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A ex-faxineira que emplaca indicações importantes no governo Bolsonaro

A poderosa Geigê é responsável por apontar ocupantes de vários cargos federais, principalmente na área da cultura

Por Hugo Marques - Atualizado em 10 jan 2020, 10h24 - Publicado em 10 jan 2020, 06h00

Junto com o estilo heterodoxo de governar que inaugurou e divide o país, Bolsonaro carregou para Brasília uma série de neófitos nos círculos de poder. Essa turma tem dado as cartas nos bastidores, demonstrando grande ascendência sobre a máquina pública. Uma das personagens mais surpreendentes e empoderadas da safra é Geralda Gonçalves, ex-secretária e ex-faxineira radicada há mais de duas décadas nos Estados Unidos. Geigê, como é conhecida, tem intermediado reuniões com Bolsonaro e feito indicações para cargos em órgãos importantes, principalmente no Ministério da Cultura. “Eu tenho mesmo acesso ao presidente”, afirmou uma confiante Geigê a VEJA.

E não é que ela tem o poder? Recentemente, Geigê foi madrinha das nomeações de Roberto Alvim para a Secretaria Especial de Cultura e de Dante Mantovani para a presidência da Fundação Nacional de Artes (Funarte). Seus dois afilhados emergiram ao tablado causando polêmica. Alvim chamou a atriz Fernanda Montenegro de “sórdida” e “mentirosa” e, de quebra, tentou escalar a própria esposa para tocar um projeto de 3,5 milhões de reais em recursos públicos. Já Mantovani sentenciou: “O rock ativa as drogas, que ativam o sexo livre, que ativa a indústria do aborto, que ativa o satanismo” — e ainda emendou dizendo que John Lennon “fez pacto com o diabo”.

Nascida em Minas Gerais, Geigê caiu nas graças da primeira-família da República ao fazer campanha contra o PT e, depois, a favor de Bolsonaro em Nova York, onde mora há mais de vinte anos. Em março de 2015, por iniciativa dela, um dos telões da Broadway — um dos principais pontos turísticos da cidade, sempre apinhado de brasileiros — exibiu a mensagem “Get out, Dilma — and take the PT party with you” (Fora Dilma — e leve o PT com você). Naquela época, Geigê, que começou a aventura americana como faxineira, já tinha uma vida financeira confortável, em razão de seu casamento com um empresário que toca negócios imobiliários nos Estados Unidos e no Brasil. Em março de 2017, foi a vez de o telão mostrar um “We are Moro” (Nós somos Moro), em referência a Sergio Moro, então juiz da Lava-Jato e atualmente ministro da Justiça. A bolsonarista é tão entusiasta do ex-magistrado que se apresenta até hoje como Geigê Gonçalves Moro.

NA BROADWAY - Em campanha nos Estados Unidos pelo capitão: a manifestação teve até um sósia de Trump //Reprodução

Quando Dilma e o MDB ocupavam o poder, Geigê fez muitas vezes protestos solitários e de pouca repercussão. A situação começou a mudar quando, em outubro de 2017, o telão da Broadway mostrou uma imagem de Jair Bolsonaro, com os dedos em sinal de o.k., ao lado da própria Geigê. Estava semeada a parceria. A partir dali, ela passou a ciceronear a família e a divulgar a agenda de campanha de Bolsonaro no exterior. Numa demonstração de fidelidade explosiva às bandeiras personificadas pelo capitão, Geigê chegou a tirar selfies quando descarregava dezenas de tiros com dois revólveres Magnum calibre .44 em bonecos do pixuleco de Lula.

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Com a vitória na campanha, a cabo eleitoral americana ganhou espaço no governo que se formava. Suas sugestões de nomes começaram a ser feitas durante a transição. “Indiquei praticamente oito secretários”, calcula Geigê. Um deles foi Jorge Seif Júnior, expoente de uma família dona de barcos de pesca, para a Secretaria de Aquicultura e Pesca. O nome de Seif Júnior, cuja família foi multada por pesca ilegal, enfrentou a resistência da ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Numa mensagem de áudio a que VEJA teve acesso, Geigê contou a história nos seguintes termos: “Eu passava tudo para o Bolsonaro: ‘Ô, presidente, a ministra Tereza Cristina mandou o Júnior ir para Brasília, chegou lá, pagou avião e tudo, ela mandou ele voltar (…) Ela não está querendo dar o cargo para Júnior. Ela está querendo dar para o partido, para a turma do partido dela’ ”. Tudo leva a crer que a pressão da ex-faxineira funcionou.

