A incredulidade da PF com explicações de ex-Banco Central para ‘consultoria’ a Vorcaro
Mensagens de ex-dono do Master expõem subserviência de chefes de supervisão do Banco Central ao banqueiro
O acervo de mensagens encontrado no telefone do ex-dono do Master Daniel Vorcaro mostra como, entre 2023 e 2025, Belline Santana, então chefe de supervisão bancária do Banco Central, e seu adjunto Paulo Sérgio de Souza eram subservientes a quem eles deveriam fiscalizar. Em dezembro de 2023, Paulo Sérgio, por exemplo, orientou o banqueiro sobre o que dizer em reunião que ele teria com Roberto Campos Neto, à época presidente da autarquia.
Os dois funcionários estão afastados do Banco Central, obrigados a usar tornozeleira eletrônica enquanto aguardam a conclusão do inquérito. Ambos negam ter cometido qualquer irregularidade. Alegam que a troca de mensagens com Vorcaro revela que eles estariam se esforçando para evitar a quebra de um banco com uma grande lista de credores e milhões de correntistas.
O delegado da Polícia Federal que colheu o depoimento de Paulo Sérgio em julho deixou patente sua incredulidade com essa versão nas perguntas dirigidas ao investigado.
Uma delas foi se a série de conselhos a Daniel Vorcaro antes de uma reunião com Campos Neto é o tipo de “consultoria” que ele tem que fazer para o banco, “no sentido de antecipar para o fiscalizado como ele deve se comportar numa reunião com o presidente”. O ex-chefe-adjunto de supervisão bancária respondeu que aquela era uma “situação muito específica”, em que o Master “estava sendo caracterizado no mercado como banco de precatórios e estava com receio grande de que o Banco Central alterasse a norma” para esse segmento.
Outro episódio sobre o qual o investigador se debruçou foi a venda, por Paulo Sérgio e seu irmão, de um sítio e uma casa em Guaxupé (MG) a Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, pelo valor total de 4,8 milhões de reais. O termo do depoimento transparece o ceticismo do delegado com as alegações do interrogado. “Questionado sobre se não seria difícil desvincular o negócio com Zettel de Daniel Vorcaro, dono de um banco que o declarante fiscalizava, (Paulo Sérgio) responde que Zettel não tinha vinculação nenhuma com os negócios do Master; que não tinha nenhum negócio para trás; que, hoje, olhando para trás, é fácil perceber”.
O documento é revelador: “Questionado, diante de todas essas estranhezas — como o fato de Zettel nunca ter assumido o sítio e a situação da casa —, se não lhe pareceu conveniente questionar o senhor Daniel Vorcaro, e se em nenhum momento passou pela cabeça que o Daniel Vorcaro poderia estar por trás do valor que estava sendo destinado a ele por intermédio da Pipe e da Noah, responde que realmente não sabe se isso de fato aconteceu; que nunca o seu relacionamento foi assim.” São ossos do ofício.
Procurado por VEJA, o advogado Odel Antun, que defende Paulo Sérgio, afirmou que o depoimento de seu cliente demonstrou que ele nunca favoreceu Vorcaro nem o Banco Master. “Pelo contrário, ele sempre atuou de maneira diligente nas suas funções no Banco Central. Não recebeu absolutamente nada do Daniel Vorcaro. Aquele sítio foi vendido pelo valor de mercado. Não tem absolutamente nenhuma negociata por trás disso”, disse.







