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Tinga: ‘A maior lembrança é o gol do título pelo meu time do coração’

Autor do gol do título da Libertadores em 2006, o ex-volante relembra as duas conquistas pelo Internacional e nem quer saber de dar palpite para o Gre-Nal

Por Alexandre Senechal Atualizado em 12 mar 2020, 10h31 - Publicado em 12 mar 2020, 09h00

Paulo César Fonseca do Nascimento é o nome de um homem que brilhou com as camisas dos dois maiores clubes do Rio Grande do Sul. Tinga, como ficou conhecido no mundo do futebol (uma alusão ao bairro da Restinga, região humilde de Porto Alegre), começou a carreira pelo Grêmio e teve sucesso, com dois títulos da Copa do Brasil. A consagração maior, porém, veio pelo rival Internacional, time do coração do ex-volante. No primeiro título da Libertadores do clube, em 2006, marcou o gol do título contra o São Paulo. Quatro anos depois, voltou da Alemanha para levantar a taça pela segunda vez.

Ídolo das duas torcidas, Tinga concedeu entrevista para fazer parte do Especial Libertadores de PLACAR pelo lado vermelho de Porto Alegre – confira aqui a entrevista do gremista Hugo de León, capitão na conquista da Libertadores de 1983. Na hora de dar sua opinião sobre quem é o favorito para o confronto continental, relembrou os tempos de atleta e aplicou um dos seus melhores dribles na reportagem. “Essa pergunta não precisa, né? Não gostaria de dar um palpite”, explicou.

  • Ao falar sobre suas lembranças da competição, Tinga não ficou em cima do muro. Elencou o primeiro jogo da final de 2006 contra o São Paulo, no Morumbi, como a melhor atuação que já viu do Internacional na história, apesar de ponderar que não viu jogar o time dos anos 1970, tricampeão brasileiro. A maior lembrança não podia ser outra: “o Inter é meu time de coração, onde sempre sonhei em jogar, e acabei fazendo o gol do título em 2006”, contou.

    PLACAR lançará o Guia da Libertadores 2020 neste mês e preparou uma série de entrevistas especiais com os craques que marcaram as campanhas históricas dos times brasileiros (clique aqui para ler todas). Confira, abaixo, o papo com Tinga:

    Qual a sua melhor lembrança na Libertadores? Joguei várias Libertadores pelo Grêmio e pelo Inter. As duas pelo Inter são especiais por ter sido campeão em 2006 e 2010. O que mais marca para mim foi a primeira, por fazer o gol do título mais importante da história do clube até aquele 16 de agosto. Foi o primeiro título de um clube que tem o nome de Internacional, mas não tinha um título internacional. Uma junção de fatores emocionais que marcaram muito. É meu time de coração, onde sempre sonhei em jogar, e acabei fazendo o gol.

    Qual foi o seu grande jogo? Nenhum se compara com aquela final. Foi o maior dia por tudo o que a gente viveu. Nenhuma imagem representa mais do que o que vivemos antes, durante a semana. Muito frio, muita chuva. Nós no hotel vendo as pessoas dormindo na rua para comprar ingresso, entrar no estádio. Aquele é o principal pelo título, mas em qualidade de jogo foi a primeira decisão contra o São Paulo, no Morumbi. Não lembro do time do Falcão, mas do que eu vi na história, aquele dia foi a melhor atuação do Inter em termos de qualidade e imposição. E tem a representatividade por ser a primeira Libertadores.

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    Qual era o ponto mais complicado em jogar a competição na sua época? Não gosto muito de falar do passado e do presente. Parece que no passado era tudo melhor, enfim. Joguei Libertadores, a primeira em 1997, 1998. Joguei a última em 2014. Então, peguei as mudanças. Hoje mudou um pouco. Era diferente, porque o fator local, ambiente, fazia diferença. Estrutura que vinha desde hotel, vestiário, arbitragem. O próprio destrato com a equipe adversária. Hoje não tem mais. Se chamar o cara de uma coisa, para o estádio. Hoje a coisa está mostrando que se tiver futebol, tem condições de ganhar. Um tempo atrás, um time bem fechado, utilizando o fator casa, direcionando quem vai ser o gandula, quando tomava um gol sumiam as bolas, isso não cabe mais nos dias de hoje. Está predominando a qualidade. Essa condição hoje pode acontecer de ter a hegemonia técnica. Ia no Uruguai, o campo imperava, o juiz fazia o jogo como queria, levando a favor.

    D'Alessando e Tinga comemoram classificação do Inter às finais da Libertadores da América
    D’Alessandro e Tinga comemoram classificação do Inter às finais da Libertadores da América em 2010 Maurício Lima/AFP/VEJA

    Teremos um Gre-Nal na Libertadores pela primeira vez. Quem está mais preparado e pode chegar mais longe? É um ótimo momento para os dois clubes. Histórico. Acredito que todos os envolvidos devem estar com muito orgulho de participar desses jogos. O torcedor tem que desfrutar da mesma forma.

    Mas qual o seu palpite? Ah, essa pergunta não precisa, né? Não gostaria de dar um palpite.

    Acha que o Flamengo construir uma hegemonia? Nós como brasileiros temos que aprender, exercer mais o elogio, falar as coisas boas que os outros fazem. Daquilo que entendo de futebol, não vi um time jogar coletivamente como o Flamengo está jogando. Vi times fazendo resultados melhores, como o Santos do Neymar, que fazia chover, o Ronaldinho no Grêmio, no Atlético, alguns times que um ou dois jogadores despontavam. O Edmundo no Vasco. Coletivamente, nunca vi. A nível brasileiro nunca vi. Acho que o Flamengo só não mantém uma hegemonia se perder para ele mesmo. O que não é difícil, porque é algo do ser humano. Times campeões é mais difícil de lidar. Eles cuidando deles mesmo, tem condição de montar uma hegemonia, talvez não tão grande quanto os europeus.

    O sucesso do Jesus valorizou o treinador estrangeiro e abriu uma porta para esse tipo de profissional no Brasil? Aqui temos o costume de pegar uma coisa que deu certo com A e tentar fazer com o B. Temos que fazer os questionamentos, identificar quem tem o perfil para trabalhar em determinado time. Nem todo mundo é o Jorge Jesus, que tem qualidade e um bom trabalho. Ele ainda tem um baita time e um baita clube, o que ajuda a dar certo. O treinador é importante, mas não mais do que os jogadores, porque não entra em campo. Tem uma série de treinadores estrangeiros bons, como é o Coudet, e outros que são ruins, assim como temos também no Brasil. Não adianta trazer só porque é de fora.

    O que você achou da final única, novidade no ano passado e que será no Maracanã esse ano? Acho interessante trazer tudo o que tem de melhor no futebol. Dá uma possibilidade da torcida se deslocar e conhecer um novo país. Na primeira, tivemos uma sorte grande de ser o Flamengo, que estava chamando a atenção do mundo, com um treinador que era europeu, contra o River que estava tendo uma hegemonia no continente. Isso proporcionou de a final ter essa atenção do mundo afora. Não sei se teria o mesmo sucesso com um time que não tivesse o mesmo peso das camisas do Flamengo e do River. Também caiu em uma data legal, não estava concorrendo com outros jogos. Tem que ver se os próximos terão os mesmos atrativos. Espero um time brasileiro chegue esse ano e tenha uma invasão no Maracanã.

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