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Passado no hóquei, fã de escola holandesa e tecnologia: quem é Ariel Holan

Novo técnico do Santos ficou mais de duas décadas no hóquei sobre a grama; em 2003, chegou a vender o próprio carro para comprar computador e relógios

Por Klaus Richmond, Luiz Felipe Castro Atualizado em 23 fev 2021, 16h22 - Publicado em 22 fev 2021, 16h15

Oficializado pelo Santos nesta segunda-feira, 22, o técnico argentino Ariel Enrique Holan, 60 anos, chega ao clube para substituir Cuca, responsável por uma retomada improvável na última temporada, mas que encerrou a passagem de pouco mais de seis meses pela Vila Belmiro após o empate por 1 a 1 com o Fluminense, no domingo, na Vila Belmiro, resultado que garantiu a equipe na fase de preliminar da próxima Copa Libertadores da América. Holan assinou contrato até dezembro de 2023 e virá acompanhado de mais dois profissionais de sua comissão técnica.

“Estou muito feliz em dirigir o Santos, um clube com tantos craques como Pelé e Neymar. Será um desafio participar de uma das ligas mais equilibradas do mundo, mas confio plenamente que vamos entregar um bom resultado para a torcida com mentalidade ofensiva e que os jogadores mais novos sejam aproveitados com os mais experientes. Sei que é uma responsabilidade muito grande, mas estou animado. Fica minha promessa que vou terminar falando bem o português”, disse Holan, em suas primeiras palavras como técnico da equipe.

O acordo entre as partes já estava encaminhado antes mesmo do anúncio oficial. Holan aceitou baixar a pedida inicial e se adequar a nova realidade do clube. “Um profissional que usa a base, joga ofensivamente e que se adequou à questão financeira do Clube”, explicou o presidente Andres Rueda.

Holan, agora, é aguardado ainda esta semana e tem projeção de estreia para a primeira partida do Campeonato Paulista, diante do Santo André, no próximo domingo, 28, no estádio Bruno José Daniel. Antes, o Santos encerra a participação no Brasileiro em partida contra o Bahia, na quinta, 25, na Arena Fonte Nova. O auxiliar Marcelo Fernandes comandará a equipe no jogo.

Passado no hóquei, HOLANdês e fã de tecnologia

Ariel Holan, no jogo de ida da final da Copa Sulamericana de 2017, entre Independiente e Flamengo, no Estadio Libertadores de America -
Ariel Holan, no jogo da final da Copa Sulamericana de 2017, entre Independiente e Flamengo – Marcelo Endelli/Getty Images

Ariel Holan tem trajetória pouco comum. Apesar dos 60 anos, começou há pouco mais de cinco temporadas o ciclo no futebol profissional. A primeira oportunidade foi no Defensa y Justicia, em 11 de junho 2015. Na ocasião, acumulava 12 anos de experiência em trabalhos como assistente ou analista de vídeo, entre eles seguindo técnicos como Matías Almeyda e Jorge Burruchaga, primeiro a lhe dar uma chance no Arsenal de Sarandi.

A relação com o futebol nasceu diretamente ligada ao pai, mecânico apaixonado pelo Independiente. Quando conduziu o clube ao título da Copa Sul-Americana em pleno Maracanã, com pouco mais de 62.000 torcedores, causou comoção a imagem de Holan aos prantos, com a voz embargada: “isso é para o meu pai, isso é para o meu pai, não consigo mais falar”, disse.

O técnico conta que sonhava ser jogador de futebol, mas viveu trajetória longe do esporte até 2003. Após passar em um teste no Banfield, aos 14 anos, acabou influenciado pelos pais a decidir pelos estudos em vez dos gramados. Ele estudava em uma escola bilíngue à época. Os pais sonhavam em torná-lo um advogado.

“Porque eu estava estudando em Balmoral, uma escola bilíngue de dois turnos. Tive que ir a Banfield por algumas semanas para praticar, mas o diretor da escola disse a minha mãe que se eu quisesse jogar futebol, não poderia continuar. Foi muito difícil abandonar a escola e eles consideraram que não atingi um nível que justificasse tal decisão”, explicou em entrevista à revista El Gráfico, em 7 de junho de 2016.

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Holan cresceu jogando hóquei sobre a grama. Teve carreira curta como jogador, encerrada com a trágica morte do pai, em um acidente em 1979, quando tinha apenas 19 anos. Ele acabou esmagado pela queda do telhado de sua oficina. Oito anos depois, começou a treinar a equipe feminina de Olivos, na província de Buenos Aires, até receber de Gustavo Paolucci o convite para ser assistente técnico da seleção feminina da Argentina, em 1990.

