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Sissi, a 1ª craque do futebol feminino: ‘Evoluímos pouco’

Camisa 10 vive nos EUA, onde trabalha como treinadora e segue jogando, aos 51 anos. Ela relembra os tempos de glória e avalia o cenário da modalidade

Por Lucas Mello - Atualizado em 16 Maio 2019, 14h48 - Publicado em 12 abr 2019, 11h00

Bem antes de Marta, o futebol feminino brasileiro já era reconhecido internacionalmente pelo talento de outra camisa 10 canhota. A baiana Sisleide do Amor Lima, mais conhecida como Sissi, marcou época na década de 90, no período em que a modalidade começou a ganhar espaço no país, na voz do narrador Luciano do Valle. A craque de cabelos raspados conquistou resultados expressivos ao lado de companheiras como Kátia Cilene, Pretinha e Roseli, especialmente na Copa do Mundo de 1999, da qual foi artilheira e medalhista de bronze. O feito de duas décadas atrás a tornou conhecida, mas não trouxe evoluções exuberantes nem para Sissi nem para a seleção brasileira. “Melhorou um pouco, mas nem tanto. Nossa geração marcou época, mas evoluímos pouco, não foi suficiente. A mudança foi bem menor do que merecemos.”

Tabela completa da Copa do Mundo feminina

Aos 51 anos, Sissi continua dando seus chutes e contribuindo para o futebol feminino justamente no país em que é mais valorizado, nos Estados Unidos, onde vive há 18 anos. É treinadora do California Storm, na cidade de Lomis, e ainda defende o time em uma liga menor. Apesar de fazer críticas à seleção atual, que acumula nove derrotas seguidas, diz que torcerá pelo título inédito na Copa do Mundo da França, que começa em junho. E admite que sonha em um dia voltar a vestir o uniforme amarelo. “Nunca escondi o desejo de fazer parte da comissão técnica da seleção, mas a CBF não vai muito com a minha cara”, diz em conversa por telefone.

Sissi, no California Storm Patricia Giobetti/California Storm/Reprodução

Nascida em Esplanada, no litoral norte da Bahia, Sissi deu seus primeiros chutes ainda criança, numa época em que o futebol era – acreditem! – proibido para mulheres por lei. Como apoio da família, especialmente do pai, passou a jogar futsal e futebol de campo quando a lei caiu, em 1983, então como 16 anos.

Mudou-se cedo para Salvador em busca do sonho, que alcançaria aos 21 anos ao estrear pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo experimental da Fifa, em 1988. Tempos depois, se tornaria a primeira estrela do futebol feminino do país, a maior antes de Marta, de quem, por sinal, guarda boas lembranças dos tempos de Vasco da Gama.

Na entrevista abaixo, Sissi conta como vive nos EUA e relembra momentos de glória, como quando o Morumbi pediu, em coro, que a camisa 10 do time feminino do São Paulo reforçasse o meio-campo do criticado time masculino:

Segue jogando, aos 51 anos? Sim, jogo em uma liga semiprofissional, a segunda maior dos EUA, o bicho pega (risos). A maioria das meninas estuda em universidades e têm entre 18 e 20 anos, mas as pessoas têm de esquecer essa questão da idade. A Formiga, por exemplo, tem 41 e vai jogar mais uma Copa pelo Brasil. É claro, é preciso conhecer bem o próprio corpo, eu sei quantos minutos posso jogar. Quem vem assistir ainda fica impressionado, todos querem saber qual o segredo, mas não tem segredo, sempre me cuidei. Minha avó tem 100 anos, acho que a longevidade vem de família.

E como é a nova vida de treinadora? Comecei em 2004, como auxiliar. Demorei para me adaptar, porque seguia pensando como jogadora, foi uma transição difícil. A comunicação também é complicada, por causa da idade das jogadoras. Hoje trabalho com meninas de 12 anos, o vocabulário delas é bem diferente, mas sou bem intensa e procuro passar minha paixão. Tirei licenças e hoje posso dizer que consegui separar a Sissi jogadora da treinadora.

A Copa de 1999, nos EUA, na qual você se consagrou, foi um marco para o futebol feminino? Sim, foi o evento que mudou minha carreira e o futebol mundial como um todo. Nunca fui uma jogadora de fazer muitos gols, mas marquei sete no Mundial. Acho que a estrutura que recebemos naqueles anos, como a do Paulistana (Campeonato Paulista feminino), e a do São Paulo, o clube pelo qual jogava, ajudou bastante. Nunca imaginei que fosse ser considerada a segunda melhor jogadora do mundo (só atrás da lenda americana Mia Hamm). As americanas diziam que os estádios não ficariam lotados, mas a final teve mais de 90.000 pessoas, foi inacreditável. Antes, na Olimpíada de Atlanta-1996, já havíamos nos destacado, com os jogos transmitidos na TV.

