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Uruguaio Ghiggia, o silêncio do gol, morreu neste ano

O homem que calou o Maracanã, ao marcar o gol que selou a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950, morreu exatos 65 anos depois do feito

Por Dagomir Marquezi - Atualizado em 20 fev 2017, 10h59 - Publicado em 19 set 2015, 10h00

O homem que deprimiu um país inteiro nasceu num subúrbio de Montevidéu no dia 22 de dezembro de 1926. Alcides Edgardo Ghiggia virou um moleque magrelo, com 1,69 m e 62 kg. Logo que conseguiu, deixou crescer um bigode fininho sob o narigão. Descobriu que sua vocação era entortar zagueiros.

Começou em 1946, em clubes menores (Atlante e Sud América). Em 1948, era o novo ponta do Peñarol. Já no ano seguinte, foi campeão uruguaio, com 16 vitórias em 18 jogos. Quase metade desse Peñarol excepcional (incluindo Ghiggia) virou a base da seleção celeste na Copa de 1950.

O que aconteceu a seguir faz parte da mitologia do futebol. Em 16 de julho de 1950, com 23 anos, estava na final contra o Brasil. No Maracanã, segundo ele, havia “uns 40 torcedores uruguaios” para quase 200.000 brasileiros certos da vitória.

Logo no início do segundo tempo, Friaça marcou para o Brasil. E bastava o empate. O país começou a comemorar antes do tempo. Aos 21 minutos, Ghiggia disparou e centrou para Schiaffino, que fez 1 x 1. Aos 34 minutos, o ponta escorregadio teve outra chance. O goleiro Barbosa pensou que ele fosse centrar de novo. Mas Alcides chutou direto. E virou o jogo.

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Em seguida, o silêncio, o choro e a vergonha dos brasileiros. Foi o Maracanazo. “Sempre digo que três pessoas na história calaram o Maracanã”, dizia Ghiggia. “O papa (João Paulo II), o Frank Sinatra e eu.” Em 1953, no auge da forma, aceitou o convite da Roma. Em quatro anos, naturalizou-se italiano. Em 1960, conquistou o primeiro título internacional do clube: a Copa das Feiras (atual Liga Europa). No ano seguinte, mudou-se para o Milan e ganhou de cara o Scudetto.

Em 1962, voltou ao Uruguai. Encerrou a carreira pelo Danubio Fútbol Club, em 1968. Virou fiscal do Cassino de Montevidéu, com direito a uma aposentadoria apertada, mas sustentável. Já septuagenário, casou-se com Beatriz, sua terceira esposa, 40 anos mais jovem. Em 2009, deixou a marca de seus pés no Maracanã. No dia 13 de junho de 2012, seu carro foi atropelado perto de casa por um caminhão. O veterano herói da Celeste fraturou perna, braço, crânio e entrou em coma induzido. Pois, aos 85 anos, Alcides Edgardo Gigghia sobreviveu a tudo isso. E dois anos depois pôde testemunhar de perto uma nova Copa do Mundo no Brasil — e um vexame muito maior para os anfitriões.

A lembrança do Maracanazo o acompanhou até o fim. “Sempre que chega 16 de julho penso nos companheiros, penso nos adversários.” Em 16 de julho de 2015, aos 88 anos, recordou esse dia de glória internado num hospital de Montevidéu com dores nas costas. Enquanto assistia um jogo na TV com o filho Arcadio, sentiu a pontada. Ataque cardíaco. E assim partiu o último dos heróis da Celeste que levaram aquela taça para casa no meio do silêncio.

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