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A mão amiga

Os honorários do advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, são um fenômeno. Só na Fecomércio do Rio, levou nada menos que 18 milhões de reais em um ano

A amizade entre Lula e o advogado paulista Roberto Teixeira, seu compadre, rendeu uma série de benefícios à família do ex-presidente. Lula morou durante anos em um imóvel do advogado. O filho Luís Cláudio hoje ocupa outro. Ambos sem pagar aluguel. O escritório de advocacia Teixeira Martins é acionado toda vez que os Lula da Silva se enrolam na Justiça – gratuitamente, para não perder o hábito. A Operação Lava-Jato já encontrou evidências de envolvimento do advogado na engrenagem montada para ocultar a quem pertence de fato o célebre sítio de Atibaia. E o que Teixeira ganha em troca de tantos favores? No mínimo, conexões. Isso nunca ficou tão claro quanto na contabilidade dos serviços prestados pelo Teixeira Martins à Federação do Comércio do Estado do Rio (Fecomércio-RJ). Em um ano e três meses de trabalho, oito notas fiscais obtidas por VEJA mostram que o escritório embolsou 18 milhões de reais, valor muito acima do padrão.

A Fecomércio faz parte do chamado Sistema S, um feudo petista desde o início da era Lula. Movimenta 1 bilhão de reais por ano. Quando Orlando Diniz, o presidente da federação desde 1997, viu seu cargo ameaçado e o órgão sob risco de intervenção, chamou o amigo de Lula, que foi eficientíssimo. Diniz permanece até hoje no comando. Em troca, Teixeira recebeu valores despropositados sob qualquer ângulo, segundo seis advogados ouvidos por VEJA. A título de comparação: a mesma Lava-Jato concluiu que o criminalista Nilo Batista faturou 8,8 milhões de reais ao longo de quinze anos com a Petrobras. É menos da metade do que Teixeira recebeu e por um tempo muito mais largo. Diniz pôde ser magnânimo porque não pagou quase nada do próprio bolso. O caixa da Fecomércio bancou a conta.

Teixeira foi contratado para defender Diniz em uma guerra interna com a Confederação Nacional do Comércio (CNC) deflagrada em 2011. Os conselhos nacionais do Sesc e do Senac pediram uma intervenção na seção regional do Rio por irregularidades em gastos com patrocínio de eventos que nada tinham a ver com a finalidade das duas entidades. A CNC entrou na Justiça para destituir Diniz, e iniciou-se uma batalha judicial entre Rio e Brasília. Amparado na proximidade de seu advogado com os poderosos, o presidente da Fecomércio esbanjava confiança em relação aos processos. “Nas reuniões, ele se gabava de ser amigo de Lula e de Sérgio Cabral (ex-governador do Rio)”, contou a VEJA um ex-diretor da federação.

As notas fiscais mostram que o escritório Teixeira Martins começou a receber da Fecomércio em 2013, mas mais de 90% dos honorários foram pagos no ano seguinte. O processo ainda não se encerrou e, se durar muito tempo, vai correr o risco de virar o mais caro da história. Procurado, Teixeira não retornou as ligações. Diniz, por sua vez, defendeu a contratação do escritório para “recuperar a administração do Sesc e do Senac”, mas não comentou os valores pagos. Nos autos do processo, o compadre de Lula continua a atuar na defesa.