Sissi, na Copa de 1999, contra a Noruega em Pasadena, Califórnia Vincent Laforet/Getty Images

Qual a importância do narrador Luciano do Valle no futebol feminino? Ele foi o melhor narrador e também um dos nossos maiores incentivadores, foi muito importante. Sempre que narrava um jogo, era de arrepiar. É uma pessoa que faz falta, sempre falou bem do futebol feminino, nos respeitava. Foi muito difícil  quando recebi a notícia de que tinha falecido em 2014. É uma pessoa que guardo com muito carinho.

Ficou famosa naquela época, as pessoas te paravam nas ruas? Não diria “famosa”. As pessoas passaram a me reconhecer principalmente depois da Copa de 1999. Mas foi nos Estados Unidos que comecei a ter a sensação de ser realmente reconhecida, as pessoas me paravam nas ruas para pedir autógrafos e não foi fácil, porque sempre fui muito reservada. Até hoje quando vou a um shopping ou a um hospital, as pessoas vêm falar comigo. Às vezes não me deixam pagar uma refeição… Mas não foi fácil lidar com isso no início.

Apresentação no São Paulo, em 1997 Rodney Suguita/Folhapress

Em seu auge, conseguiu patrocínios? Tive parcerias com algumas marcas, mas sem receber dinheiro. Elas apenas forneciam chuteiras e equipamentos. Hoje a realidade é diferente, algumas meninas ganham bem com patrocínios. Nos Estados Unidos, às vezes, recebo algum  dinheiro para falar de algum produto, mas nada que valha muito financeiramente. Ganho mais trabalhando como treinadora do que com esses patrocínios. E também dou clínicas e palestras, que rendem um dinheiro extra.

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E da CBF, teve algum apoio financeiro? No primeiro torneio, em 1988, só nos forneciam o uniforme usado pelo time masculino (risos) e um suporte financeiro básico. Mas nem nos importávamos, porque nosso objetivo era representar o Brasil. A CBF pagava uma diária baixa, nem me lembro de quanto. Foi assim em todas as vezes que me apresentei à seleção, até o fim da carreira. Sempre ganhei mais jogando pelos clubes.

Sissi marcada por Wei Haiying, da China, na Olimpíada de Atlanta-1996 Douglas Collier/AFP

Em 1997, o time masculino do São Paulo vivia uma crise e em diversos jogos a torcida gritou “Hey Muricy, coloca a Sissi”. Como recebeu aquilo? Estava na arquibancada em um desses jogos e me arrepiei, cheguei até a chorar ao ver os torcedores gritando meu nome… Isso foi fruto do meu trabalho, representei o São Paulo muito bem, me dediquei de corpo e alma. Achei a repercussão engraçada. Não queria estar no lugar do Valdir (Bigode, atacante que deixou o São Paulo em 1996, após críticas da torcida – em algumas partidas, era cantado “A Sissi é melhor que o Valdir”). Até hoje tenho o áudio daquele momento, já mostrei para minhas jogadoras. Ficou marcado na minha vida. Achei legal, fiquei lisonjeada, mas não gosto de comparações com homens.

Ainda tem contato com as jogadoras daquela época? Assim como eu, meninas como a Kátia Cilene, a Pretinha e a Roseli também tiveram a sorte de vir para os Estados Unidos e melhorar suas vidas. Mas sei de várias que, até hoje, buscam reconhecimento. Falta, por exemplo, um cargo para as mulheres na CBF. Algumas colegas tiveram de parar de jogar, porque não dá para sobreviver de futebol. Caso tivesse permanecido no Brasil, nem sei o que teria acontecido comigo. Tive sorte de ficar nos EUA fazendo o que gosto, com um trabalho digno, mas não foi fácil. Tive de guardar cada centavo, fazer sacrifícios. Consegui comprar uma casa para minha família, ajudar meus irmãos, mas não levo uma vida de luxos, como grandes ex-jogadores do masculino.

No Vasco, jogou com a Marta no começo da carreira dela, entre 1999 e 2000. Já dava para imaginar onde ela chegaria? Jogava no time principal e a Marta no juvenil. Acho que ela não tinha noção do quanto era especial, mas nós sim. No treino, quando jogávamos juntas, a Marta “brincava”. Ela não se satisfazia em dar um drible apenas, queria deixar as jogadoras, goleira, no chão. Eu falava para a Leda (ex-meia da seleção): ‘Só dá para parar a Marta na base da porrada’. Lamento que nunca tenhamos jogado juntas no profissional. Logo em seguida, ela saiu para jogar na Suécia (foi para o Umea em 2004).

