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À espera de um milagre: a difícil ofensiva de Lula no universo evangélico

Petista tenta quebrar a resistência ao partido e furar a bolha bolsonarista em torno das lideranças das igrejas

Por Eduardo Gonçalves Atualizado em 25 jun 2021, 11h09 - Publicado em 25 jun 2021, 06h00

Desde que recuperou os direitos políticos, em abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está em campanha para quebrar a ampla resistência ao petismo — decisiva na derrota em 2018 — e se viabilizar como o grande rival de Jair Bolsonaro em 2022. Reabriu conversas com o centro e busca refazer pontes com o empresariado e os militares, dois setores avessos à pregação da sigla. Mas há um segmento do eleitorado que o petista encontra mais dificuldade para recuperar porque ele não só mantém viva a inclinação antipetista, como se tornou um dos pilares de sustentação do bolsonarismo: os evangélicos.

A admissão do erro que foi perder esse rebanho é uma das raras autocríticas do petismo (veja matéria na pág. 30). Com muito tempo livre nos 580 dias em que ficou encarcerado, Lula virou um espectador fiel das pregações de pastores no rádio e na TV e leitor de livros sobre o fenômeno neopentecostal. Solto, passou a levar esse material às reuniões com dirigentes do PT. Numa delas, no Rio, criticou a visão preconceituosa que boa parte da esquerda tem sobre o segmento e disse que é possível trazer a teologia da prosperidade (difundida entre os neopentecostais) para o discurso político.

ACENO - Ciro Gomes, do PDT: em vídeo, de Bíblia e Constituição nas mãos -
ACENO - Ciro Gomes, do PDT: em vídeo, de Bíblia e Constituição nas mãos – Reprodução/.

Em uma prova de que o tema está entre suas prioridades, Lula começou a ir até os pastores. Um dos encontros mais significativos foi no Rio com o bispo Manoel Ferreira, líder da Assembleia de Deus Ministério Madureira, uma das maiores igrejas do país — lá disse até que queria um líder evangélico como vice.

A mais de um ano das eleições, mencionar um companheiro de chapa evangélico, evidentemente, pode ser apenas uma artimanha política. Mas demonstra a importância que esse eleitorado ocupa hoje nas ambições do petista. A reação ao encontro, porém, dá uma ideia do nível de dificuldade da missão. Receosos, os dois filhos de Manoel, os bispos Samuel e Abner Ferreira, correram às redes sociais para mostrar que estavam fechados com Bolsonaro. Líder da bancada evangélica, Cezinha de Madureira (PSD-SP) ligou também para aliados do presidente para explicar que foi apenas “visita de cortesia” e postou duas vezes “Tamo Junto” com o Bolsonaro — com quem, aliás, desfilou na garupa durante a motociata em São Paulo no dia 12 de junho. “Bolsonaro foi o único que, no poder, permaneceu defendendo nossos valores”, diz o apóstolo César Augusto, da Igreja Fonte da Vida, um frequentador assíduo do Palácio do Planalto.

A pauta moral é, ao menos em público, um dos principais motivos alegados pelos líderes para terem se afastado do petismo nos últimos anos. Embora tenham crescido como nunca na era Lula e Dilma, com concessão de canais de rádio e TV e inauguração de templos, as igrejas pentecostais sempre foram vistas como inimigas por movimentos como o LGBTQIA+, que ganharam força nos últimos anos no partido. Estrategistas do PT mais alinhados a Lula têm batido na tecla de que é preciso segurar o discurso identitário para não implodir as pontes com o eleitor mais conservador. Na tentativa de trazer esse público, a ideia é focar mais em questões como desemprego e programas assistenciais do que em temas como aborto.

REAÇÃO - Bolsonaro: ida ao aniversário da Assembleia de Deus no último dia 18 -
REAÇÃO - Bolsonaro: ida ao aniversário da Assembleia de Deus no último dia 18 – Isac Nóbrega/PR

Sabendo das dificuldades com os pastores, porém, Lula abre outra frente, onde tem mais traquejo: a dos políticos. Um flanco é a insatisfação de dirigentes do Republicanos, partido ligado à Igreja Universal. Aliás, um dos nomes cotados para ser vice de Lula é o do deputado Marcos Pereira, pastor licenciado e ex-vice-presidente da Record. No Nordeste, onde o petista ainda é muito popular, os líderes da legenda são em sua maioria fechados com o ex-presidente. De olho nesse flerte e conhecendo o pragmatismo das lideranças religiosas, que muitas vezes se confundem com o vaivém do Centrão, Bolsonaro já começou a se mexer e passou a ventilar a informação de que Pereira pode ter um posto no Planalto. Além disso, indicou Marcelo Crivella para o cargo de embaixador na África do Sul, país estratégico para a Universal, da qual o prefeito do Rio é pastor licenciado.

Embora seja dificílima a tarefa de romper a bolha bolsonarista em torno das maiores lideranças das igrejas, alguns dados animam os que buscam arriscar a travessia espinhosa atrás desses votos. Nas eleições de 2018, sete em cada dez votos evangélicos foram para Bolsonaro. O apoio hoje continua forte, mas não é tão massivo. Na pesquisa Datafolha de maio, 47% desses eleitores disseram que o presidente não tem capacidade para liderar o Brasil e 35% avaliaram o seu governo como ruim ou péssimo — um empate técnico com os 33% de ótimo ou bom. O sinal foi percebido também por Ciro Gomes (PDT): na última segunda, 21, sob a produção do marqueteiro João Santana, ele postou um vídeo com a Bíblia em uma mão e a Constituição em outra afirmando que ambos não são “livros conflitantes”. Como se vê, políticos de todos os matizes tentarão o milagre da conversão dos evangélicos. Não será fácil. Só orando muito.

Publicado em VEJA de 30 de junho de 2021, edição nº 2744

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