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Quando Emerson Leão “raptou” Dorival (e mais dois jogadores)

Em 1988, treinador acertou com o Coritiba e, com medo de perder seus jogadores de confiança, os levou no seu Santana

O São José fez uma das suas melhores campanhas no campeonato paulista em 1988. O time era treinado por Emerson Leão e, tinha no elenco, jogadores como o atacante Marcus Vinícius, o lateral Ditinho, o meia Henrique e o volante Júnior – talvez você o conheça hoje por Dorival Júnior, treinador do Santos. Eram tempos de escalada da violência nos estádios, campeonatos e calendários mal-feitos e da Lei do Passe, quando os clubes detinham praticamente todo o controle sobre o futuro dos jogadores. Henrique, hoje professor universitário de contabilidade, ainda lembra da partida que definiu a eliminação no estadual. uma derrota por 1 a 0 contra o Guarani. “Antes de chegarmos ao estádio, quebraram todos os vidros do ônibus.” Com alguns jogadores impossibilitados de entrar em campo, Leão brigou para que o jogo fosse adiado, mas não conseguiu. Era o fim da caminhada para o São José e para os destaques do time e para o técnico.

No hotel, Leão reuniu o quarteto e pediu para que não procurassem outros clube: os levaria para onde fosse no restante da temporada – só precisava decidir qual. Dorival era cobiçado pelo Cruzeiro e Henrique interessava ao Santos, mas foi Marcus Vinícius quem quebrou a promessa e viajou para Porto Alegre jogar pelo Grêmio. Preocupado com a possibilidade de chegar a um clube às vésperas do Brasileirão sem seus jogadores de confiança, Leão acertou com o Coritiba e avisou Henrique, Ditinho e Dorival para o encontrarem na manhã seguinte no Martins Pereira, estádio do São José: os levaria para Curitiba. “A gente até disse a ele que ia de avião, mas o Leão deve ter pensado que iríamos fugir e nos fez mudar de ideia”, contou Dorival à PLACAR de 1988. “Foi muito rápido. Ele disse: ‘A gente tem que ir’, nós chegamos no estádio e fomos direto. Naquela época, ninguém tinha empresário, nada”, diz Henrique.

Para pegar a Rodovia Régis Bittencourt, se dividiram: Leão foi com o seu Santana com Dorival e Henrique. Ditinho foi atrás, seguindo o treinador – o que viria a se mostrar uma tarefa nada fácil e perigosa. Colecionador de carros, Leão pisou no acelerador, segundo Henrique: “Ele corria para caramba. O Leão passou a uns 150 km/h na frente da Polícia Rodoviária. A velocidade com que ele vinha foi tão grande que a Polícia viu só o Ditinho, que vinha atrás, e parou ele”. O treinador, então, deu ré. A fama de Leão salvou Ditinho: após o policial perceber que se tratava do histórico goleiro do Palmeiras, liberou os dois carros. “Eram outros tempos, não tinha radar, hoje não ia acontecer isso”, ri.

Apesar do quase rapto, Henrique lembra com carinho dos tempos com o treinador. Logo após sua chegada em São José, chegou a pé para o treinamento. O ex-goleiro interpelou: “Cadê seu carro?”. Emprestado junto ao Treze, da Paraíba, Henrique admitiu que, com seu salário, não tinha como possuir um automóvel. “Ele falou que ia pedir para aumentar o meu salário, que eu não podia jogar usando ônibus e, no mês seguinte, de fato, meu salário veio maior e eu pude comprar um carro”.

O outro lado da história, não é possível saber: Emerson Leão não conversa com a PLACAR. O motivo, não quis explicar e, no meio do jornalismo, ninguém sabe bem ao certo o motivo (clique e confira o editorial do então diretor de redação de Placar, Sérgio Xavier Filho, em 2006, sobre o treinador). “Já faz uns 40 anos. Nunca recebi um pedido de desculpa”, disse o treinador, por telefone. Talvez essa matéria sirva como um. Ou talvez a matéria de 1988 sobre o rapto seja exatamente o motivo para Leão não falar conosco. Nesse caso, bem, nos desculpe de novo. “O Leão é uma pessoa surpreendente”, conclui Henrique.