estados Unidos e na América Latina. O avanço da esquerda entre o eleitorado feminino levou partidos e lideranças conservadoras em todo o mundo a reverem sua estratégia para dialogar com esse público. Em vez de rejeitar completamente pautas ligadas à representação das mulheres, parte da direita passou a incorporá-las sob uma perspectiva própria, valorizando a presença feminina na política sem romper com valores tradicionais ligados à família, à maternidade e ao conservadorismo.
Para a professora e pesquisadora sobre extrema direita Júlia Almeida, esse movimento pode ser observado em diferentes países. Ela cita como exemplos a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que defendem maior protagonismo feminino, mas direcionado a um perfil específico de mulher. “É uma mulher que quer ascender ao poder, que fala em protagonismo de mulheres, mas de mulheres específicas: as conservadoras, as mães, as ‘mulheres de família’. É um empoderamento com limites, que não é exatamente o que o feminismo consideraria como emancipação”, afirma.
Segundo Almeida, essa estratégia também se manifesta fora da política institucional, com o crescimento de influenciadoras conhecidas como tradwives (“esposas tradicionais”), que promovem um estilo de vida centrado no trabalho doméstico, na maternidade e em papéis tradicionais de gênero. Na avaliação da pesquisadora, esse conjunto de iniciativas busca reduzir a rejeição da extrema direita entre as mulheres –cuja conquista é essencial para esses partidos se quiserem ter viabilidade eleitoral.
A avaliação encontra respaldo no discurso de lideranças conservadoras brasileiras. Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), o fortalecimento da participação feminina no campo da direita passa justamente por incentivar mulheres conservadoras a ocupar espaços de poder. “O trabalho que venho desenvolvendo no Congresso e o movimento gigantesco liderado pela Michelle Bolsonaro estão rompendo essa barreira. Nós estamos viajando o Brasil inteiro e convidando a mulher comum, a mãe de família, a dona de casa, a pequena empreendedora e a líder comunitária para assumir a liderança política”, afirma.