Foi na Secretaria Especial da Cultura que Geigê fez mais nomeações. Além de Roberto Alvim, ela indicou os secretários de Economia Criativa, de Infraestrutura e de Fomento. “O Bolsonaro enxerga quem realmente está trabalhando. Por sinal, ele me falou: ‘Eu dei carta branca para o Alvim, vai ficar lá no guarda-chuva lá do ministério, porém o Alvim vai ter toda a carta branca para resolver o que quiser’”, disse Geigê numa conversa gravada. “As pessoas que estou indicando são as pessoas do Olavo de Carvalho”, completou, referindo-se ao guru da família presidencial.

ANTIPETISTA - Geigê nas ruas de Nova York, com a comunidade latina: até tiros de Magnum no pixuleco de Lula //Reprodução

A nomeação de Alvim é elucidativa. O então candidato a secretário primeiro enviou uma mensagem à sua madrinha, que a encaminhou posteriormente a Bolsonaro. O texto de Alvim dizia o seguinte: “Estou com uma equipe de excelência pronta para agir, de modo rápido e eficaz. Só espero suas ordens. Quem está lá agora não sabe o que fazer”. De seu celular, o presidente respondeu diretamente a Geigê: “Está tudo certo para o Alvim assumir a Cultura. A última conversa foi ontem”. Ela agradeceu a Bolsonaro e acrescentou um P.S.: “Forte abraço de sua sentinela em NY. Ajudarei o Alvim nas escolhas de pessoas preparadíssimas para a Cultura”.

Ao que parece, Geigê também tem poder para demitir. Ex-secretária de Audiovisual, Katiane Gouvêa perdeu o cargo sob a alegação de que usara dinheiro do fundo eleitoral, em sua campanha para deputada federal, em uma empresa da própria família. A VEJA, Katiane disse que caiu, entre outros motivos, porque se recusara a aceitar indicações feitas pela sentinela de NY para a Secretaria Especial da Cultura. Entre elas, uma para a área de licitação da pasta. “Estou aguardando aqui dois currículos da licitação. Já tem um, mas eu vou dar prioridade para o do André, aqui de Nova York, que está me indicando. O Andrezinho é um menino de ouro”, disse Geigê em áudio enviado à cúpula da Secretaria de Cultura. Sobre a acusação da ex-secretária de Audiovisual, Geigê limita-se a dizer que confiava em Katiane, sem entrar em detalhes sobre a demissão. “Eu repassava as informações para a Katiane repassar para os secretários”, afirma.

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Quando morava no Brasil, Geigê foi secretária do deputado José Aldo, que morreu em 1994. Ela começou a preparar sua mudança para Nova York no fim da década de 90, com a ajuda do ex-deputado Luiz Carlos Hauly, do Paraná, que era presidente do Grupo de Amizade Brasil-Estados Unidos. Hoje, Geigê mantém a parceria com Hauly, que colabora com o governo Bolsonaro na elaboração de medidas na área tributária. Em fevereiro, os dois, acompanhados do então secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, foram recebidos por Bolsonaro em audiência no Planalto. “Ela foi à audiência para a apresentação do projeto de reforma tributária. Estava na sala do presidente e ficou no sofá”, contou Hauly. Com trânsito liberado, Geigê levou ao presidente, em março, uma comitiva de políticos do norte de Minas para debater o desenvolvimento da região. “Seremos eternamente gratos por essa oportunidade que ela proporcionou a Itaobim, Medina e ao Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Obrigado, Geigê, muito obrigado mesmo”, escreveu numa rede social o vice-prefeito de Itaobim, Gilberto Cunha. Geigê é mesmo poderosa.

Publicado em VEJA de 15 de janeiro de 2020, edição nº 2669

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