Clique e Assine por somente R$ 2,50/semana

‘Quero ser a melhor versão de mim mesmo’, disse Alisson a PLACAR

O melhor goleiro do mundo, capa da revista neste mês, conta detalhes sobre sua carreira, prêmios e sonhos a serem cumpridos

Por Leandro Behs Atualizado em 14 jul 2020, 14h44 - Publicado em 14 jul 2020, 14h21

A edição de julho de PLACAR, já disponível nas plataformas digitais, remonta a trajetória do goleiro Alisson Becker, do Liverpool e da seleção brasileira, eleito o melhor goleiro do mundo pela Fifa. Em entrevista feita durante a preparação da reportagem de capa, o camisa 1 disse ter o sonho de voltar ao Internacional, clube que o revelou, e conquistar um título importante com a camisa que iniciou a carreira.

Quer ler a íntegra do perfil de Alisson na PLACAR? Clique aqui e saiba como assinar a revista

Alisson deixou o Inter em 2016 para defender as cores da Roma. Mesmo com proposta da poderosa Juventus, de Turim, o goleiro preferiu ir para o clube da capital italiana. Pelo time giallorosso, o goleiro de 1,93 metro precisou de pouco tempo para ganhar a titularidade de Wojciech Szczesny (hoje titular da própria Juventus) e conquistar a torcida com atuações espetaculares e até mesmo se esforçando para aprender a língua e cultura local. De desconhecido a goleiro mais caro do mundo, Alisson se consolidou como o melhor do mundo no Liverpool, ao conquistar grandes títulos, o último deles o da dificílima Premier League.

Confira abaixo a entrevista na íntegra, feita pouco antes da confirmação do título inglês:

Qual o segredo de um sucesso tão rápido em Liverpool? Sabia que estava chegando em um clube de altíssimo nível, com um elenco já pronto, e que necessitava apenas de algumas peças pontuais. E fui contratado na esperança de que eu fosse uma dessas soluções. Sabia do potencial da equipe, mas sabia também que era necessário tempo. Não esperava ter resultados tão rápidos.  

Mas a sua carreira foi muito bem planejada. Ao deixar o Inter, você optou pela Roma, em vez de ir para a Juventus, que desejava te contratar, porque o Buffon ainda estava em Turim, e você teria pouco espaço com ele lá. Todos os nosso movimentos foram bem pensados. Fui muito bem aconselhado pelo meu empresário (Zé Maria). A proposta da Juventus era quase a mesma da Roma. Em termos de salário, até melhor do que a da Roma. Mas eu pensava em jogar logo, pelo fato de já estar na Seleção Brasileira, e precisar jogar. O projeto esportivo da Roma era superior ao da Juventus. Lá, eu teria maior projeção do que na Juventus. E foi a decisão correta, pois a Roma acabou me colocando onde estou hoje.

  • Você chegou a se aconselhar com o “Rei de Roma” Paulo Roberto Falcão antes de ir para lá? Antes, não. É curioso isso, pois só fui ter contato com o Falcão lá em Roma mesmo. É um grande ídolo até hoje na Roma e em toda cidade. É mais uma coisa em comum entre nós: ambos formados pelo Inter, ambos negociados ao time da capital italiana. Fui bem na Roma, chegamos longe na Champions League. Gostaria de ter obtido melhores resultados, queria títulos, mas acho que pude deixar uma boa impressão por lá.

  • Se diz que um de seus grandes trunfos para vencer em Roma foi a integração rápida à cultura local, além de ter aprendido a língua local logo na chegada, dando, inclusive entrevistas em italiano. Todo o atleta que faz sucesso em um clube na Europa precisa passar por esse processo de adaptação. É preciso entender e cultura local, entender a paixão das pessoas pelo clube, conhecer a cidade. Me interessei por isso, aprender uma cultura nova, um idioma novo. Fiz seis meses de aulas de italiano, ainda em Porto Alegre, antes de embarcar para a Roma. Aprendi o idioma e, desde o início, arrisquei dar entrevistas em italiano. Todo errado, é claro, mas as pessoas valorizam esse esforço de você tentar se comunicar o melhor possível com eles. No Rio Grande do Sul temos muito da cultura italiana, o que facilitou demais essa adaptação. Eu e minha esposa adoramos Roma, é uma cidade fantástica, com pessoas fantásticas. Tanto é assim que a minha filha (Helena, hoje com 3 anos de idade) nasceu lá.  

