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Quem é Domènec Torrent, o novo técnico do Flamengo

Confirmado nesta sexta, espanhol de 58 anos foi assistente de Pep Guardiola e é adepto de um jogo ofensivo – porém com um estilo diferente de Jorge Jesus

Por Alexandre Senechal - Atualizado em 3 ago 2020, 13h02 - Publicado em 31 jul 2020, 14h17

O Flamengo anunciou nesta sexta-feira, 31, o seu novo técnico: o espanhol Domènec Torrent, de 58 anos, será o substituto do “Mister” Jorge Jesus, que escolheu deixar o Brasil para voltar a sua terra natal em Portugal e treinar o Benfica. O contrato tem validade até dezembro de 2021.

Torrent se tornou conhecido no mundo de futebol como auxiliar e braço-direito do mais badalado dos técnicos, Pep Guardiola, mas tem uma longa carreira no esporte. Meio-campista em equipes de divisões inferiores na Espanha nos anos 1980, virou técnico na década seguinte e trabalhou na função até 2006. Foi quando aceitou um convite de Pep para ser seu auxiliar no Barcelona B em 2007. A dupla também trabalhou no time principal do Barça, no Bayern de Munique e no Manchester City. Foram 24 títulos em 11 anos de parceria.

Em 2018, Domènec alçou voo solo para dirigir o New York City, dos Estados Unidos. Na última temporada da Major League Soccer, levou o time à sua melhor campanha, com a segunda posição na classificação da primeira fase e eliminação na semifinal da Conferência Leste, diante do Atlanta United FC.

O novo treinador do Flamengo tinha um papel fundamental na engrenagem dos times de Guardiola. Era responsável por auxiliar nas análises dos adversários, criar jogadas de bola parada tanto para o ataque quanto para a defesa e conduzir os treinamentos, além de ser o principal conselheiro e ajudar a tomar decisões sobre a montagem do time – um estilo detalhista de trabalho, uma das marcas registradas do antigo técnico flamenguista Jorge Jesus.

Uma prova da importância de Domènec no trabalho com Guardiola é que saiu da cabeça dele a ideia de escalar o lateral Philipp Lahm como meio-campista, algo que marcou a passagem de Pep pelo Bayern de Munique. Na final da Supercopa da UEFA em 2013, logo no início da passagem pela Alemanha, o time perdia para o Chelsea por 1 a 0 e o então auxiliar observou que Toni Kroos sofria todas as vezes em que o adversário lançava bolas às suas costas. “E se colocássemos Lahm como volante?”, questionou a Guardiola, que não hesitou e fez a mudança.

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A história foi contada no livro Guardiola Confidencial, escrito pelo jornalista espanhol Martí Perarnau. “As palavras de Dome [apelido de Domènec Torrent] foram chaves. Ouça bem o que digo: se ganharmos alguma coisa nesta temporada, será por causa do Lahm. Porque posicioná-lo como volante foi o que reordenou as peças”, afirmou Guardiola na publicação. O Bayern foi campeão daquela Supercopa e também ganhou o Campeonato Alemão e a Copa da Alemanha naquele ano.

Rafinha fazia parte daquele elenco do Bayern e exaltou o trabalho de Torrent em entrevista para o programa Resenha, do canal por assinatura ESPN. “Foram três anos que trabalhamos juntos no Bayern. Ele já tinha trabalhado com o Pep no Barcelona e depois foi para o City com ele. É a escola do Cruyff, né? É um cara que sabe tudo e mais um pouco de bola. Tanto é que os treinamentos no Bayern quem dava era ele, o Pep ficava só corrigindo. É um cara que dispensa comentários. Eu conheço bem e posso falar com propriedade, porque é um cara com quem eu trabalhei. E não só eu, né? Ele fez muita gente no Bayern crescer muito”.

Se Torrent chama a atenção do Flamengo por trabalhar em riqueza de detalhes como fazia Jorge Jesus, o estilo de jogo dentro de campo é um pouco diferente. Como Rafinha disse, o espanhol é da escola do Cruyff. Isso significa que é adepto do “jogo de posição”, aquele em que cada atleta se mantém mais fixo no seu setor do campo esperando a bola chegar até seus pés. Jorge Jesus preferia um jogo de maior mobilidade de seus jogadores e apostava na rápida movimentação. As semelhanças entre os dois, e que voltaram os olhos do Flamengo para o espanhol, são a forma ofensiva como eles armam suas equipes e a importância em ter a posse de bola e controlar o jogo.

Outros técnicos também utilizam essa filosofia de Torrent, como o próprio Guardiola, o argentino Marcelo Bielsa, hoje no Leeds United, e o também argentino Jorge Sampaoli, que fez sucesso na temporada passada no Brasil pelo Santos, chegou a ser especulado pelo Flamengo e hoje dirige o Atlético-MG.

Torrent, porém, sabe que o futebol é cíclico e só os primeiros jogos vão poder dizer se ele vai montar um time mais com a cara de Guardiola ou vai manter a metodologia de Jesus, caso ele seja de fato o escolhido. No livro Pep Guardiola: A Evolução, também do jornalista Martí Perarnau, ele avalia o trabalho na Alemanha, que foi diferente daquele que fizeram no Barcelona. “O futebol se joga de 1 000 maneiras, e a única coisa que Pep faz é jogar com uma delas – com a qual ele ganhe frequentemente, mas que não é a única nem a verdadeira”.

O Flamengo de Jorge Jesus ganhava com a sua própria forma – o português deixou o time com mais títulos conquistados do que derrotas sofridas. Se for contratado, Torrent terá a missão para manter o Rubro-Negro vencedor. Pela sua maneira, ou não.

Domenec Torrent e Pep Guardiola durante passagem da dupla pelo Bayern de Munique
Domènec Torrent e Pep Guardiola durante passagem da dupla pelo Bayern de Munique Alexander Hassenstein/Getty Images
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