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Por que a pandemia pode acabar equilibrando as forças no futebol europeu

Na Espanha, por exemplo, gigantes como Barcelona e Real Madrid devem sofrer mais que os clubes menores com a ausência de público nos estádios

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 14 Maio 2020, 18h49 - Publicado em 14 Maio 2020, 16h13

A pandemia do novo coronavírus infectou também os cofres dos clubes de futebol de todo o mundo. Nem mesmo as potências econômicas do esporte escaparam; na verdade, elas podem ser as mais afetadas. Se no Brasil a tendência é que os clubes endividados – que são a maioria e incluem camisas de peso como Corinthians, São Paulo, Vasco, Atlético Mineiro, entre várias outras – sofram mais, na Espanha espera-se que os efeitos sejam mais nocivos justamente para Real Madrid e Barcelona, o que pode até ter um efeito interessante no futuro: deixar a liga espanhola mais equilibrada.

De 2005 para cá, os gigantes se revezaram na conquista de La Liga, com dez títulos do Barcelona, quatro do Real Madrid e apenas um do Atlético de Madri, a “terceira força”, mas também uma potência econômica atualmente. Os campeões fora do trio de ferro desde a virada do milênio foram Valencia (2002 e 2004) e Deportivo La Coruña (2000). A temporada de 2020 deve ser retomada em 12 de junho, certamente com portões fechados. Os clubes da capital e o da Catalunha tendem a sofrer mais com o vazio nas arquibancadas, visto que as cotas de TV (que serão integralmente recebidas com a volta do futebol) estão mais equilibradas atualmente.

Num passado recente, Barça e Real Madrid chegaram a abocanhar 75% das cotas de TV. Atualmente, há maior harmonia: 50% é dividido igualmente entre todos os 20 clubes; 25% é dividido em função da posição média das últimas cinco temporadas e os últimos 25% dependem de um critério de “notoriedade” (que varia em relação ao impacto nas redes sociais, ocupação do estádio, qualidade do gramado, entre outros fatores, o que praticamente obrigou todas as equipes a melhorarem suas estruturas).

“Esta crise afeta muito mais aos grandes do que aos pequenos, porque não são tão dependentes dos direitos audiovisuais”, afirmou Javier Tebas, presidente de La Liga, em recente encontro virtual com empresários. O dirigente ainda calculou que o prejuízo caso a liga não fosse reiniciada seria de 1 bilhão de euros (6,4 bilhão de reais pela cotação atual) e, mesmo voltando, será de 300 milhões de euros (1,9 bi de reais), devido à ausência de público.

Nesta quinta-feira, 14, Albert Castelló, representante de La Liga no Brasil, confirmou esta tendência em encontro com jornalistas brasileiros. “O valor dos que ganham mais ronda os 170 milhões de euros e dos que ganham menos está na casa dos 50 milhões de euros, se equilibrou bastante. O que cria uma maior disparidade hoje é a força de clubes como Barcelona e Real Madrid de obter rendas de outras formas, com parcerias comerciais, bilheteria, licenciamento de produtos…”, explicou o dirigente.

“Então, sim, pode haver um maior equilíbrio financeiro. Imagino que Barcelona e Real Madrid ainda mantenham uma certa margem, pois podem buscar outras plataformas de comércio, mas é provável que a diferença seja reduzida, sobretudo na próxima temporada, dependendo de como tudo vá evoluir”, completou Castelló. Os rivais já anunciaram cortes nos salários de seus estrelados elencos: 70% na equipe de Lionel Messi e 10% no time dos brasileiros Marcelo, Casemiro e Vinicius Junior.

  • Um estudo da consultoria Deloitte publicado em janeiro apontou que o Barcelona é hoje o clube com maior receita do mundo, um valor recorde de 840 milhões de euros. (5,3 bi de reais pela cotação atual). Deste total, 19% vêm das receitas de dia de jogo, ou seja, sócio-torcedor, bilheteria e outras formas de consumo em dias de jogos no Camp Nou, que teve média de público de 76.000 pessoas no ano passado. Mais 47% se referem a exploração “comercial”, que inclui patrocínios e diversas ações de marketing, incluindo a visitação ao museu e às lojas oficiais do clube – cujo retorno às atividades não deve ser normalizado tão cedo. Os direitos de transmissão, que não serão afetados, representam 35% do total.

    Cenário praticamente idêntico ocorre com o rival Real Madrid, segundo da lista com receita de 753.3 milhões de euros: 19% oriundos de jogos no Santiago Bernabéu, 47% de ações comerciais e 34% da TV. Os museus dos gigantes europeus estão entre os pontos turísticos mais visitados da Espanha. Há apenas mais um clube espanhol na lista dos 20 mais riscos, o Atlético de Madri, em 13º, com receita de 367 milhões de euros – valor próximo a clubes menos badalados atualmente, como Schalke 04, Roma, Lyon e West Ham.

    A tendência é que os estádios europeus só voltem a receber público quando houver uma vacina para a Covid-19 ou que o risco de uma segunda onda de contágio seja totalmente erradicado. Nos bastidores, dirigentes acreditam que isso não deva ocorrer em 2020.

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