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À PF, Bumlai fala do caso Celso Daniel

Amigo de Lula disse que repassou 12 milhões de reais para o caixa do PT – e só quando Valério ameaçou contar o que sabia descobriu que parte do dinheiro foi repassada a chantagista

Por João Pedroso de Campos - 15 dez 2015, 18h09

Reportagem de capa de VEJA revelou em novembro de 2012 que o publicitário Marcos Valério procurou o Ministério Público citando três personagens sobre os quais teria muito que dizer: o ex-presidente Lula, o ex-ministro Antonio Palocci e o ex-prefeito de Santo André (SP) Celso Daniel. Condenado a mais de 40 anos de cadeia no julgamento do mensalão, Valério contou que o PT lhe pediu para conseguir dinheiro para calar um empresário que ameaçava envolver Lula no caso Celso Daniel. O operador do mensalão afirmou que não quis se envolver na história, mas que o dinheiro da chantagem acabou sendo pago pelo pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente, por meio de um empréstimo contraído no Banco Schahin. Preso pela operação Lava Jato, Bumlai foi questionado pela Polícia Federal sobre o caso – e descreveu a negociação do empréstimo.

Conforme revelou VEJA, Valério disse ter sido convocado pelo PT em 2003 para uma reunião com Ronan Maria Pinto, empresário de Santo André apontado pelo Ministério Público como integrante de um esquema de recolhimento de propina incrustado na prefeitura da cidade na gestão de Celso Daniel. A missão passada a Valério seria conseguir dinheiro para calar o empresário, que ameaçava envolver Lula e o ex-ministro Gilberto Carvalho no misterioso caso do assassinato do ex-prefeito. “Nisso aí eu não me meto não”, teria respondido o publicitário.

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Empréstimo a Bumlai foi ligado por Marcos Valério ao caso Celso Daniel

José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula preso em Curitiba por envolvimento no escândalo da Petrobras, confessou ontem em depoimento à Polícia Federal que tomou emprestados 12 milhões de reais do banco Schahin em 2004 e repassou 6 milhões ao caixa dois do PT de Santo André. Outra parte do dinheiro, conta o amigo de Lula, foi enviada a Campinas (SP) para quitar dívidas de campanha.

Bumlai afirmou ao delegado federal Filipe Hille Pace, no entanto, que não sabia qual seria o destino do dinheiro e só descobriu quando Marcos Valério ameaçou contar o que sabia ao MPF. O pecuarista confessou também que sua dívida com o banco nunca foi quitada e o pagamento que anteriormente declarou ter feito, por meio da venda de embriões bovinos, foi uma simulação. A dívida de Bumlai com o Schahin, segundo o Ministério Público Federal, foi perdoada quando a empresa passou a operar o navio sonda Vitória 10 000, da Petrobras, num contrato de 1,6 bilhão de reais.

Caso Celso Daniel – Prefeito de Santo André e coordenador da campanha de Lula, Celso Daniel foi sequestrado ao sair de uma churrascaria e morto em circunstâncias misteriosas em janeiro de 2002. O caso chocou o país. As investigações também: seguindo um estranho roteiro, a procura pelos assassinos esbarrava sempre em evidências de corrupção. E mais mortes. Sete pessoas ligadas ao crime morreram em circunstâncias também misteriosas, entre acusados, testemunhas, um agente funerário, um investigador e o legista do caso.

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Conforme a versão da polícia, abraçada pelos petistas, Celso Daniel foi vítima de crime comum: extorsão mediante sequestro, seguido de morte. Já familiares afirmam desde o início do caso que a morte do prefeito é um crime político em torno de um esquema de propina em Santo André que era do conhecimento da cúpula petista. É também a tese do Ministério Público: desentendimentos sobre a partilha dos recursos teriam motivado o assassinato.

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