Clique e assine a partir de 8,90/mês

Para rever em casa: sete detalhes do primeiro título mundial da seleção

Disponível na íntegra no YouTube, a final da Copa de 1958 teve lances geniais de Garrincha e Didi, esforço de Zagallo e o nascimento do jovem rei Pelé

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 26 mar 2020, 18h59 - Publicado em 23 mar 2020, 19h38

Os campeonatos ao redor do mundo podem até ter sido interrompidos devido à pandemia de coronavírus, mas a oferta de atrações para os fãs de futebol é bem generosa. Ler um livro ou assistir a filmes, documentários ou vídeos pode ser um bom passatempo para os boleiros durante o necessário período de quarentena. A partir desta segunda-feira, 23, PLACAR selecionará dicas de conteúdos para desfrutar em casa – depois, claro, de lavar bem as mãos.

Começamos com o duelo que marcou o início da hegemonia da seleção brasileira em Copas do Mundo. Em 29 de junho de 1958, no estádio Rasunda, em Estocolmo, o Brasil goleou a anfitriã Suécia por 5 a 2. Os gols de Vavá (2), Zagallo e Pelé (2) são reprisados com frequência, mas há inúmeros detalhes daquela partida que poucos conhecem – e que estão disponíveis gratuitamente, na íntegra do jogo, no YouTube.

O vídeo mescla uma narração sueca com a da Rádio Nacional, com narrações de Jorge Cury e Oswaldo Moreira (havia dois locutores por jogo), e comentários de Guilherme Sibemberg. Assistimos aos 90 minutos da partida e elencamos sete curiosidades sobre aquela partida que mudou a história do futebol brasileiro.

https://youtu.be/kjWe7ATSjPU

Regras e ritmo diferentes e a mão descarada de Bellini

Capitão da primeira conquista brasileira, o zagueiro Bellini (1930-2014) fez uma partida excepcional. No início do jogo, no entanto, cometeu uma atitude antidesportiva que hoje seria punida, talvez até com cartão vermelho. Aos 4m27s de vídeo, ele corta um promissor lançamento segurando a bola com as mãos. Na época, não existia cartão amarelo e a seleção da Suécia nem sequer reclamou da jogada. Outra mudança fundamental que pode ser conferida ao longo de toda a partida: os goleiros podiam segurar a bola com as mãos após os recuos – norma que só foi alterada no início da década de 90. Outro aspecto chama a atenção: o ritmo mais lento e a maior liberdade dos atletas em campo, que dá ao jogo um aspecto mais técnico e menos físico, natural por se tratar dos primórdios do futebol.

O golaço do “Barão” Liehdolm

Animada pela torcida no estádio Rasunda, a Suécia começou o jogo melhor e saiu na frente logo aos quatro minutos em um belo gol de seu principal jogador, Nils Liehdolm, que costurou a marcação brasileira e bateu firme no canto direito de Gilmar (aos 6m20s de vídeo). Um dos grandes jogadores da história do Milan, o “Barão”, como era chamado na Itália, também se destacou como treinador. Era Liedholm, atualmente com 85 anos, o técnico da Roma durante a passagem de Paulo César Falcão.

A classe inigualável de Didi

Continua após a publicidade

Waldir Pereira (1928-2001), mais conhecido como Didi – ou ainda Príncipe Etíope, na definição do dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues – tinha quase 30 anos na Copa da Suécia e era a liderança técnica e motivacional da equipe. Sua elegância no meio-campo e seus chutes incríveis, cuja recaída lembrava uma “folha seca”, lhe renderam o prêmio de melhor jogador do Mundial. Na final contra os anfitriões, Didi mostrou sua classe em diversos lances, como quando levou a bola placidamente ao meio campo após o primeiro gol de Liedholm (aos 6m47s) e ao passar a bola por entre as pernas do marcador, aos 19m45s de vídeo.

Escanteio curto? Escanteio rápido!

O primeiro gol da seleção brasileira na decisão nasce de uma bola parada e da esperteza de Zagallo. O camisa 7 – não, ele não jogava com a 13 – bateu o escanteio muito rapidamente, pegando a defesa sueca desprevenida. Na sobra, a bola caiu para Mané Garrincha, que em sua jogada característica arrancou pela direita e cruzou na medida para Vavá empurrar, a partir dos 10m20s de vídeo. O segundo gol brasileiro viria em jogada quase idêntica: novamente a força de Garrincha, que havia começado a partida impreciso nos dribles, fez a diferença, em nova assistência para Vavá (33m20s).

A quase obra-prima de Pelé

Então, uma jovem revelação de 17 anos, Pelé entrou no time a partir da terceira partida contra a União Soviética e foi decisivo com seis gols na competição, incluindo dois na decisão. Os tentos do jovem rei do futebol já foram reprisados à exaustão ao longo das últimas seis décadas, mas outra incrível finalização do camisa 10 poderia ter entrado para a história: aos 11min54s de vídeo, Pelé fuzila de perna esquerda e seu chute de fora da área explode na trave do goleiro Svensson. Apesar da pouca idade de aparentar timidez no início da partida, o maior gênio do esporte já demonstrava maturidade, com toques de primeira na maioria das vezes em que foi acionado.

Zagallo e uma revolução tática

O time campeão em 1958 (Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando Peçanha e Nilton Santos; Zito, Didi, Pelé, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo) é considerado por especialistas em tática como o precursor do sistema 4-3-3. Antes, os esquemas mais utilizados eram o 2-3-5, conhecido como “pirâmide” ou o 3-4-3, o chamado “WM”. O técnico Vicente Feola decidiu adotar o 4-2-4 da famosa seleção húngara de 1954, mas a forma de jogar de Zagallo, que era ponta, mas voltava para ajudar Nilton Santos na marcação, fazia com que o time ganhasse um marcador no meio-campo. O “vai e vem” do “Velho Lobo”, hoje tão comum no futebol, foi premiado aos 1h21m0s de vídeo, com um gol na decisão.

O rei coroado

Quando a transmissão da Rádio Nacional já celebrava o título inédito, Pelé terminaria de se apresentar ao mundo com mais uma jogada genial no último lance da partida. A 1h44m28s de vídeo, ele recebeu lançamento, matou no peito e passou de calcanhar para Zagallo; em seguida, recebeu de volta e completou de cabeça para as redes. “Campeões do mundo, meus amigos. Delírio brasileiro em Solna”, assim narrou Jorge Cury o primeiro dos cinco títulos mundiais do Brasil. Antes, ainda no início do primeiro tempo, aos 1h08m25s, o rei já havia marcado um dos gols mais belos de todas as Copas, ao finalizar de primeira após aplicar um chapéu no marcador. Pelé terminou a partida aos prantos, ainda sem imaginar que ali nascia uma das maiores estrelas de todos os tempos.

Continua após a publicidade
Publicidade