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Presidente ‘pão-duro’ e alma latina: a ascensão do Tottenham

Chefe Daniel Levy priorizou modernização do clube a negociações badaladas e apostou na parceria com o técnico argentino Maurício Pochettino

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 1 jun 2019, 09h20 - Publicado em 1 jun 2019, 09h13

“O Tottenham Hotspur está entre os melhores hoje graças a duas pessoas: Daniel Levy e Mauricio Pochettino.” A declaração é de um brasileiro, o goleiro Heurelho Gomes, que atuou no clube londrino entre 2008 e 2014. Ele guarda boas lembranças do presidente “pão-duro” e lamenta o fato de não ter trabalhado com o treinador argentino. Neste sábado, 1º, os “Spurs”, como é conhecido o time do norte da capital inglesa, vivem o maior capítulo de sua história, a primeira final de Liga dos Campeões, diante do Liverpool, em Madri. A consagração de uma parceria entre a austeridade inglesa e a alma latina.

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“O Levy vive o Tottenham 24 horas por dia”, conta Gomes sobre o economista inglês de 57 anos que preside o clube do qual é torcedor desde 2001. Antes da consagração na Champions, o dirigente de origem judia já era conhecido na Europa por sua “mão fechada” e fama de negociador implacável. O Real Madrid foi um clube que sofreu com as exigências do presidente do Tottenham, que fez jogo duríssimo para vender Gareth Bale e Luka Modric ao último campeão europeu.

Gomes com o astro do time, Harry Kane John Patrick Fletcher/Action Plus/Getty Images

Gomes confirma a fama do ex-chefe. “Comparando com outros times, o Tottenham ainda não paga muito bem. É uma potência do futebol inglês, mas ainda tem uma filosofia de pés no chão. Talvez depois desta Champions, o Levy vai ter de repensar um pouco essa política e gastar um pouco mais para competir no mercado”, diz. Neste ano, o Tottenham, único integrante do Bix Six (grupo dos seis maiores clubes do Reino Unido) gerido inteiramente por ingleses, entrou para a história como o primeiro time a iniciar a Premier League sem nenhuma contratação. Mas por uma causa maior.

O clube de Londres, que já havia investido em um dos centros de treinamentos mais modernos da Europa, também demoliu sua antiga casa, o White Hart Lane, para construir um novíssimo estádio, o Tottenham Stadium, com capacidade para 62.000 torcedores, ao custo de 1 bilhão de libras (mais de 5 bilhões de reais). A estratégia de Levy fez os Spurs baterem um recorde: teve um ativo de 113 milhões de libras esterlinas (cerca de 572 milhões de reais, pela cotação atual) na última temporada, maior lucro da história de um clube de futebol.

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A mão de Pochettino

No entanto, dificilmente Daniel Levy teria conseguido tanto êxito se não tivesse acertado em cheio na contratação de seu técnico no ano de 2014. O ex-zagueiro argentino Mauricio Pochettino ainda começava a nova carreira, depois de bons resultados pelo Espanyol e pelo Southampton, quando assumiu o comando dos Spurs. Foi ele quem desenvolveu talentos como o maior ídolo do futebol britânico e atual capitão da seleção inglesa, Harry Kane, e transformou o Tottenham uma equipe intensa e vistosa.

“Pochettino mudou a filosofia de jogar do time. Quando eu cheguei lá, o time jogava no chutão, era só bola longa para o Peter Crouch (atacante de 2,01m de altura) na frente, se eu saísse jogando curto o treinador gritava. Hoje não, o time joga bola”, avalia Gomes, que enfrentou o Tottenham nas últimas temporadas, pelo Watford. O técnico argentino, que diz ser torcedor do Espanyol – clube catalão pelo qual atuou como jogador e técnico –, e por isso assegura que jamais treinaria o rival Barcelona, segue uma linha mais “romântica.”

“Devemos jogar livres, como quando éramos crianças. A chave é não pensar que há 1 bilhão de pessoas assistindo, sair para o campo e desfrutar”, discursou o técnico na véspera da decisão deste sábado. Intenso à beira de campo e amável com atletas e até jornalistas, Pochettino transportou uma certa alma latina ao clube da gelada Londres. “Não é uma cruzada pessoal contra a desumanização do futebol. Não quero ser Dom Quixote, nada disso. Mas, sim, sinto a responsabilidade de ser espontâneo e me comportar naturalmente”, afirmou, sobre sua forma emotiva de ser, em entrevista ao La Nación, de seu país. 

O sotaque latino do time também se fez valer dentro de campo, com gols decisivos do brasileiro Lucas Moura, na épica semifinal contra o Ajax, e do espanhol Fernando Llorrente, nas quartas contra o Manchester City. Neste sábado, a partir das 16h, Pochettino buscará seu primeiro título como treinador. No cargo há 18 anos, Levy tem apenas um, o da Copa da Liga Inglesa de 2008. Além disso, os Spurs podem proporcionar uma amargura imensa ao seu maior rival, o Arsenal, que, apesar de ser mais tradicional, também jamais venceu a Champions League. 

Lucas Moura comemora o terceiro gol do Tottenham diante do Ajax Matthew Childs/Action Images/Reuters
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