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Todos querem Lucas Lima

O jogador santista virou o mais cobiçado do Brasil. A razão? Não produzimos mais meias-armadores como ele

Antes do início da temporada, em um almoço com seu empresário, Lucas Lima profetizou: “Vamos chegar. Não sei se vamos ganhar, mas vamos chegar”. Seu time, o Santos, de fato chegou: obteve a segunda melhor campanha de fase de classificação do Estadual e foi campeão paulista. E a campanha, que muitos acreditavam fadada ao fracasso (ninguém, na bolsa de apostas do Guia dos Estaduais da PLACAR, cravou o alvinegro como candidato ao título), alçou o meia à condição de jogador mais desejado do mercado brasileiro.

Lucas Lima liderou o torneio em assistências para finalizações e figurou entre os dez melhores em passes certos, assistências para gol, cruzamentos, dribles, faltas e pênaltis recebidos. O camisa 20 do Santos hoje reina em um país que sofre para formar meias-armadores que se enquadram no protótipo moderno da posição. Atributos não faltam: juventude, qualidade e, sobretudo, o desempenho acima da média em uma função onde faltam jogadores de nível — Paulo Henrique Ganso, por exemplo, cada vez mais soa como foguete molhado.

PLACAR conversou com cinco treinadores que trabalharam com o atual camisa 20 do Santos. Todos eles começavam as respostas com alguma variação de “esse meia de armação está difícil de achar”. Atribuem a situação a um processo que começou em torno de 20 anos atrás na formação dos jogadores e cujos efeitos só estão sendo sentidos agora. “Começamos a valorizar mais a força do que a qualidade técnica. Todo mundo falava que futebol se ganhava pelos lados e aniquilamos a figura do meia. Só estamos corrigindo agora”, diz Dorival Júnior, que treinou Lucas no Inter. Dos cinco clubes brasileiros que na Libertadores em 2015, três deles usavam armadores estrangeiros: Cruzeiro (o uruguaio De Arrascaeta), Inter (o argentino D’Alessandro) e Atlético-MG (o também argentino Jesús Dátolo).

Nas seleções de base, a tendência é perceptível: de 1999 a 2009, em meio a Lincoln, Léo Lima, Daniel Carvalho, Renato Ribeiro, Fellype Gabriel e Renato Augusto, apenas Kaká alcançou grande destaque internacional como meia após disputar um Mundial sub-20. Em 2009, surgiram Giuliano e Ganso: o primeiro não se firmou na Europa e já retornou ao Grêmio, enquanto o segundo ainda não arrebentou. Desde então, as principais promessas da base foram Philippe Coutinho, Oscar e Felipe Anderson. O sucesso alcançado em Liverpool, Chelsea e Lazio, respectivamente, é contrastado por uma característica comum aos três jogadores: jogaram menos de 100 partidas no Brasil. Coutinho disputou 36 partidas pelo Vasco, e Oscar, 69 pelo Inter. Felipe Anderson chegou aos 98 jogos pelo Santos, mas boa parte como reserva de Ganso. Considerados apenas os minutos em campo, disputou o equivalente a 61 jogos. “Na formação, esse meia às vezes troca de função, é levado para a parte lateral do campo ou recuado como um volante. Com isso acabam não finalizando a formação na posição de origem”, afirma Marquinhos Santos, ex-técnico do Coritiba e com passagens pelas seleções sub-15 e sub-17.

DA RABEIRA AOS HOLOFOTES

Edson Khodor, sócio da Khodor Soccer&Marketing com Nilson da Silva Junior, descobriu o atual meia mais cobiçado do Brasil quando ainda disputava a série A-3 do Campeonato Paulista pela Internacional de Limeira, em 2011. Marília (onde nasceu), Chapecó e Rio Preto foram algumas das cidades por onde Lucas Lima passou nas categorias de base antes de conseguir uma chance em Limeira, em 2010 — e, mesmo assim, sob dúvidas: os treinadores relutavam em utilizá-lo pela falta de vigor físico. Naquele ano, a Inter disputava a quarta divisão do Paulista. “Falavam: ‘Ah, não vai dar conta’. Achavam que não ia aguentar porque é muito contato, muito contato mesmo”, diz Lucas. O meia, no entanto, foi um dos destaques do acesso: fez seis gols naquele ano, mesmo não sendo a conclusão o seu forte.

A ferro e fogo, Lucas Lima deu conta, enfrentando os gramados ruins da última divisão paulista e a dura cobrança do treinador Claudemir Peixoto. “Eu dava uma dura nos mais velhos para ele sentir a cobrança”, diz o técnico. “Num jogo decisivo, chegou no intervalo e ele me esculachou mesmo. Voltei, fiz o gol e conseguimos passar de fase”, ri Lucas.

