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Sobre Ronaldo e Nureyev

Na sala principal do Teatro Bolshoi só há lugar para os muito grandes – os que ainda não chegaram lá brilham num espaço menor

Por Fábio Altman Atualizado em 29 jun 2018, 14h31 - Publicado em 28 jun 2018, 21h10

Não foi um baile, longe disso. Philippe Coutinho voltou a jogar bem, Neymar parecia outro homem. Os dois ainda não chegaram a compor uma dupla como foram a de Bebeto e Romário em 1994 ou a de Ronaldo e Ronaldinho em 2002. A vitória contra a Sérvia por 2 a 0 foi tranquila, confortável, mas a seleção ainda deve uma partida excelente – uma daquelas para as quais desfilaríamos, sem vergonha do chavão, uma lista de metáforas prontas: jogaram como música, pareciam bailarinos etc. Definitivamente não, ao menos por enquanto.

Saíamos, então, do estádio Spartak, de metrô, com conexão na estação Pushkinskaya, e dela até a Teatralnaya. Ao fim da imensa escada rolante, o sol de fim de tarde ilumina o Teatro Bolshoi. Cabe uma imagem, evidentemente inventada: Philippe Coutinho e Neymar, depois de três partidas, ainda não receberam o passe livre para se apresentarem na sala principal do mítico endereço. O pas de deux da dupla é ainda uma promessa. Eles poderiam se apresentar, vá lá, num salão menor, dentro do Bolshoi. É o Beethoven Hall, onde estive no início da noite desta quinta-feira pós-classificação do Brasil para as oitavas de final. No anfiteatro de 350 lugares, a plateia – muitos turistas, denunciados pelas camisas de futebol – acompanhou um concerto em que as estrelas eram as trompas. No repertório, Richard Strauss, Josef Haydn e Piotr Tchaikovsky. Bonito, na medida certa daquele espaço. Como decidira equilibrar o futebol e a música clássica, o Spartak e o Bolshoi num mesmo texto, tentando ligar os pontos, a certa altura vi na pianista Elena Kazina a coadjuvante (Philippe Coutinho) que por pouco não roubou o protagonismo de Viktor Shefer (Neymar).

Beethoven Hall //Divulgação

No intervalo, no saguão, subindo um lance de escadas, e se aproximando dos corredores que dão aceso às frisas da sala número 1 do Bolshoi, vasava o som do espetáculo que começara um pouco antes do festival de trompas – era Nureyev, balé que nasceu ruidoso. Estrearia em julho do ano passado, mas, dois dias antes do descer das cortinas, foi cancelado. O diretor do Bolshoi encarregado da produção alegou precisar de mais tempo, porque a coreografia estava mal ensaiada. A bailarina Maria Alexandrova, primeira-bailarina do corpo de baile, foi ao Instagram, lá onde todo mundo vai, e disse ser mentira, denunciando censura.

Rudolf Nureyev, bailarino russo – 13/11/1962 Central Press/Getty Images

Os três atos de Nureyev contam a história do fenomenal bailarino que desertou da União Soviética, deixou o Kirov, para brilhar em Paris e no mundo, uma estrela que nunca escondeu sua homossexualidade, seus hábitos, e a morte em decorrência da aids – num tempo em que a aids carregava um absurdo estigma. No fundo da cena de Nureyev há a célebre foto do artista totalmente nu, de frente, feita por Richard Avedon. Nos passos há insinuações de sexo e relacionamento entre dois homens. Segundo Maria Alexandrova, tudo isso incomodou a direção do teatro em tempos de Vladimir Putin, que não faz questão nenhuma de esconder seu desconforto com a comunidade gay. “Vivemos uma nova era”, escreveu a bailarina, apontando o absurdo. Outro fato alimentou a controvérsia em torno do cancelamento da primeira noite de Nureyev: pouco tempo depois, o diretor Kirril Serebrennikov foi preso, acusado de desvio de verbas públicas para a montagem de uma peça de teatro. Serebrennikov ainda está em prisão domiciliar. Seu filme, Leto (Verão) foi lançado em Cannes, sem a presença do diretor. Depois do cancelamento, finalmente Nureyev estrearia no Bolshoi em dezembro do ano passado, para curtíssima temporada. Voltou à cena agora, durante a Copa do Mundo.

Voltou com pompa, ingressos esgotados, no palco dos grandes – não nos esqueçamos que os muito bons, os que apenas roçam a grandeza, mas não a alcançaram, estes tocam e se apresentam no Beethoven Hall. A cena aberta do Bolshoi, a histórica, é para gente como Romário, Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo. Chegamos lá. Na véspera do jogo entre Brasil e Sérvia, Ronaldo esteve com a mulher no Teatro Bolshoi assistindo a Nureyev. Legal ter ido, à margem do futebol. Cometeu um único pequeno deslize, ao gravar um Stories no intervalo. Disse estar numa breve interrupção do “show”, e não do balé. Tudo bem, ele pode, o Nureyev da seleção.

Ronaldo no Teatro Bolshoi Instagram/Reprodução
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