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Presidente do Bangu sobre volta do Carioca: ‘Uma coisa não afeta a outra’

Jorge Varela falou com exclusividade a PLACAR e não vê problema em realizar a volta do Estadual com um hospital de campanha instalado bem ao lado do estádio

Por Alexandre Salvador, Danilo Monteiro - Atualizado em 18 Jun 2020, 16h48 - Publicado em 18 Jun 2020, 16h38

O adversário do Flamengo na noite desta quinta-feira 18, no retorno do Campeonato Carioca em meio à pandemia de coronavírus, não foi escolhido aleatoriamente. O Bangu foi a segunda equipe a voltar aos trabalhos após a permissão da prefeitura do Rio de Janeiro. Entusiasta da volta ao futebol o mais rápido possível, o presidente do clube de Moça Bonita falou com exclusividade a PLACAR sobre a retomada das competições esportivas. Para Varela não há problema em realizar a partida que marca o reinício do Estadual no estádio do Maracanã, em cujo complexo há, neste momento, um hospital de campanha criado justamente para atender pessoas infectadas pela Covid-19.

Qual sua opinião sobre a volta imediata do campeonato? Votei a favor. Assim que foram suspensos os jogos do Estadual, começamos a nos reunir periodicamente para discutir o retorno. Diziam que o pico (da pandemia no Brasil) seria em março, depois abril, maio, final de maio… A preocupação das autoridades era a de não termos as condições de atender as pessoas. O achatamento inicial que conseguimos fazer, foi evitar o pico. Paralelo a isso, começamos a nos movimentar e discutir a volta. Em uma determinada reunião, ficou pré-estabelecido por todos os clubes que assim que houvesse liberação pelas autoridades sanitárias, começaríamos a nos preparar para a volta.

Mas não é algo precoce, sendo que não sabemos se estamos no pico de casos? Em determinado momento, foram feitas algumas análises e estudos de autoridades para a liberação. Com base nessa projeção de liberação, começamos a nos preparar. O Flamengo é que se antecipou e depois pediu desculpas, mas trabalhamos com um protocolo rigoroso à época, elaborado pela Ferj com os médicos de todos os clubes, onde se exigiam vários tópicos e trabalho rigoroso para evitar a contaminação dos atletas. A prefeitura criou fases (de flexibilização) e autorizou os treinos sem bola, que foi colocado pelo prefeito como parte de fisioterapia, com a projeção a cada 15 dias de mudança de fase. Na segunda fase, que seria no dia 17, já previa a liberação dos jogos.

E o Bangu está preparado para essa volta? Lá atrás, começamos o trabalho de prevenção através de avaliação de nossos departamentos de saúde. Trabalhamos dentro de uma evolução que nos desse base para voltar aos treinos com bola e preparar o time para o reinício do campeonato. Muito se fala, mas sem ter a informação de que lá atrás nós discutimos isso tudo. Não foi feito ‘ah, vamos jogar’. Já existia uma tabela elaborada pela federação, que projetava o primeiro jogo. Pelo fato de Bangu e Flamengo terem iniciado a preparação precoce em relação aos outros clubes, decidiu-se que seria o primeiro jogo. Começamos a treinar cedo sabendo que enfrentaríamos o Flamengo, que tem aquela máquina que foi vice-campeã mundial. Se fossemos despreparados, o que iria acontecer?

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O Flamengo está treinando desde o dia 20 de maio. O fato de terem saído na frente, enquanto muitos clubes sequer voltaram a trabalhar com bola, não é uma vantagem desleal? Nós fizemos treinos coletivos, sim. Eles não foram divulgados nesta semana. Peço perdão, porque estávamos esperando o término das discussões do arbitral. Nada foi feito escondido, apenas não divulgamos algumas informações para evitar problemas com o Ministério Público e uma série de entidades que estão batendo de tudo que é lado, sem ter conhecimento da verdade de que estamos utilizando um protocolo desenvolvido pelas autoridades. Nada daquilo que eles pré-estabeleceram, nós deixamos de cumprir.

E por que Botafogo e Fluminense se colocam de maneira tão contrária à volta do campeonato? Eles (Botafogo e Fluminense) não criaram o protocolo deles anteriormente. Foram esperando, esperando – não sei com qual intenção – e agora se colocaram contrários a tudo que foi discutido lá atrás, que eram as liberações das autoridades. Conforme o acompanhamento das liberações, elaboramos protocolos e nos preparamos para o treinamento. Então, foi uma decisão interna deles, não sei por qual motivo. Primeiro, era uma questão das liberações, no momento que liberou, eles não acompanharam. Foi uma decisão deles. Eles alegam que não têm condição de jogar por não terem treinado, mas tem um detalhe importante: isso já havia sido discutido lá atrás. Se eles não tomaram as precauções, aí foi uma decisão deles. Hoje até foi veiculado uma possibilidade de que se o Botafogo jogar, o (técnico Paulo) Autuori pede demissão. Então, tem uma série de informações que começam a pipocar e isso é preocupante.

O senhor acha que o campeonato vai mesmo ser concluído no campo? Acho que não será necessário judicializar o campeonato, o bom senso deve prevalecer. Nós vamos jogar, é decisão nossa, nada que talvez não mude daqui para frente. Ainda existe tempo hábil para que exista qualquer tipo de modificação na tabela. Os envolvidos devem pensar, nosso produto é interessante, é um bom campeonato – e o mais charmoso. É a única cidade no mundo que tem quatro clubes grandes disputando a divisão principal – pode procurar que você não vai achar. O Rio de Janeiro é um pouco diferente.