Há muita diferença entre a realidade do futebol feminino no Brasil e nos EUA? O talento brasileiro é natural, incomparável. Tive treinadores que me ajudaram bastante, mas era natural. Aqui nos EUA o futebol é bem diferente, estruturado. No clube em que trabalho, há mais de 1.000 meninas registradas e aproveitamos nas categorias de base, da qual sou diretora. Há um calendário estruturado, já sabemos tudo que vai acontecer durante o ano. O jogo também é mais físico. Há programas que identificam jogadoras para as seleções americanas sub-15, sub-17, sub-20 para a seleção profissional, que vai jogar Olimpíadas e Copa do Mundo. Eles levam isso muito a sério, e você pode perceber que a seleção americana está sempre se renovando, diferentemente do Brasil. Talento as brasileiras têm de sobra, mas só isso não vai fazer com que ganhemos uma Copa.

Como foi jogar a primeira liga profissional lá, em 2001? Eu já conhecia algumas meninas da seleção americana e vim para cá. Foi uma das melhores experiências na minha carreira, a estrutura era excepcional. Os treinos, os campos, a disciplina, o horário, coisa de primeiro mundo. Só precisava chegar e jogar. Estava com 33, 34 anos e achavam que eu não conseguiria me adaptar à cultura, à língua, porque eu não falava inglês. Mas foram os três melhores anos da minha vida, recebendo um salário justo. Tive momentos bons no Brasil, mas aqui tive o que sempre sonhei: suporte, reconhecimento do público e estrutura. A única coisa que foi difícil para mim no início era o estilo de jogo diferente. Tive que me adaptar.

Sissi, no CyberRays, dos Estados Unidos, em 2001 //Placar

Tem acompanhado a seleção feminina? O que espera para a Copa do Mundo? Comecei a ter cabelos brancos por causa dos últimos resultados. É fácil criticar estando de fora, não sei o que acontece no dia a dia, mas estou preocupada, são nove derrotas seguidas. Prefiro não criticar o Vadão, porque hoje sou uma treinadora também, não queria estar na pele dele nesse momento. Espero que ele consiga consertar muitas coisas. Não sei se dará tempo, porque estamos a um mês da Copa, mas ele é o treinador, só ele sabe o que está acontecendo. As equipes que vamos enfrentar evoluíram, não sei se somos superiores como antes, mas quero ser otimista, independentemente da administração que não agrada muita gente.

E o que achou da polêmica envolvendo a demissão da Emily Lima? Bom, primeiro fiquei bastante feliz de terem colocado uma mulher no comando, como na Alemanha, nos EUA, no Japão… Mas a demissão me decepcionou. Sei que tudo é baseado em resultados, mas a Emily perdeu só alguns jogos, bem menos do que o time atual. Eu achava que ela deveria ter mais tempo, porque é um trabalho a longo prazo. Conversei com a Emily e ela sabia que não era uma situação fácil, porque há questões políticas, algo que eu também não sei lidar muito bem. É difícil ficar em um cargo em que tem gente que faz de tudo para que você não dê certo. Por que não colocar outras mulheres como parte da comissão técnica? Por que não colocar uma mulher como auxiliar, pelo menos?

Time feminino de salão da Bordon. Sissi é a quarta da esquerda para a direita, em pé //Reprodução

Acredita que essa Copa do Mundo possa trazer mudanças no futebol brasileiro? Tudo vai depender da atuação da seleção. Ninguém nos coloca como favoritos pela situação de hoje. Mundialmente o futebol feminino cresceu e melhorou muito. Quem era a França anos atrás? Hoje ela pode ser considerada uma das favoritas. Ainda temos EUA, Alemanha, Japão… hoje o Brasil não está nem entre os cinco melhores times.

Pretende voltar para trabalhar no Brasil? Sempre falei que meu sonho era um dia trabalhar na seleção, nem que fosse como auxiliar. Voltar para o Brasil depende muito das coisas que acontecem na minha vida. O que tenho aqui, dificilmente teria aí. Deixo nas mãos de Deus, se eu tiver uma oportunidade boa para mim e minha família, volto sem dúvidas. Nunca escondi o desejo de fazer parte da comissão técnica da seleção, mas não sou eu que comando o futebol brasileiro, tem um órgão responsável por isso. Acho que pelo fato de eu já ter falado muito, ser questionadora, a CBF não vai muito com a minha cara. Gostaria também de trabalhar com um time de base, que é justamente a maior deficiência do Brasil hoje. Se quisermos uma renovação, temos que começar de baixo, porque a Formiga e a Marta não vão jogar para sempre.

2019: O ano do futebol feminino

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