    Pelos prêmios individuais que você conquistou, acha que já pode ser considerado um dos maiores goleiros formados no Brasil? Não penso muito nisso. Daqui a uns 10 anos, quando eu parar de jogar, talvez isso possa ser cogitado. Tenho um caminho longo a percorrer. Cada grande goleiro da história do Brasil marcou a sua passagem. Taffarel marcou pela Copa de 94 e de 98. Dida ganhou tudo, de Brasileirão a Champions. Marcos, consagrado pela Copa. Júlio César, um gigante na Inter, de Milão, e na Seleção Brasileira. Isso para ficar apenas nos goleiros de uma geração. Dependerá muito do que farei daqui para a frente. Quero, sim, ser a melhor versão de mim mesmo. 

    Muriel, Dida e Taffarel são os grandes goleiros da tua carreira? Com certeza esse trio influenciou muito a minha vida. Meu irmão (Muriel, atual goleiro do Fluminense), tem forte influência sobre a minha carreira e sobre o meu caráter, a minha formação. Taffarel, indiretamente, por ser meu ídolo e uma inspiração para a minha geração, pelo fato de ele também ter sido cria do Inter, temos a mesma escola de goleiros, a mesma formação, por ser o meu treinador na seleção, e por termos a mesma forma de ver a vida e de pensar na profissão. E com Dida, por ter tido uma convivência de dois anos no Inter (Alisson acabou sucedendo Dida como titular do Inter, a partir do final da temporada 2014), foi um cara que me ensinou muito de boca fechada. Tivemos um bom relacionamento. Sempre que podíamos, nós, os goleiros (à época, Dida, Muriel e Alisson), íamos almoçar juntos. Dida ensinou muito pelo exemplo no dia a dia. Era sempre o primeiro a chegar para o treino, chegava e ia para a academia treinar. É a mentalidade vencedora que vejo aqui, na Europa. A sabedoria e a calma dele me ensinaram muito. Esses três impactaram muito a minha vida.

    Aos 27 anos de idade, você é um goleiro para pelo menos mais duas Copas do Mundo. Concorda? Eu sonho com isso. Mas penso no que posso alcançar no momento. Por enquanto, penso em me manter na seleção na próxima convocação. Mas, quando você está inserido no ambiente da seleção, quer dar o próximo passo, que é o de se classificar para a Copa. Daqui a duas Copas, eu não sei. Mas, na próxima, eu quero estar lá.

    Você fala em parar daqui a 10 anos. Isso é um número aleatório ou realmente pensas em parar antes dos 40 anos? É muito cedo ainda para pensar nisso. Quero curtir essa fase, o meu clube, ter a chance de disputar os grandes títulos, e o futuro deixo em aberto. Quero é fazer as coisas acontecerem agora.

    Continua após a publicidade
    O brasileiro Alisson recebeu o prêmio de melhor goleiro da temporada Christian Hartmann/Reuters

