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Quem é Haaland, o craque para ficar de olho na volta do Campeonato Alemão

Perfilado por PLACAR na edição de abril, o atacante norueguês é muito mais do que um artilheiro que comemora seus gols meditando

Por Alexandre Senechal Atualizado em 15 Maio 2020, 16h19 - Publicado em 15 Maio 2020, 15h26

Como diria o meme que circula pelas redes durante essa pandemia: “saudade do futebol, né, minha filha?” A abstinência de partidas ao vivo (pela TV, claro) acaba neste sábado 16. O Campeonato Alemão, a Bundesliga, será a primeira grande liga a retomar seus jogos. Na partida “reinaugural”, o atual vice-líder, o Borussia Dortmund, da sensação da atual temporada europeia Erling Haaland, receberá o Schalke 04 às 10h30 (horário de Brasília) e a partida terá transmissão da Fox Sports.

O atacante norueguês foi perfilado na edição de abril de PLACAR. Como um presente a nossos leitores, abrimos a matéria na íntegra abaixo e deixamos um convite: para conferir todo o conteúdo, clique aqui e assine a versão digital da revista.

  • Um garotão alto e magro, recém-chegado ao Borussia Dortmund, rouba a cena e marca os dois gols do time na vitória por 2 a 1 contra o Paris Saint-Germain, pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Na comemoração, a cada bola na rede, o já tradicional sinal de meditação. Na postagem no Instagram sobre a partida, a legenda “ZENsational win” (uma brincadeira, em inglês, explicando que havia sido uma vitória sensacional). Brilhar nos grandes palcos europeus era um sonho de criança para o ainda muito jovem Erling Braut Haaland, de apenas 19 anos. Antes do início da atual temporada, tristemente interrompida pela pandemia de coronavírus, Haaland tinha só a Champions na cabeça. E nos ouvidos. No centro de treinamento do Red Bull Salzburg, da Áustria, antes da transferência para a Alemanha, o zagueiro Max Wöber encontrou o garoto dentro do carro ouvindo o hino da competição no último volume. A história, é claro, virou brincadeira no vestiário. “O engraçado é que ele já estava sonhando com aquilo, vendo o futuro. Já entrando no clima para jogar”, contou o também zagueiro André Ramalho, brasileiro que defende a equipe austríaca.

    Ao menos nesta temporada, a história não teve final de conto de fadas. O Salzburg não passou de fase em um grupo complicado, que contava com o atual campeão Liverpool e os italianos do Napoli. Depois, já pelo Dortmund, Haaland viu o PSG reverter a vantagem obtida na partida de ida e acabou eliminado, pela segunda vez, do mesmo torneio. Ainda assim, há muito que comemorar. O norueguês foi o primeiro jogador da história a fazer dez gols na competição em apenas sete partidas disputadas — superando Adriano Imperador, Roberto Firmino e Sadio Mané, que precisaram de onze jogos para balançar as redes tantas vezes. Por onde passou, Haaland sempre deixou um saldo positivo: com as camisas de Red Bull Salzburg e Borussia Dortmund, acumulou mais bolas nas redes do que o total de partidas. Com 1,94 metro e 86 quilos, o jogador tem faro de gol e, apesar do corpanzil, explosão física para correr em altas velocidades. A pergunta que não quer calar: até onde ele pode chegar?

    Para prever o futuro, é preciso olhar para o passado. Erling Braut Haaland nasceu em Leeds, na Inglaterra, no dia 21 de julho de 2000. A vocação para o futebol veio do pai. Alf-Inge Haaland atuou como volante e lateral-direito nas equipes inglesas do Notthingham Forest, do Manchester City e do Leeds United. O único de seus três filhos que decidiu seguir carreira no futebol optou pela nacionalidade do pai, pois, apesar do local de nascimento, se mudou para a cidade norueguesa de Bryne com apenas 3 anos. A mãe, Gry Marita, também foi atleta de alto rendimento e chegou a ser campeã nacional de heptatlo. Com pais esportistas, o jogador foi exposto às mais diversas modalidades desde seus primeiros passos. Além do futebol, ele praticou atletismo, handebol e esqui. A primeira demonstração de que poderia se tornar um esportista apareceu aos 5 anos, graças a qualidades herdadas de seu lado materno. Em janeiro de 2006, Haaland registrou o recorde mundial de sua idade numa modalidade bizarra, que já não é olímpica, o salto em distância sem impulso: 1,63 metro. A marca perdura até hoje. Antes de se tornar futebolista profissional, quase foi parar na seleção nacional de handebol. Mas a vontade de Haaland era estufar a rede usando os pés.

