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Pelé 80 anos: Love, Love, Love… as despedidas do Rei

O Rei do Futebol teve três emocionantes cerimônias de adeus — da seleção, do Santos e do Cosmos, em Nova York

Por Da Redação Atualizado em 22 out 2020, 13h39 - Publicado em 20 out 2020, 09h00

O mundo do futebol já se prepara para a festa: no próximo dia 23 de outubro, Edson Arantes do Nascimento, o Rei Pelé, completa 80 anos de vida. A revista PLACAR, apenas três décadas mais jovem e de história indissociável à do camisa 10 – basta dizer que a edição inaugural, de março de 70, trazia Pelé na capa e vinha com um brinde, uma moeda com a efígie do craque – preparou uma edição especialíssima, histórica, que traz um compilado de grandes reportagens sobre o Rei do Futebol, escolhidas e comentadas por ele próprio. Daqui até o grande dia, PLACAR publicará diariamente em seu site algumas das reportagens da edição de setembro, que está nas bancas e disponível para dispositivos iOS e também Android. Boa leitura!

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  • Logo depois do tri, no México, Pelé decidiu que não voltaria a defender a camisa amarela do Brasil. A imprensa seguiu especulando sobre uma possível volta, até a Copa de 1974, mas ele manteve-se fiel à ideia de parar no auge — e assim foi, em três oportunidades. Em julho de 1971, foram dois jogos (um em São Paulo, outro no Rio) para dar adeus à canarinho — no Morumbi, ele marcou o gol contra a Áustria. Em 1974 houve o último jogo pelo Santos, não foi 100% como planejado: o time não estava com seu uniforme todo branco e faltou o gol derradeiro, mas sobrou emoção. Daí, quando tudo parecia terminado, Pelé se reinventou como divulgador do futebol nos Estados Unidos. Atuou duas temporadas pelo Cosmos, de Nova York, até sua última partida como atleta profissional. O adversário só poderia ser o Santos — ele jogou o primeiro tempo com a camisa 10 do time americano e o segundo com a branca do alvinegro praiano. No estádio dos Giants, antes de a bola rolar pela última vez, o Rei abriu seu discurso em defesa das crianças afirmando: “Love, love, love. Amor, amor, amor”. A seu lado, o igualmente gigante Muhammad Ali, o maior boxeador de todos os tempos, decretou: “O mundo todo deve te agradecer, Pelé. Você tem uma cabeça e um coração que soube colocar nos pés, a serviço do futebol. Todos os esportistas do mundo deveriam curvar-se aos teus pés”.

    //Placar

    A ÚLTIMA VEZ COM A SELEÇÃO

    Hedyl Valle Jr. contou a despedida de Pelé da seleção em São Paulo. No Morumbi lotado, ele fez sua 13ª — e última — partida com a camisa canarinho na cidade

    (Publicado em 16 de julho de 1971)

    “Deixa.” Cem mil pessoas gritaram ao mesmo tempo. Tostão deixaria de qualquer maneira (estava meio de lado e Pelé vinha de frente; deixaria, como deixou na final das eliminatórias, 1 a 0 contra o Paraguai). “Deixa para ele”, gritaram os 100 000. Não veio a bomba esperada, ele apenas cutucou no canto, o goleiro ficou plantado no meio da área. Gol de Pelé. Deu o mesmo soco no ar. Correu para a ponta, para abraçar Zequinha. Como sempre, o time todo veio de lá: pulos, abraços. Gol de Pelé.

    No dia de se despedir dos paulistas, Pelé faz um gol. De propósito? Para a festa? Não: ele é assim mesmo, faz gols com frequência. Sua festa é um soco no ar, todo mundo sabe disso, já repetiu o gesto mil e tantas vezes. No intervalo, foi engolido pelo bolinho, ninguém conseguiu vê-lo. Ganhou uma coroa, ouviu discursos, ganhou um relógio, uma medalha etc. Ninguém viu direito, nem pela TV. Correndo mais que seus perseguidores, repórteres e policiais, deu uma volta olímpica, com aplausos, bandeiras, gritos de “Pelé, Pelé, Pelé”. E ele se mandou.