    Pessoas próximas a você dizem que um de seus sonhos é voltar para o Inter, quando for para encerrar a carreira. Apesar de ter jogado no clube desde os 9 anos de idade, você atuou muito pouco como profissional. Há algo a ser resgatado? A minha despedida foi muito emocionante (já vendido à Roma, Alisson pediu para jogar na estreia do Inter no Brasileirão de 2016, no Beira-Rio, em um 0 a 0 com a Chapecoense; ao final da partida, emocionado, ficou sentado uma lado da trave, por quase uma hora, mirando o estádio já à penumbra). Nem consegui me despedir direito porque eu falava e ia me emocionando. Até aquele momento, havia vivido mais da metade da minha vida no Beira-Rio. Entrei um menino, saí um homem. Sou grato pelo que vivi no Inter. Não creio que deva alguma coisa, pois sempre entreguei o meu melhor. Mas sonho conquistar um título expressivo pelo Inter: uma Libertadores, um Brasileirão (Alisson venceu quatro  campeonatos estaduais pelo clube). Ficar marcado na história com um grande título, ainda que eu já esteja na história do clube. Quero voltar para o Inter. Quero viver o meu auge aqui, mas quero voltar ao Inter podendo dar algo ao clube, e não só voltar por voltar. E, é claro se o Inter precisar de mim. Mas é, sim, um sonho voltar a vestir a camisa do Inter.

    O rebaixamento do Inter, em 2016, te marcou? Marcou demais, me machucou muito. O Inter não merecia passar por aquilo, é difícil aceitar. Mas, na vida, muitas coisas negativas acabam chegando para um bem maior. O clube precisava passar por uma reconstrução, e o descenso fez com que muitas coisas mudassem. Está pronto para voltar a ser o Inter vencedor.

    O que você conseguiu aprimorar como goleiro na Europa? Tudo. Evoluí em todos os aspectos. É claro que o meu jogo com os pés ficou mais evidente, mas isso atribuo mais à característica do Liverpool (em janeiro, o lance mais emblemático dos jogos com os pés de Alisson; o goleiro fez uma intervenção, ergueu os olhos, encontrou Salah livre e, com um lançamento, deu a assistência para o gol do egípcio, no 2 a 0 do Liverpool sobre o Manchester United). Na Roma eu já jogava muito com os pés, mas, aqui, no Liverpool, isso fica mais evidente por ser um time que gosta de ter a bola, que gosta de sair jogando. E isso fica mais exposto. Sou um jogador a mais em campo, não apenas um espectador. Mentalmente também evoluí muito. Não apenas na concentração, mas no profissionalismo também. Saber que o dentro de campo depende muito do que se faz fora de campo.

    O Liverpool é o melhor time do mundo? O futebol é dinâmico. Mas, hoje, pelas nossas conquistas e pelo que demonstramos dentro de campo, acho que somos, sim, o melhor time do mundo. Demonstramos com performance e com resultados. Vencemos tudo o que um clube pode vencer. Isso demonstra não apenas o sucesso individual, mas o sucesso coletivo também.

    O técnico do Liverpool, Jürgen Klopp, foi decisivo para a sua contratação, a partir de um telefonema que ele lhe deu. Qual o segredo do sucesso do Klopp? Ele é um cara de extremo caráter. Demonstra isso pela forma simples como conduz as situações. Na época, só sabia dos resultados que ele havia tido no Dortmund e pelo o que vinha fazendo com o Liverpool, que parecia trilhar o mesmo caminho de sucesso. Percebi que ele traria muitas coisas boas para a minha vida, foi um telefonema fundamental para a minha decisão. Klopp é o cara que todo mundo acaba conhecendo por ser verdadeiro. É o mesmo cara nas entrevistas que dá e no vestiário, um cara justo e coerente. Passa credibilidade aos jogadores. Foi o jeito dele jogar que nos trouxe até aqui.

    Como você, um jogador que ganhou tudo nos últimos meses, busca motivação? Acordar todo os dias de manhã já é uma motivação (risos). Acordar e ver que a minha família está com saúde, está bem, isso me motiva. Além do amor que tenho pelo futebol. Tenho muito a viver no esporte ainda. Um dia você está no topo, no outro, está lá embaixo. O desafio é se manter sempre no topo. Não luto contra os outros, luto contra o Alisson mesmo. Se fui o melhor da Europa, o melhor do mundo, quero dar continuidade a isso. Os prêmios não me definem como pessoa. O que me define é o que sinto, minhas atitudes, e sei que não ganharia nada se não fosse o coletivo também. Sei do meu potencial e vou seguir lutando pelos meus objetivos.