Com a camisa 10, tirou a Inter de Limeira do fundo do poço. No ano seguinte veio um novo treinador, Lelo, e com ele o reconhecimento. Hoje comandando o Primavera de Indaiatuba, o treinador ainda lembra o que dizia a amigos em 2011 sobre Lucas: “Faz tempo que eu não trabalho com um craque”. Lelo o segurou na equipe do interior enquanto surgiam oportunidades de testes, como no Palmeiras B. “Viam qualidade nele e ofereciam a possibilidade de fazer teste, mas eu era contra: dizia que ele tinha que se valorizar, não era jogador de time B”, disse.

Enquanto isso, Khodor, em suas viagens, distribuía vídeos do meia para clubes e amigos. O único interesse real, todavia, vinha de fora do país: a Inter recebeu uma proposta de 800.000 dólares do Japão e, em 2012, o meia esteve a um passo de ser contratado pelo espanhol Racing Santander, mas a negociação esbarrou na dificuldade em conseguir o passaporte comunitário.

Até que, em 2012, Dorival Júnior, então no Internacional, lembrou-se de um dos vídeos que Edson Khodor, seu empresário, lhe deu quando ainda era treinador do Santos. “Eu percebia que, mesmo naqueles gramados horríveis da quarta divisão, ele procurava jogar com a bola no chão. Isso me chamou muito a atenção”, conta o técnico. Em Porto Alegre e em busca de um meia-armador, sugeriu a observação de Lucas Lima para o time sub-23 do Colorado.

O então dirigente colorado era Fernandão, que deu a missão para o scout Diego Cabrera: viajar para Limeira e assistir a três jogos de Lucas Lima. Atualmente coordenador técnico das categorias de base do São Paulo, Cabrera se lembra do que contou para Fernandão: “Uma relação com a bola muito boa, domínio de todos os tipos de passe, finaliza muito bem. Um jogador muito inteligente”. Em menos de 15 dias, Lucas Lima desembarcou no Beira-Rio e começou a treinar com o sub-23. Foi alçado rapidamente por Dorival e recebeu as primeiras chances, que diminuíram quando o técnico perdeu o cargo e deixou o clube. Fernandão e Dunga o sucederam, mas o meia não teve sequência. Com o atual técnico da seleção, treinou por duas semanas.

Sem espaço, foi emprestado para o Sport em 2013. No Recife, sua vida mudou. Em uma temporada que contou com seis técnicos no comando do Leão, Lucas Lima foi o destaque do clube na campanha do acesso, com sete gols e nove assistências na série B. “Hoje, o futebol exige uma participação muito maior, um jogador tem que dar três ou quatro piques em campo”, diz Oswaldo Alvarez, o Vadão, que levou Lucas Lima para o Sport. Em uma das partidas, chamou a atenção de Renato Duprat, representante do fundo Doyen Sports no Brasil, que passou o nome para o português Nélio Lucas, CEO da empresa. A Doyen aprovou a compra e, durante as negociações com o Internacional para levar Leandro Damião para o Santos no começo de 2014, Duprat questionou o presidente Giovanni Luigi sobre a possibilidade de adquirir também os direitos de Lucas. “Pode levar”, ouviu como resposta. Por 3 milhões de reais, a Doyen adquiriu 80% dos direitos econômicos de Lucas Lima. Só faltava definir onde ele iria jogar.

Foi uma ligação de última hora a responsável por levá-lo ao Santos. A diretoria demorou algumas semanas para responder ao agente. Sem resposta e com propostas na mão, Duprat deu um ultimato para o Santos: “Se até amanhã não me der a resposta, eu coloco ele no Palmeiras ou na Ponte”. Dias depois, o meia era apresentado no CT Rei Pelé, na Baixada Santista.

Foram três meses de treinamento e apenas quatro jogos no Estadual de 2014. Para a final, Lucas não foi sequer relacionado pelo então técnico Oswaldo de Oliveira. Assistiu de fora ao Santos ser derrotado pelo Ituano em pleno Pacaembu e perder o título. “Fiquei bravo. Não esperava ser titular, mas via que eu poderia estar no banco”, diz. A partir do momento em que teve sequência, foi, ao lado de Robinho, o destaque do Peixe na reta final do Brasileirão.

O NOVO MEIA?

