Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Rússia, a pátria de luvas de goleiro

Yashin, Dasaev e agora Akinfeev. No país que sedia a Copa do Mundo, os ídolos são aqueles que evitam os gols

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 1 jul 2018, 14h21 - Publicado em 20 jun 2018, 17h01

SÃO PETERSBURGO – Na terra de Iuri Gagarin e Lev Yashin, toda criança quer ser astronauta ou goleiro. A frase de um professor de futebol de São Petersburgo pode soar exagerada, mas encontra eco em breves passeios pelo país que sedia a Copa do Mundo. O Museu da Cosmonáutica de Moscou, onde foguetes e até o corpo empalhado das cadelas Belka e Strelka – os primeiros seres vivos a orbitarem o planeta e retornarem vivos, em 1960 – estão expostos, está entre os pontos turísticos mais procurados da capital da Rússia. Para chegar até o local, a melhor opção é o monumental metrô moscovita, cujos vagões estão decorados com imagens de futebol, especialmente de Lev Yashin, o homem que inaugurou a paixão dos russos por goleiros e abriu espaço para novos ídolos como Rinat Dasaev e agora Igor Akinfeev.

Tabela completa de jogos da Copa do Mundo de 2018

O goleiro soviético Lev Yashin realiza defesa durante partida contra a Itália, válida pela Copa do Mundo de 1966 - 16/07/1966
Yashin na Copa de 1966 PA Images/Getty Images

O Aranha Negra, como ficou conhecido o lendário arqueiro de uniforme todo preto, é o maior expoente do futebol local. Yashin fez história no Dínamo de Moscou (único clube que defendeu) e disputou quatro Copas do Mundo pela União Soviética – teve como melhor colocação o quarto lugar, em 1966. Foi campeão olímpico em Melbourne-56, europeu em 1960 e é até hoje o único goleiro a receber a Bola de Ouro, em 1963. A imagem de Yashin está em toda parte, inclusive em cédulas comemorativas e no pôster oficial da Copa. Um de seus netos, Vasily Frolov, que também foi goleiro profissional e hoje tem uma escolinha – de goleiros, claro –, explica que Yashin se tornou um mito soviético não só por sua qualidade sob as traves, mas por sua postura.

“Ele era um típico homem soviético, prezava por seu trabalho e sua família. Gostava de pescar, tinha um grande círculo de amigos, amava se comunicar. Os amigos falam dele como um líder. Ele entrava na sala, e tudo parecia se encher de luz, meu avô sabia como atrair as pessoas e parecia ter uma autoridade indiscutível. Creio que sua grandeza consiste não só no fato de que ele era um bom jogador, mas principalmente no fato de que era um bom marido, pai e amigo”, conta Frolov, que tinha apenas quatro anos quando Yashin morreu, em 1990, por complicações de um câncer no estômago, um ano antes do fim da União Soviética. (Veja a entrevista completa)

  • O ex-goleiro russo Rinat Dasayev, antes de partida contra a Bélgica, válida pela Copa do Mundo de 1986 - 15/06/1986
    Dsaev na Copa de 1986 Mike King/Getty Images

    “Cortina de ferro” – Rinat Dasaev foi o melhor dos tantos “sucessores de Yashin” e é outro ídolo mundial da posição. Goleiro da União Soviética nas Copas de 1982 e 1986,  destacou-se em partidas contra a seleção brasileira de Zico e Sócrates e foi considerado um dos mais seguros de sua geração. Atualmente, o ex-jogador de 61 anos é preparador de goleiros do Spartak, o clube mais popular da Rússia, e considera que a tradição russa de goleiros precisa ser respeitada. “Tivemos uma escola de goleiros excelente, vários ídolos. Creio que muitos pais ainda contem histórias sobre os grandes goleiros russos e isso influencia a escolha das crianças”, contou o ex-camisa 1, apelidado de “Cortina de Ferro” em seu auge.

    Dasaev rejeita com a mesma solidez que demonstrava nos gramados a máxima (popular no Brasil, o país dos atacantes) que relaciona goleiros à loucura. “Não, certamente o goleiro não deve ser louco, pelo contrário, sempre deve pensar, considerar as situações, prever tudo, enxergar o campo, coisas que um louco não conseguiria.” Dasaev é um homem de ideias firmes – e por vezes controversas. Garante que a Rússia não voltou a ter um goleiro de nível mundial porque “antes era diferente, treinava-se muito mais, a escola se degradou” e diz que o técnico Stanislav Cherchesov acertou ao não levar o goleiro brasileiro naturalizado russo Guilherme Marinato, campeão russo com o Lokomotiv, para a Copa. “Não acho que deveria ser o goleiro da Rússia.” Questionado se é contra às naturalizações, Dasaev não titubeou. “Sim, sou totalmente contra.”

    Akinfeev, um herói local

    A Rússia, de fato, não voltou a ter um goleiro entre os mais badalados do mundo, mas o atual camisa 1, Igor Akinfeev é, sim, um dos esportistas mais respeitados do país. Pelas lojas de artigos esportivos, a camisa da seleção russa vem fazendo sucesso, sobretudo após o bom início da Copa. Invariavelmente, o traje verde ou azul de Igor Akinfeev aparece com destaque nas prateleiras, algo não tão comum em outros países. Sua expressão fechada também é vista em materiais de divulgação do Mundial, nas Fan Fests ou aeroportos.

    O goleiro russo Igor Akinfeev durante partida contra a Arábia Saudita, válida pelo grupo A da Copa do Mundo, realizada no Estádio Luzhniki, em Moscou - 14/06/2018
    Akinfeev na abertura da Copa Kevin C. Cox/Getty Images

    “Akinfeev é o melhor goleiro que o país teve após o fim da União Soviética. É um ídolo do CSKA, único clube que defendeu, mas torcedores de todos os times cantam seu nome nos estádios”, conta o jornalista Evgeny Markov, do site Sport.ru, um dos esportivos mais conhecidos do país. Aos 32 anos, Akinfeev jamais deixou seu país – chegou a receber propostas internacionais, mas as lesões no joelho e a comodidade de viver em seu país sempre o mantiveram longe da fama mundial.

    “A carreira do jogador é muito curta e os jogadores precisam pensar em suas famílias. Por aqui, ídolos como Akinfeev recebem ótimos salários. Conheci muitos jogadores sul-americanos que passavam dificuldades em seus países, então eles tinham mais necessidade que os russos de hoje de ir a outro país”, explica Dmitriy Radchenko, ex-atacante que atuou com Bebeto e outros brasileiros no La Coruña, na década de 90. 

    Akinfeeev vem se destacando neste Mundial. Levou apenas um gol em dois jogos, de pênalti, em cobrança do craque egípcio Mohamed Salah, é o capitão da equipe, e já uma das sensações do Mundial. Conseguiu, assim, se recuperar da falha bizarra que sofreu no último Mundial, num empate contra a Coreia do Sul, em Cuiabá. “Creio que se ele estiver bem psicologicamente pode ser o destaque da Rússia nessa Copa”, afirma o exigente Dasaev.

    O goleiro russo Igor Akinfeev posa para retrato oficial para a Copa do Mundo Michael Regan - FIFA/Getty Images
    Continua após a publicidade
    Publicidade