    No vestiário era esquisito ver o Negão pelado e todo mundo de uniforme. Os jogadores iam voltando e, um a um, iam abraçá-lo. Rivellino, correndo, pulou em cima dele, se abraçaram e Pelé arrastou o Riva pra baixo do chuveiro. Ninguém podia entrar, mas ele podia sair. O Mercedes azul esperava e ele se mandou de vez. Pensando bem, fazer festa porque nunca mais o Pelé vai jogar na seleção é meio estranho. Festa é alegria, diversão, prazer. Gol, toquezinhos de efeito, troca de passes pelo alto, lançamentos, tabelas, dribles. Isso é festa. E o fato de o cara que sabe fazer tudo isso parar de fazer não é festa coisa nenhuma. Aquela tabela com Clodoaldo, o lançamento para Zequinha no lance do gol, o soco no ar. Essa é a festa de Pelé. O que diverte a torcida é ver a cintura dos caras fazendo praack quando eles levam um drible. É ver aquela pilha de camisas amarelas em cima dele, comemorando o gol. Essa foi a festa: 45 minutos de bola. O começo do fim de uma longa história.

    Perdíamos para a Argentina na tarde cinzenta de 7 de julho de 1957. O alto-falante do Maracanã anunciou: “Substituição no Brasil: Pelé no lugar de Del Vecchio”. Telé? Pelé? Delé? Quelé? Tanto faz. O Maracanã recebeu friamente. Não ia ser um garoto de 16 anos, inventado pelos paulistas, que ia mudar alguma coisa. No fim do jogo, Pelé fez um gol, e perdemos assim mesmo. Mas o garoto ia mudar uma coisa: a história do futebol.

    Durante catorze anos e onze dias, até o domingo que vem, contra a Iugoslávia, ele esteve a serviço da mesma camisa amarela. Tornou-se dono da camisa 10 em 1958, para fazer dela a sua marca, um símbolo mundial. “A Argentina e o jogo não eram tão importantes assim. Eu só pensava no pessoal lá de casa, ouvindo no rádio: gol do Brasil, gol de Pelé, gol meu.” Em 108 jogos (sem contar as duas despedidas), ouvimos 96 vezes pelo rádio: gol do Brasil, gol de Pelé.

    Desta vez todo mundo entenderá o nome direitinho: Pelé.

    Obrigado, Negão.

    A ÚLTIMA VEZ COM O SANTOS

    Naquele jogo contra a Ponte Preta, o Santos não estava de branco e faltou o gol derradeiro, como descreveu o editor José Maria de Aquino

    (Publicado em 11 de outubro de 1974)

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    Pelé, do Santos, ajoelhado e de braços abertos, no jogo contra a Ponte Preta, durante a sua despedida dos gramados brasileiros, no Estádio da Vila Belmiro – Manoel Motta/Placar

    Foi até o centro do campo, caiu de joelhos, virou-se para os quatro lados, abriu os braços em cruz e balbuciou algumas palavras agradecendo a seu Deus e reverenciando seu povo. Ergueu-se sem perceber o silêncio momentâneo de quase 25 000 vozes, sentiu que as lágrimas já se misturavam ao suor, enxugou a testa enrugada pela preocupação, tirou a camisa que não era a totalmente branca — como ele gostaria que fosse —, começou a correr em direção às sociais, início da volta olímpica, últimos passos de uma carreira que durou dezoito anos. E quando o primeiro torcedor a chegar perto dele tentou tirar-lhe a camisa firmemente segura pela mão direita, defendeu-a como se fosse a coisa, a joia, o troféu, o bem mais precioso entre os tantos que conseguiu na vida.

    Falou duro e passaria dos gritos, se fosse preciso. “Esta, não. Esta é minha. Esta é minha. Saia da frente, por favor.” E cercado, empurrado, agarrado, tonto entre fios, microfones, máquinas e uma manifestação morna, digna de um público ainda chocado, ainda um pouco surpreso, ainda sem poder realizar o tamanho da perda que naquele instante o futebol sofria, o encerramento de uma era, a dor de um ídolo que morria em vida, quase quieto quando também devia chorar, ele, Pelé, não via nem ouvia nada. Repetiu muitas vezes um agradecimento resumido na palavra “obrigado”, foi empurrado para mais uma última volta, conseguiu resistir, pediu, implorou, desceu e subiu pela última vez as escadas do velho túnel, fugiu do último encontro marcado com a imprensa, passou por mais duas portas e sumiu num carro de polícia, buscando o descanso com que sonham os aposentados. Nas mãos levava apenas a camisa preta e branca, número 10. “Vai ficar na minha sala de troféus”, disse.

