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Porto de Mourinho e ‘humildade tática’ inspiram Allan Aal, técnico do CRB

"É bonito querer ter a bola, mas às vezes não há recurso para envolver o adversário", disse o treinador após eliminar o Palmeiras na Copa do Brasil

Por Klaus Richmond Atualizado em 11 jun 2021, 13h25 - Publicado em 11 jun 2021, 11h32

Allan Aal, 42 anos, dimensionou logo na chegada a Maceió, na última quinta-feira, 10, o tamanho do feito do CRB ao eliminar nos pênaltis o atual campeão Palmeiras na terceira fase da Copa do Brasil, após vitória por 1 a 0 no tempo regulamentar. O aeroporto internacional Zumbi dos Palmares, na capital alagoana, foi completamente tomado por torcedores do clube.

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Há 17 dias no cargo, foi apresentado em 25 de maio, Aal construiu o resultado com menos heroísmo e louros do que a repercussão. A conversa franca com jogadores, momentos antes da partida, ocorreu “sem utopia”, com diz, e com o reconhecimento da necessidade de adotar uma postura tática humilde.

“Precisamos partir sempre do princípio da humildade. É bonito todos quererem jogar, ter a bola, mas às vezes não há recurso para envolver o adversário. Eu falei que, mesmo querendo jogar, teríamos que nos preparar para sofrer mais. É utopia falar que vamos controlar, que vão correr atrás da gente. E isso não é desmerecer o grupo, mas havia uma questão de qualidade humana maior. Deixamos o Palmeiras jogar, com maior posse, sabendo que nenhuma equipe consegue não deixar brechas por 90 minutos. Foram leituras que os atletas souberam fazer”, disse a PLACAR.

  • Criticado nas entrelinhas da entrevista concedida pelo técnico português Abel Ferreira, pela larga diferença em estatísticas apresentadas pelas equipes da partida – foram 34 finalizações do Palmeiras (somente dez delas no gol), contra duas do CRB, além de 71% de posse de bola de acordo com números do Sofascore –, o treinador refuta a palavra sorte.

    “Você falar em sorte do adversário é muito pobre, é minimizar muito o futebol. Sempre vai existir a interferência, a oposição do adversário. Procuro ler muito, já li os livros do Guardiola, do Mourinho, do Ancelotti, do Villas-Boas e tirar conhecimento de tudo. O conhecimento não pode ser só uma febre, tem que ser constante”, explica.

    “Inspirações temos algumas em momentos distintos. O Porto do Mourinho, numa situação como a de ontem, certamente foi a principal delas. Claro que gostamos do Guardiola pelo encantamento que causou com o Barcelona, assim como do Klopp, que mesclou a intensidade e a briga com a qualidade, mas a obediência lembrou essa situação do Porto. Sem comparações, claro”, completa.

    Após passagem frustrada pelo Tottenham, Mourinho acertou com a Roma -
    Após passagem frustrada pelo Tottenham, Mourinho acertou com a Roma – Leila Coker/Getty Images

    Atualmente mais conhecido pelo gênio indomável do que por bons trabalhos recentes, o Special One, ávido por disciplina tática, comandou uma dinastia com o Porto. A citada campanha na Liga dos Campeões, com um time até então com nomes pouco conhecidos, superou Manchester United, Deportivo La Coruña, Lyon e Mônaco. Anos depois, ele repetiria em pleno Camp Nou, com a Inter de Milão, a derrota mais comemorada pelo clube nos últimos anos – suficiente para classificar o time a final da Champions e eliminar o Barcelona de Pep Guardiola com um jogador a menos.

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    O ferrolho tático promovido por Aal forçou o Palmeiras de Abel a abusar de tentativas de cruzamento. Na temporada, foi a partida em que a equipe paulista mais alçou bolas na área: 52 ao todo, somente 11 deles com aproveitamento.

    Além disso, pesou ter a posse de bola durante quase todo o jogo. Das 16 vitórias construídas pela equipe paulista, apenas em três obteve mais do que 60% de posse, evidenciando dificuldade em propor jogo contra times que marcam baixo. Pesou, também, a atuação decisiva do goleiro Diogo Silva, fundamental durante os 90 minutos e responsável por defender três pênaltis, além de converter a sua cobrança.

    “Infelizmente, há um preconceito, uma visão deturpada. Não vou citar clubes que trabalhei em toda a minha carreira, mas digo que o CRB está a frente da maior parte deles”

    Alan Aal, técnico do CRB

    “Apostamos nisso, em um adversário que teria mais finalizações, mas de média distância e com bolas alçadas na área. Não fomos envolvidos a ponto de deixarmos situações claras”, explica Aal.

    CRB suportou a pressão imposta pelo Palmeiras nos 90 minutos -
    CRB suportou a pressão imposta pelo Palmeiras nos 90 minutos – César Greco/SE Palmeiras/Divulgação

    A construção da vitória, nos bastidores, não se valeu de influências emocionais. Dias antes, um radialista da capital citou que os times da Copa do Nordeste são ‘lixo’ e ‘porcaria’, e mencionou Bahia e Ceará como uma espécie de ‘menos piores’. O comentário gerou imediata repercussão negativa e uma enxurrada de críticas.

    “Sabíamos que existia esse comentário, mas procuramos não envolver diretamente o Palmeiras. Não foi alguém de dentro, toquei muito pouco no assunto. Infelizmente, há um preconceito, uma visão deturpada. Não vou citar clubes que trabalhei em toda a minha carreira, mas digo que o CRB está à frente da maior parte deles. Há clubes daqui que não devem nada a equipes do sul e do sudeste, pelo contrário”, argumenta.

    Para chegar ao momento histórico com o CRB, Aal precisou repetir uma outra tática, essa fora de campo, que já havia adotado anteriormente no início da carreira como técnico. Dias depois de conquistar o acesso histórico para a Série A com o Cuiabá, clube e treinador entenderam não ser possível continuar o projeto. Logo no começo da carreira, após o primeiro bom trabalho, pelo Rio Branco-PR, resolveu aceitar uma proposta de deixar uma equipe profissional para dirigir a base do Coritiba.

    Allan Aal foi apresentado pelo CRB no último dia 25 de maio, há 20 dias -
    Allan Aal foi apresentado pelo CRB no último dia 25 de maio, há 20 dias – CRB/Divulgação

    “É preciso saber separar a euforia do planejamento de carreira. Achei que não seria bom para mim e nem para o clube continuarmos no Cuiabá. Quando iniciei, no Rio Branco, foi a mesma coisa. Saí de um time profissional para dirigir a base. O processo de formação de um treinador não se dá somente com teoria”, explica.

    Após deixar o Cuiabá, o treinador dirigiu o Guarani durante o Campeonato Paulista. Saiu do clube pouco mais de 100 dias depois de ter sido contratado. Foi eliminado do estadual para o Mirassol, nas quartas de final, uma classificação que não ocorria desde 2012. “São situações que fogem das quatro linhas. Há pressão externa, também, mas saí muito bem com a diretoria e com todos”.

    Agora no CRB, embalado por duas vitórias consecutivas fora de casa – contra o Cruzeiro, pela Série B, e o Palmeiras, na Copa do Brasil – ele espera solidificar o nome e fazer ainda mais história. Humildade tática e inspirações, certamente, não vão lhe faltar.

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