O Bangu teve oito jogadores que deixaram o clube nesse período de paralisação. Vão fazer falta? Basicamente, as perdas que tivemos foram de jogadores que complementavam o elenco, não eram titulares. Somente um deles era, o (meia) Juan Felipe, mas prorrogamos o contrato dele. Hoje, por força da necessidade e dificuldade que temos, optamos por não prorrogar os contratos, até porque não sabemos como vai ficar daqui para a frente, por conta do Brasileiro que não existe tabela e ainda não se fala nada.

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Qual o calendário previsto para a equipe em 2020? Vamos jogar a Série D, temos um projeto iniciado no ano passado para tentar voltar à Série A. Vamos ter de fazer um realinhamento, uma reestruturação de elenco, porque hoje tenho um elenco que não é barato para nível de Campeonato Brasileiro, principalmente em um momento em que os recursos são escassos. Temos a dificuldade de patrocinadores que deixaram de pagar. Tenho um que não pagou nenhuma cota, tinha acordado de começar a pagar em abril, por conta de uma reestruturação da empresa, mas não recebemos e provavelmente não nos pagarão. Perdemos o equivalente a duas folhas de pagamento com isso. Tínhamos outro parceiro que nos ajudava na base, mas também precisou parar. Nessa brincadeira, perdemos algo em torno de 1 milhão de reais. Fizemos o planejamento com o contrato de televisão pleno, mas perdemos um quarto dele porque o Flamengo não assinou com a detentora. Houve uma perda considerável na receita dos clubes menores. Dentro do planejamento orçamentário desse ano, acho que perdemos algo como 2,5 milhões de reais. Isso vai fazer muita falta, porque nem sei de onde buscar recurso para suprir as perdas.

O senhor teve que cortar salários? Suspendi contrato de 22 jogadores, a maioria deles eram oriundos da base, tinham subido esse ano, e outros faziam parte do time sub-20. Temos um limite de tempo, eram 60 dias, mas talvez tenhamos mais 60 dias. Neste momento, estamos pagando só valor em carteira dos jogadores, os direitos de imagem foram cortados. Recebi a ajuda emergencial da CBF de 120 000 reais. No momento que chegou, foi muito bem recebida, mas por conta dela, não posso sair do campeonato, sou obrigado a jogar a Série D.

E qual a chance de não jogar o campeonato nacional? Neste momento, é zero. Nosso planejamento é montar um elenco e buscar o acesso, mas não vai ser fácil. O campeonato começava em maio e terminava em agosto. No início do ano, a CBF aumentou o número de clubes, mudou a fórmula e aumento o campeonato em mais três meses. Nossas análises e projeções de 2019, não contávamos com as novas despesas que viriam.

O senhor está gastando muito mais com os protocolos de saúde obrigatórios?  Discutimos a possibilidade (de colocar os jogadores em hotel). Quando fizemos a primeira testagem, em 15 de maio, tivemos sete jogadores que testaram positivo, mas eles já estavam imunes. Depois, chegamos à conclusão de que o melhor caminho seria, diante da possibilidade de retomada do campeonato, isolar os jogadores em um hotel parceiro para controlar a ida deles aos treinos. Queríamos diminuir pelo menos a diferença física em relação ao Flamengo, porque a diferença técnica é muito grande. Os jogadores estão concentrados e não recebem visitas desde a segunda testagem, no dia 25 de maio. Descobrimos que dois jogadores testaram positivo depois da primeira testagem, quando voltaram para casa. A família de um deles estava contaminada, então tratamos deles e isolamos os jogadores. Acho que isso foi uma coisa importante no auxílio às autoridades, porque nem todos tiveram a possibilidade de serem testados. Hoje, todos os clubes têm zero contaminações.

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Como será a preparação no dia do jogo? O cronograma da partida começa de manhã. Os jogadores e funcionários são testados pela manhã, no hotel. O resultado sai em duas horas. A federação está pagando os testes no dia dos jogos. Eles pagaram uma rodada de testes prévios, mas as outras duas saíram do caixa do clube. À tarde, indo para o jogo, os atletas irão isolados num ônibus. A comissão técnica irá de carro, cada um dos veículos com duas pessoas. Temos de chegar 1 hora antes do jogo, os atletas vão direto para os vestiários, fazem o aquecimento, arrumam, entram no campo e jogam. Na volta para o hotel, fazem o lanche e jantam. A princípio, os jogadores ficarão confinados até o final do campeonato. Nosso objetivo é terminar o campeonato para a detentora dos direitos fazer os pagamentos, resolvermos nossos problemas e liberarmos os atletas.

A imagem de retomar o futebol justamente no Maracanã, que abriga em seu complexo um hospital de campanha, não passa uma imagem conflitante de qual é a prioridade neste momento? Sei que é uma situação um pouco complexa, não sei nem te dimensionar o que imagino neste momento. O que foi feito, foi feito com análise e discussões para que uma coisa não envolvesse a outra. Ninguém chegará próximo ao hospital, vamos utilizar espaços distintos, uma coisa não afeta a outra. A entrada no Maracanã vai ser por um local onde não há acesso ao hospital. O hospital deveria ser utilizado de uma forma, mas está sendo sub-utilizado. Hoje, não sei quantos leitos estão ocupados, mas com certeza são menos de 100.

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