    Quando, nos últimos vinte minutos em que viveu só como Pelé, tentou repetir pelo menos um pouco de tudo que fez nos seus dezoito anos de glórias, gritando, xingando, reclamando dos companheiros e das marcações do juiz, orientando, lançando Cláudio em profundidade, num passe primoroso, matando no peito, na corrida, uma bola que poderia ter acabado nas redes, como nos velhos tempos, cabeceando outra para fazer morrer na garganta da torcida o grito de gol que o goleiro Carlos, da Ponte Preta, não deixou ser completado.

    Quando correu chorando, acenando seu último adeus, sabia que apenas Dondinho e tio Jorge estavam ali, presentes, misturados à multidão, provavelmente chorando mais do que ele. Nem a mulher, que poucas vezes teve sua autorização para vê-lo jogando de perto, ao vivo. Foi tão grande como jogador que hoje só há uma esperança de que no próximo século surja outro igual a ele.

    A ÚLTIMA VEZ PELO COSMOS

    Enviado especial de PLACAR a Nova York, Lemyr Martins descreveu como foram “os últimos dias de Pelé jogador, os primeiros dias do cidadão do mundo”

    (Publicado em 11 de outubro de 1977)

    Pelé em sua despedida pelo Cosmos – Acervo/Placar

    O gol que Pelé fez, faltando um minuto para o final do primeiro tempo, foi o início da desvairada emoção que viveria o estádio do Giants, em New Jersey. Logo depois, no vestiário do Santos, esse desvario se convertia em obsessão. Esqueciam-se as táticas, esquecia-se a timidez, esquecia-se a falta de familiaridade com o piso artificial. Só havia um desejo — o de um gol de Pelé contra o Cosmos. O Santos — era quase uma prece de seus jogadores — não entraria para a história como o último time a sofrer um gol de Pelé.

    Mas entrou — só que, no final, não haveria nenhum sentimento de humilhação. Pensando bem, foi no estádio do Giants que se deu o reconhecimento mais festivo, mais ostensivo da glória que teve o clube em lançar para o mundo o talento de Pelé. O jogo?

    Foi assim: o Pelé gênio jogando pelo Cosmos, o Pelé coração sofrendo com o Santos. Foi o coroamento de uma exaustiva semana de festas.

    Meia hora antes da solenidade em que Édson Arantes do Nascimento iria receber, na sede da Organização das Nações Unidas, um título destinado às grandes personalidades — o de cidadão do mundo —, havia uma pessoa particularmente preocupada em meio à multidão que aguardava a chegada de Pelé. Era Cecil Redman, um mulato alto e forte, vice-diretor do serviço de segurança da ONU. “Esse é um tipo de segurança a que eu e meus colegas não estamos habituados”, diz. Afinal, é a visita de um rei — um Rei do Mundo.

    Houve muita confusão nos normalmente calmos, pesadamente sisudos corredores e salões da ONU. Entre empurrões, apelos, gritos e sussurros, foi difícil seguir o roteiro programado — tanto que metade do protocolo deixou de ser cumprida. Quando os homens tentavam — porque a rigor não conseguiam — proteger Pelé, foram obrigados a encostar o Rei num canto do hall do elevador.

    Depois, não seria apenas um banquete. Os discursos de Mauro Ramos, Hilderaldo Bellini e Carlos Alberto Torres — os capitães das três Copas vencidas pelo Brasil — tinham o inevitável cheiro de saudade das grandes conquistas. Conquistas que, insinuaram todos, eram devidas em maior parte a Pelé.

    Viriam mais emoções quando o cidadão do mundo voltou a falar de suas origens. “Sei que este momento vai ser como foi toda a minha carreira: fácil de começar, mas não sei como vai terminar”.

    No final — depois de confessar que tomara calmante para evitar uma emoção excessiva — pediu ao pai, Dondinho, e à mãe, dona Celeste, que fossem até ele. Iria apresentar, disse, os culpados por tudo o que ele é; ou, no mínimo, por tudo o que as pessoas dizem que ele é. Nem terminou a frase e vieram as lágrimas. As suas, as dos pais. As de uns tantos amigos. O imenso salão ficou silencioso. Foi o fim de uma era que ficará marcada como a maior vitória de um jogador de futebol: trazer dos campos, dos dribles, dos gols, a conquista do mundo.

    Publicado em PLACAR de setembro de 2020, edição 1467

    Capa da Revista Placar em homenagem aos 80 anos de Pelé – Divulgação/Placar

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