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Por que a ideia de não jogar a Copa América perdeu força na seleção

Afastamento do presidente Rogério Caboclo, principal alvo do desconforto do grupo, tende a amenizar o teor do manifesto sobre a competição

Por Luiz Felipe Castro Atualizado em 7 jun 2021, 17h49 - Publicado em 7 jun 2021, 17h20

A seleção brasileira vai participar da Copa América com seu elenco principal. Ao menos é o que garantem dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ouvidos por PLACAR nesta segunda-feira, 7. Fontes ligadas aos atletas são mais cautelosos e desconversam. “É possível que parte do grupo peça dispensa”, diz uma delas, que pediu anonimato. O fato é que o afastamento do presidente da entidade, Rogério Caboclo, acusado de assédio moral e sexual por uma funcionária, amenizou bastante o clima de tensão no elenco, que promete se posicionar oficialmente após a partida desta terça, 8, diante do Paraguai.

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A saída do mandatário arrefeceu especialmente os rumores de uma possível demissão de Tite, que tem ampla aprovação do grupo. Ainda que nesta segunda o técnico tenha negado veementemente que tenha sido ameaçado de demissão por Caboclo, o gesto de união (no gol de Richarlison contra o Equador, todos foram até o banco abraçar Tite) deixou claro de que lado os atletas ficariam em caso de uma queda de braço, mais uma, com a direção.

No último dia 3, Tite admitiu em a entrevista coletiva, que havia insatisfação no elenco em relação à mudança da Copa América para o país, o que já havia sido repassado a Caboclo na véspera pelos líderes do elenco, como Neymar, Marquinhos, Casemiro, Alisson e Thiago Silva. Um dia depois, após a vitória contra o Equador pelas Eliminatórias, o capitão Casemiro sinalizou “respeito à hierarquia”, mas disse que atletas se posicionariam de forma direta, alimentando a possibilidade de boicote (afinal, se concordassem com a CBF, não teriam sobre o que se posicionar).

“Não podemos falar do assunto, mas todo mundo sabe nosso posicionamento, mais claro impossível. O Tite deixou claro para todo mundo o que pensamos da Copa América. Queremos falar,mas não queremos desviar o foco. Hoje era um jogo de Copa do Mundo, importante para nós. “, afirmou o jogador à TV Globo, na saída do gramado do Beira-Rio. “Estamos todos juntos. Não sou eu, os jogadores da Europa… são todos os jogadores, o Tite e comissão técnica, tem de ser todos juntos.”

  • Atletas e comissão não gostaram da mudança de última hora, depois que Colômbia e Argentina, sedes originais da Copa América, desistiram de recebê-lo devido a tensões sociais e altas taxas de Covid-19 (ambos problemas que o Brasil também enfrenta). A medida foi vista como desnecessária, por se tratar de um torneio com pouca relevância no momento (será disputado pela quarta vez em seis anos), somada à exaustão dos atletas devido ao apertadíssimo calendário em tempos de pandemia. O desejo dos atletas era antecipar as férias ou adiantar as partidas atrasadas das Eliminatórias e, assim, evitar o protagonismo em uma decisão que foi se tornando cada vez menos esportiva.

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    Apesar de o acordo que trouxe a Copa América ao Brasil ter sido costurado pela CBF com o governo de Jair Bolsonaro, a insatisfação dos atletas não representava uma crítica direta à postura do presidente da República (muitos, aliás, são apoiadores do capitão). Na verdade, elenco e comissão estavam mais insatisfeitos com a maneira como Rogério Caboclo vinha tomado suas decisões, sem consultar aqueles que, de fato, sofrem com o calendário e se colocam em risco em meio à pandemia. Eles souberam via imprensa que a competição seria jogada no país e não gostaram de ter de responder por uma medida essencialmente política, enquanto os reais responsáveis se calavam.

    O presidente da CBF, Rodrigo Caboclo -
    Encrencado, Caboclo vinha evitando a imprensa Kaio Lakaio/Placar

    O mandatário da CBF, por sua vez, driblava os microfones por outras razões, que vieram à tona com a divulgação da acusação de assédio moral e sexual, revelado pelo Ge.com. A relação de Caboclo com o grupo, incluindo comissão técnica, nunca foi além de “cordial”. Recentemente, um áudio vazado de 2018 levou ainda mais desconfiança ao ambiente. No material, divulgado pela ESPN Brasil, Caboclo conversa com Edu Gaspar, então coordenador de seleções, sobre a renovação de contratos após a Copa da Rússia e, além de admitir que seu antecessor Marco Polo Del Nero, banido pela Fifa por corrupção, ainda dava palpites na entidade, o mandatário cogitou manter Tite no cargo, mas realizar mudanças na comissão técnica, incluindo a saída de Cleber Xavier, o braço-direito do treinador.

    A mudança não se concretizou, mas o vazamento evidenciou que não há confiança total no trabalho da comissão. Recentemente, também vazou o interesse da CBF em contratar o ex-jogador espanhol Xavi Hernández ou Muricy Ramalho como auxiliares de Tite (ambos rejeitaram as propostas). Questionado sobre o tema na última quinta, Tite se limitou a dizer que as ofertas foram verdadeiras e com seu consentimento, mas sem entrar em detalhes, no único momento em que realmente aparentou incômodo.

    Caboclo era, portanto, o principal alvo das discórdias dentro da entidade e desde a seu afastamento, a CBF trabalha para aparar as arestas e manter a Copa América de pé, sob forte pressão da Conmebol, enquanto tenta solucionar diversos problemas de logística em tempo recorde  – o campeonato começa dia 13, em Brasília. O presidente interino Antônio Carlos Nunes, o coronel Nunes, deve manter posição meramente decorativa, assim como fez entre 2017 e 2019, quando substituiu Del Nero e colecionou gafes, cabendo aos outros vices e dirigentes, como o próprio Juninho, maior autonomia nas decisões.

    No domingo, a federação argentina divulgou um comunicado garantindo presença no evento, o que praticamente encerrou as chances de haver um posicionamento conjunto das seleções em protesto à Copa América. A possibilidade também é praticamente ignorada por jornalistas estrangeiros que cobrem as outras seleções. Para equipes como Bolívia e Venezuela, jogar a competição representa um aporte essencial nas finanças, além de uma importante vitrine para os atletas.

    Diante disso, a chance de que os atletas da seleção brasileira desistam de participar do torneio são cada vez mais remotas. A tendência, segundo fontes ouvidas por PLACAR, é que nem sequer haja uma entrevista com jogadores, apenas a leitura de um manifesto crítico em relação ao evento. O mistério, porém, só deve ser solucionado na madrugada de terça para quarta, após a partida contra o Paraguai.

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