    A estreia como jogador do Bryne FK, o mesmo time que Alf-Inge defendeu no início da carreira, aconteceu em maio de 2016, aos 15 anos. Haaland não marcou nenhum gol, mas chamou a atenção do Molde FK. E foi em um dos principais times do país que começou sua ascensão meteórica. “A gente não sabia que ele ia se tornar isso tudo, mas dava para ver que tinha algo especial. Pelos treinamentos, pelo jeito de finalizar, pelo posicionamento. Não foi uma surpresa”, revelou Neydson da Silva, goleiro brasileiro que foi companheiro de Haaland no clube. Se a impressão que se tem é de que o “Manchild”, o homem-criança, como é chamado, é um cara maduro para pouca idade, nada disso. “Ele não tinha só tamanho, sua personalidade sempre foi de querer aprender”.

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    A curiosidade de Haaland só aumentou ao assinar com o Red Bull Salzburg em 2018. “Ele tem aquele sorrisão, brinca na hora de brincar, mas sabe que tudo tem hora certa. No momento em que tinha de ser profissional, ele era”, afirma o ex-companheiro André Ramalho. Mas, mais do que maduro, o jovem sempre teve muita personalidade. O zagueiro brasileiro conta que ele tinha um jeito, digamos, extravagante de se vestir e não se importava com as brincadeiras dos companheiros. Um exemplo? Erling usava óculos com lentes avermelhadas para amenizar a luz azul do celular e poupar sua visão. “Ele faz o que acredita, e acabou. Acho isso fenomenal”, diz Ramalho.

    Sua “mania” mais chamativa, porém, é a capacidade de fazer gols em abundância. Em maio de 2019, deixou o mundo de queixo caído ao anotar nove dos doze gols da Noruega na vitória sobre Honduras no Mundial Sub-20. Foram oito gols em seis partidas do Salzburg na primeira fase da Champions — os outros dois anotados pelo Dortmund contra o PSG não foram suficientes para lhe garantir a artilharia da atual edição do torneio, porque o fantástico Robert Lewandowski já fez onze pelo Bayern de Munique. Na virada do ano, os alemães ganharam a queda de braço contra o Manchester United e a Juventus e contrataram o futuro craque pela módica quantia (nos padrões atuais) de 30 milhões de euros. O empresário Mino Raiola aceitou a proposta do Dortmund após conseguir colocar no contrato com os alemães uma cláusula relativamente baixa de venda posterior (“apenas” 63 milhões de euros), além de levar ele próprio 10 milhões a título de comissão.

    Mais do que um artilheiro, o Borussia comprou um jogador comprometido com o clube. Haaland não namora e treina até nos dias de folga. Certa vez, o goleiro Roman Bürki foi ao centro de treinamento da equipe em um dia sem atividades e encontrou o atacante, que havia ido malhar. Em outra folga, ele apareceu de novo. Tanta vontade também é vista no treino com bola. Se perde no rachão, o jovem tranquilo e praticante de meditação desaparece. A entrega rendeu um raro elogio do técnico Lucien Favre, avesso a exaltar jogadores de forma individual, que afirmou que é difícil achar um atacante com tantas qualidades.

    O futebol é a primeira, a segunda e a terceira prioridade na sua rotina. Haaland costuma assistir a vídeos de grandes atacantes para aprender e se inspirar. O ídolo máximo é Michu, atacante espanhol que defendeu o Swansea, do País de Gales, mas tem muita admiração pelos Ronaldos: o português e dois brasileiros (Fenômeno e Gaúcho). E foi graças a esses e outros ídolos que surgiu o carinho pelo Brasil. Na entrevista ao repórter Marcelo Bechler, correspondente do canal Esporte Interativo na Catalunha, o norueguês afirmou conhecer até Gabriel Barbosa. Neydson entregou o motivo. “Ele gostava de jogar Football Manager e perguntava sobre as promessas e alguns clubes do Brasil. Foi quando o Gabigol começou a estourar.” O carinho é recíproco. Desde que foi para o Dortmund, só aumenta o número de seus seguidores no Instagram oriundos do Brasil. “Haaland quis falar com a gente porque sabe que tem muitos fãs no nosso país”, explicou Bechler. Com cerca de 200 pedidos de entrevista recebidos pelo Dortmund, Haaland pediu para falar com um veículo brasileiro para se conectar com seus fãs locais.

    O único brasileiro que conseguiu tirar Haaland do sério foi Neymar. Ele ficou muito bravo quando o camisa 10 do PSG imitou o gesto de meditação na comemoração de um dos gols contra o Dortmund. O assessor do clube alemão, Daniel Stolpe, revelou a PLACAR que a raiva passou e que ele já tem uma visão diferente sobre o episódio. Agora, o norueguês entende que chamou a atenção de Neymar, algo especial para um jogador que, até outro dia, era um mero desconhecido. É um caminho sem volta. Hoje o mundo inteiro já sabe quem é Erling Braut Haaland. Um jogador “zensacional”.

    Publicado em PLACAR de abril de 2020, edição 1462

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