    O Liverpool tem um time relativamente jovem, porém, maduro. É possível manter esse domínio na Europa? Creio que sim. É claro que isso depende da manutenção do grupo. Quem muitas vezes não tem espaço opta por sair. Mas quando sai uma peça, sempre há mudança. Por vezes, nem precisa ser um titular, mas um jogador que torna o vestiário um bom ambiente. Depende muito do rumo que o clube dará quando ocorrerem esses momentos, e depende muito da nossa motivação, de onde queremos chegar. Mas vejo um grupo que quer sempre conquistar mais e seguir entre os melhores. Se seguirmos assim, vamos nos manter no topo.

    Quanto vale o Alisson hoje? Meu pai (José Agostinho) disse, ao comentar sobre o valor da compra pelo Liverpool: “E olha que foi barato. Para mim, tu não tem preço”. Sei que cresci e que me valorizei no Liverpool. Tenho vivido de uma maneira intensa aqui. E quero continuar assim, sinceramente, não penso nessa questão dos valores.

    Capa da Revista Placar da edição de Julho de 2020 Divulgação/Placar

    Como vocês vivenciaram o período de reclusão, devido ao Covid-19, na Inglaterra? É algo que você fica refém de uma situação. Vivemos de maneira muito cautelosa, principalmente por minha esposa estar no grupo de risco. Encaramos com muita seriedade. Estamos vivendo algo desconhecido, onde ninguém tinha a solução certa para a pandemia. Fizemos o que estava a nosso alcance, e somos privilegiados por podermos ficar em casa. Cuidamos de nós e do próximo. O país demorou a acordar para o problema, mas houve respeito ao lockdown. Tive tempo para ficar com a minha família, algo raro. Foram três meses vendo os meus filhos crescerem, conheci mais a minha esposa, jamais havia tido um tempo tão longo com ela. Nosso relacionamento melhorou ainda mais.

    E no Brasil? Estou longe do Brasil para saber como as coisas têm ocorrido na prática, mas vejo pessoas agindo de má-fé nesse momento – algo inacreditável – para fazer política, e falo de todos os lados. Só espero que cada brasileiro possa fazer a sua parte, pensar no próximo, na família dos outros também. O Brasil deveria estar unido, está dividido. Muito devido ao despreparo de nosso líderes e a pessoas que só pensam em benefício próprio. Mesmo assim, espero que possamos sair fortalecidos desse episódio. 

    Te preocupa o fato de seu irmão, Muriel, viver e jogar no Rio de Janeiro nesse momento, que é um dos grandes focos de contágio do Covid-19 no Brasil? Tenho conversado com ele, e me parece ser a opinião geral, que é cedo para voltar com o futebol agora. Mas existe também a necessidade dos clubes, e é o trabalho do meu irmão. Se seguirem as normas de segurança pode dar certo. Mas é difícil falar em retorno do futebol quando milhares de pessoas estão sendo contaminadas e morrendo. Aqui, na Inglaterra, os números de infectados e de mortos já diminuíram, mas enquanto houver mortes, é preciso reagirmos. Não podemos achar isso normal. Decisões precisam ser tomadas pensando na vida. Sempre.

    O que representa para você tomar atitude em combate ao racismo? É um posicionamento que deveria ser geral. Há muita opinião e pouco consenso no mundo. E a sociedade precisa andar em conjunto. Na questão do racismo, só há um lado: acabar com o racismo. Não há outra opção. Nunca sofri racismo pela cor da minha pele, mas sempre se sofre “racismo” de outras maneiras. Nos unimos, aqui, para mostrar que somos todos irmãos, independente da cor de cada um. Somos todos humanos, dignos de respeito. Não se pode mais medir esforços para acabar com o racismo.

    O que se pode esperar da seleção brasileira a partir de agora? Nossa geração aprendeu muito na copa da Rússia, ainda que tenhamos ficado longe do que pretendíamos. É claro que queremos ganhar a Copa do Catar, mas o caminho é longo. Sinto que estamos no rumo certo.

    Continua após a publicidade
    Publicidade