No Santos, é Lucas Lima quem exerce o papel de engrenagem para as movimentações ofensivas. O sincronismo da formação tática passa pela posição do meia no gramado. Normalmente, recua para a mesma linha dos volantes santistas, evitando que o marcador adversário o acompanhe. “Quem me marca geralmente é o volante, então procuro uma forma de o jogador não me acompanhar e eu sei que ele vai evitar sair da frente da área. Se sair, o Marcelo [Fernandes, técnico do Santos] pede para o Robinho vir para dentro armar e abre espaço para o Geuvânio. Se ele não acompanhar, posso trazer a bola de frente, com uma visão ampla do jogo e mais difícil para o rival roubar”, diz Lucas, ainda nos tempos em que Marcelo Fernandes e Robinho eram parte do time santista.

A Doyen Sports contratou um personal trainer para trabalhar com Lucas assim que o meia chegou ao Santos para aumentar sua potência física e a força nas roubadas de bola e nos chutes a gol. “O Lucas tem um pouco de tudo isso. Além de criar e definir, ele dá o combate. Quando não está com a bola, ele participa”, afirma Dorival, atual comandante do jogador.

No Campeonato Paulista, além de liderar o Santos em assistências, Lucas Lima foi o jogador com mais desarmes no Peixe. “Com a evolução do futebol, os jogadores precisam ser mais obedientes e participar de todos os momentos do jogo”, diz o scout Diego Cabrera. No São Paulo, poucos conceitos são apresentados aos jogadores nas primeiras categorias, com a ideia de dar mais espaço para o talento. A partir do sub-17, no entanto, inicia-se um trabalho de consciência dos aspectos táticos para facilitar a transição para o profissional.

“Quem está desaparecendo é aquele camisa 10 que ficava passeando no jogo. Não serve mais”, afirma Levir Culpi, treinador do Atlético-MG. “Nosso volante é o Rafael Carioca, que é um armador. Assim como também adicionamos uma função de marcação aos meias habilidosos.” O desafio, de acordo com os técnicos, é encontrar esse meia dinâmico, capaz de criar jogadas no ataque, mas também de participar de forma ativa no sistema defensivo. “Esse meia tem que ter facilidade para jogar de costas e virar. Quando tem dificuldade, ele vira um volante articulador”, afirma o técnico Guto Ferreira, da Ponte Preta, que cita Robinho, do Palmeiras, e Fernando Bob, da Ponte, como exemplos dessa transformação. Lucas Lima, no entanto, parece ter nascido para a posição.

DE SAÍDA

Proposta é o que não falta por Lucas Lima. Mas o Santos diz que só vende para fora

Na virada do ano, o Santos viu Aranha, Edu Dracena, Mena, Arouca e Leandro Damião deixarem o clube. Em meio à maior crise financeira nos últimos anos, metade do time titular foi para outros clubes do Brasil. O mais disputado no desmanche santista era Lucas Lima.

De 26 de dezembro a 10 de janeiro, o diretor de futebol do Palmeiras, Alexandre Mattos, demonstrou forte interesse pelo jogador. Representantes da Doyen ainda se encontraram com o CEO do Flamengo, Fred Luz, e o diretor-executivo do Grêmio, Rui Costa, que queria Lucas Lima por empréstimo. O Santos pediu para o jogador ficar. O pedido foi atendido, mas, em troca, os representantes de Lucas receberam um compromisso de que o Santos estará disposto a ouvir propostas em julho.

“É um meia que tem muito valor, senão acaba indo depois para Emirados, China. Ele acredita numa oportunidade na seleção”, afirma Edson Khodor, empresário de Lucas Lima.

O único clube brasileiro a fazer proposta foi o Cruzeiro, que ofereceu 7,5 milhões de euros por 50% dos seus direitos – divididos entre Doyen (80%), Khodor (10%) e Santos (10%). O Santos, no entanto, tenta segurar o jogador e se nega a negociar com um clube brasileiro. A tendência, contudo, é que Lucas Lima seja negociado para a Europa. Sua idade (25 anos) é considerada o momento ideal para ir para os principais centros da Europa. Hoje, a oferta que o estafe do jogador espera ouvir fica entre 15 e 20 milhões de euros. Os mercados espanhol e português são o foco.

O presidente santista Modesto Roma afirma que o contrato do jogador vai até 2019. “Um dia, vai ter que ser liberado”, diz, mas, para isso, é necessária uma boa proposta para o clube.

Lucas Lima tenta se equilibrar entre seu interesse, de seu agente, da Doyen e do clube. “Me sinto pronto [para sair], sim, tenho trabalhado para, quando eu tiver a oportunidade, ser vencedor lá fora também”, afirma o atleta.