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A era dos bufões

Estadista: precisa-se. Mas terá efeito num público enfeitiçado por rasgos antidemocráticos?

Por Roberto Pompeu de Toledo - Atualizado em 20 set 2019, 10h19 - Publicado em 20 set 2019, 06h30

Bem agora que começávamos a considerar Rodrigo Maia uma âncora de competência e sensatez nestes tempos sombrios, talvez até uma esperança de estadista na aridez da quadra política brasileira, ele conduz a Câmara na aprovação de um projeto que contém safadas modificações na lei eleitoral. Entre outras belezas, sob o ponto de vista dos políticos, o projeto afrouxa os controles sobre o uso dos fundos partidários e permite seu emprego até para pagar a advogados de envolvidos em corrupção. Maia teve atuação decisiva na aprovação da reforma da Previdência e destacou-se pela altivez em face das estrepolias do governo Bolsonaro. Mas sua atuação no projeto, aprovado pela Câmara na surdina no dia 3, derrubado pelo Senado na última terça, 17, e teimosamente ressuscitado pela Câmara, ainda que com modificações, no dia seguinte, ameaça fazê-lo retroagir da condição de esperança de estadista para exemplo da rapidez com que um político pode malversar o capital de prestígio acumulado.

Estadista é o político que se alimenta do espírito da história e, ao persegui-lo, põe-se acima dos partidos e das facções. Tancredo Neves foi um, com atuação determinante em dois momentos críticos da história brasileira — a renúncia de Jânio e a transição da ditadura militar para a democracia. Também demonstraram sê-lo, em momentos de teste, Ulysses Guimarães e Teotônio Vilela. Talvez seja demais exigir personagens equivalentes numa era de Bolsonaros e Trumps. O momento é dos bufões, especialistas em performances em que a graça está na ignorância, na mentira e no insulto. Rodrigo Maia vinha se constituindo em exceção pela rara virtude, na política de hoje, do discurso com começo, meio e fim. A aprovação do projeto eleitoral expôs-lhe o rabo preso com um tipo de política — mesquinha, subterrânea, mafiosa, tediosamente repetitiva — que faz o sucesso dos bufões nas urnas, ao se arvorarem em seus inimigos.

Sendo a bufonaria um fenômeno mundial, não espanta que os bufões compartilhem uma alma comum. Matteo Salvini, agora afastado do governo por uma manobra parlamentar, mas ainda o político mais popular da Itália, desafia o Estado laico como fazem Bolsonaro e seus ministros mais queridos. No momento mesmo em que, na Câmara dos Deputados, ainda como homem forte do governo, ouvia o primeiro-ministro Giuseppe Conte repreendê-lo pelo uso dos símbolos religiosos, puxou um rosário do bolso e, velhaco como são os canastrões da farsa, beijou-o. Salvini, parceiro da família Bolsonaro, defendia até outro dia a causa da independência da Itália do Norte e entoava canção em que os napolitanos eram descritos como tão sujos que até os cães os evitam.

Bolsonaro, em tecla similar, queixou-se de “governadores de paraíba” — o desprezo, ao contrário do que depois quis dar a entender, não era aos governadores, mas aos governados, meros “paraíbas”. Trump, que lhes dobra as apostas, já chamou os mexicanos de estupradores, países da América Central de “shithole countries” (países de merda), e conclamou quatro deputadas oposicionistas de origem latino-americana, árabe e africana a voltar a seus países “quebrados e infestados de crimes”. (Eduardo Bolsonaro e o nominal chanceler Ernesto Araújo curvam-se ao presidente americano sem se dar conta de que o Brasil e os brasileiros ocupam, em sua mente racista, o mesmo escaninho.) À trupe se juntou, nos últimos dias, o “brexista” Boris Johnson, cuja bufonaria vai do cabelo em desvario à má-criação de esticar as pernas sobre a mesa num encontro com o francês Macron.

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Estadista: precisa-se. Mas terá ele algum efeito junto a um público enfeitiçado por rasgos antidemocráticos e retórica escatológica? À falta de estadista na política, o papel tem sido representado no Brasil pelo decano do Supremo, Celso de Mello. Na despedida da procuradora-geral Raquel Dodge, que será substituída por um candidato a soldado do bolsonarismo, ele afirmou: “O Ministério Público não serve a governos, não serve a pessoas, não serve a grupos ideológicos, não se subordina a partidos políticos. O Ministério Público não se curva à onipotência do poder, não importa a elevadíssima posição que autoridades possam ostentar na hierarquia da República”. O estadista apresenta dois defeitos, ao gosto em voga: é sereno e é racional. Costuma-se dizer que vivemos a “era do espetáculo”. Fomos além, na verdade. Vivemos a era do estardalhaço — ideal para o triunfo dos bufões.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653

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