O ápice na modalidade ocorreu com uma medalha de bronze dirigindo a seleção uruguaia da modalidade nos Jogos Pan-Americanos de 2003, na República Dominicana. Mesmo assim, o futebol nunca lhe saiu da cabeça. “Sempre tentei ver o que o futebol poderia ser aplicado ao hóquei. Agora, é o contrário. Na verdade, quando joguei, as regras eram mais parecidas e mudaram muito no hóquei, mas o jogo, a postura dos pés, a dinâmica de passe e a recepção são muito parecidas”, contou na mesma entrevista ao El Gráfico.

Holan virou um especialista em métodos pouco convencionais. Na Argentina, já como treinador de futebol, ficou marcado pelo uso de tecnologia nos treinamentos, bagagem que carrega desde os tempos do hóquei, quando conta ter vendido um carro para comprar 20 relógios da marca Polar S610, um computador e mapear o desempenho de suas jogadoras. Na ocasião, ficou por dois anos se deslocando de carona ou transporte público. “Meu amor, vendi o carro para comprar um computador: preciso de todos os dados dos meus jogadores”, anunciou a esposa à época.

A troca dos tacos pela bola só ocorreu em 2003 e, desde então, tem buscado contrariar expectativas. No Defensa y Justicia, seu primeiro trabalho, chegou a ser alvo de chacota pública antes de conduzir o clube a uma inédita classificação para a Copa Sul-Americana. “Ficamos um ano juntos e se foi [para o Independiente]. Não tivemos nenhum problema, me pareceu uma pessoa excelente. Como treinador tem seus resultados agora para exibir”, disse a PLACAR o presidente Jose Lemme.

O técnico argentino, Ariel Holan -
O técnico argentino, Ariel Holan, assumirá o quarto clube de sua carreira – Marcelo Endelli/Getty Images

Ganhou entre amigos mais íntimos o apelido de “Holandês”, dado ao amor que desenvolveu pela escola holandesa de futebol, encabeçada por Johan Cruyff. O primeiro contato foi em 6 de setembro de 1972, quando assistiu a primeira partida da decisão entre Independiente e Ajax, em Avellaneda. O jogo terminou empatado em 1 a 1, com atuação magistral de Cruyff.

“[Me apaixonei] pela forma, a dinâmica, porque o hóquei não era assim naquela época, mas ao contrário. Foi revolucionário o que o Ajax e depois a seleção da Holanda fizeram na Copa do Mundo de 1974. Isso abriu minha cabeça para os times de hóquei que comandei mais tarde”, conta.

Holan usa para si, segundo amigos próximos, uma espécie de mantra: “sigue acallando voces” (segue calando vozes, em tradução do espanhol). Após uma saída turbulenta do Independiente, em 30 de maio de 2019, marcada por críticas públicas do diretor esportivo Jorge “Puma” Damiani, ficou quase sete meses sem trabalhar até aceitar uma improvável ida a Univesidad Católica, no Chile, onde precisou superar dificuldades pela pandemia, a perda de jogadores considerados pilares o zagueiro Benjamín Kuscevic, negociado com o Palmeiras, e o volante César Pinares, com o Grêmio.

“Sem dúvida foi um ano que me fez crescer e, também, reafirmou a conclusão a que cheguei há muito tempo: de que o meu maior desafio como treinador é o crescimento dos meus jogadores e da minha comissão técnica”, disse em recente depoimento ao site The Coaches Voice.

Agora, no Santos, terá o maior desafio da carreira em nova fase, mais calejado e pronto após alguns anos e andanças. Visto como genial por alguns, também soma relações arranhadas. Além de Puma Damiani, Matías Almeyda e o preparador físico de Alejandro Kohan não quiseram falar sobre o treinador a PLACAR. No Independiente eram comuns as patadas públicas aos críticos.

“Eu não me levantei um dia bêbado dizendo: ‘quero ser treinador de futebol’. Remei mais de dez anos, mais de uma década, em diferentes cargos e funções dentro deste esporte”, respondeu em uma das entrevista coletivas.

Em Avellaneda, um dos relatos mais marcantes foi da briga com jogadores que viravam noites nas concentrações me mesas de pôquer. A mais famosa, no entanto, envolveu Pablo Álvarez, o Bebote, um dos barras bravas mais conhecidos na Argentina. Bebote exigia de Holan dinheiro para pagar a viagem para a Copa do Mundo na Rússia, em 2018. Após um treino, invadiu o carro do treinador na saída de um treino e o ameaçou. O caso ganhou repercussão, o barra brava teve prisão decretada.

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