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Palmeiras dá exemplo na crise; Corinthians, Flamengo e outros, vexame

Caos financeiro provocado pela Covid-19 contagiou todos os clubes brasileiros. Com ajuda da patrocinadora, alviverde paulista tem maior segurança – por ora

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 11 May 2020, 13h09 - Publicado em 11 May 2020, 11h52

“Dessa crise, uns vão sair mal e outros péssimos. Esperamos sair apenas mal”. A frase espirituosa, que mistura bom humor a desalento, vem de Guilherme Bellintani, presidente do Bahia, clube que vivia plena ascensão economico-administrativa até, como todos os outros, sofrer enorme baque com a pandemia de coronavírus. O colapso econômico, que segundo previsão do Fundo Monetário Internacional provocará a pior recessão global desde a Grande Depressão da década de 1930, atingiu em cheio os já fragilizados cofres das equipes de futebol do Brasil. Agonizando, os mais endividados buscam formas de estancar a sangria. Até mesmo o multicampeão Flamengo, que parecia gozar de saúde financeira inabalável, fraquejou. Em meio ao caos, é o Palmeiras quem vem se destacando por uma postura elogiável – apoiado em uma conjuntura favorável e bastante atípica, é verdade.

Bem estruturados, Flamengo e Palmeiras são as exceções em seus estados. O atual tricampeão paulista Corinthians vive um drama econômico escancarado pelo balanço de 2019, que apontou déficit de 177 milhões de reais, segundo dados antecipados pelo site Meu Timão. Ao todo, a dívida do clube ultrapassa 660 milhões de reais. A manutenção de uma folha salarial altíssima aliada às eternas pendências para bancar o Itaquerão levaram o clube a ter de enxugar seus gastos. Assim como a maioria dos clubes do país, o Corinthians reduziu em 25% o salário de seus atletas e foi além: cortou em 70% os vencimentos de outros funcionários e colaboradores. Caso a pandemia se arraste, o que é bastante provável, também é possível prever novos cortes e um futuro sombrio no Parque São Jorge.

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O Flamengo é o principal entusiasta da retomada do futebol, apesar de todas as evidências estatísticas e até dramas particulares apontarem para o sentido oposto. Na mesma semana das mortes de Jorginho Domingos, que era massagista da equipe havia 40 anos, e de Débora Barcellos, mãe do atacante Ronald, da equipe sub-17 rubro-negra, ambos por Covid-19, o clube ressaltou seu desejo de “colaborar com o importante retorno às atividades do futebol no menor prazo possível”, na mesmíssima nota em que anunciou que 38 de seus funcionários, entre eles três jogadores do elenco profissional, testaram positivo para o coronavírus. O atual campeão brasileiro e da América ainda demitiu 62 funcionários, uma medida que causou espanto ao se tratar do clube com maior faturamento do país – segundo balanço de 2019, o Flamengo teve uma receita bruta de quase 1 bilhão de reais e segundo maior superávit (62 milhões de reais, 1 milhão de reais a menos que o campeão Athletico Paranaense).

Em nota oficial, o Flamengo alegou que as medidas “ajudarão o time a quitar direitos trabalhistas de ex-colaboradores; a preservar ao máximo o emprego e o pagamento em dia de mais de 1.000 colaboradores, a manter a prestação dos serviços para os 16.000 sócios e a continuar a ter uma performance esportiva de excelência em todos seus esportes.” A VEJA, o clube citou o desligamento ou atraso de pagamentos de patrocinadores, além da paralisação das receitas de jogo e cotas de TV, para justificar as demissões.

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São problemas reais, mas que não diminuem o constrangimento de dispensar empregados após empilhar tantas taças e tanto ser elogiado por sua organização. Os efeitos nos adversários serão ainda mais devastadores. Corinthians, São Paulo, Atlético-MG, Vasco da Gama, Botafogo, Fluminense e o rebaixado Cruzeiro estão entre os clubes grandes do país profundamente endividados e, portanto, os que mais devem sofrer. “A situação dos clubes é ruim, até mesmo para os mais organizados, como o Bahia. Estamos reduzindo nosso endividamento ano a ano, mas ainda há uma débito grande, fruto de gestões desastrosas passadas. Por isso, nossos valores de despesa e receita sempre foram muito próximos. Agora, praticamente sem receitas, o cenário é trágico”, explica o presidente Guilherme Bellintani.

Sempre há, no entanto, formas de tentar amenizar a crise. O Fortaleza, outro representante nordestino da elite, criou uma Rede de Proteção ao Funcionário (RPF) para evitar demissões no período. Diretores e atletas do tricolor cearense foram os primeiros do país a reduzir seus salários e o clube organizou ações comerciais para atrair seu sócio-torcedor – em março, apesar da ausência de jogos, o programa registrou crescimento de 20%. O presidente Marcelo Paz, no entanto, projeta prejuízo em torno de 3 milhões de reais em abril. “É necessário fazer esses ajustes e ações para podermos honrar nossos compromissos e nos mantermos sustentáveis.”

‘O Palmeiras não vai demitir nenhum funcionário’

Parceria crucial: Crefisa, de Leila Pereira, dá segurança ao Palmeiras Cesar Greco/S.E. Palmeiras

Sem bola rolando, o Palmeiras vem ganhando destaque no noticiário esportivo por sua boa conduta. Com o apoio de atletas e comissão comandada por Vanderlei Luxemburgo, que concordaram em abrir mão de 25% dos vencimentos, o clube manteve o pagamento integral de todos os seus funcionários, incluindo futebol feminino, categorias de base e esportes amadores. Voz mais firme em nome da cautela pela retomada do futebol, o presidente Maurício Galiotte promete honrar seus compromissos, não importa quanto dure a paralisação.

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“O Palmeiras não vai demitir nenhum funcionário durante a pandemia. Essa é a nossa prioridade, a ideia que baseia todo o nosso planejamento. Agradecemos às fontes de renda do clube que mantiveram apoio, os patrocinadores, o sócio-torcedor, membros do clube social, também aos atletas que aceitaram reduzir os salários. Isso tudo nos dá a condição de atender a essa prioridade. Nossa premissa é manter as pessoas seguras, saudáveis e alimentadas”, afirmou a VEJA.

Galiotte, portanto, fez questão de nomear quem lhe dá o sustento necessário para tomar as decisões honrosas. Neste bolo, não há dúvidas sobre quem é a maior protagonista: Leila Pereira, a controversa dona da Crefisa e da FAM, anunciantes do clube há seis temporadas. Leila garantiu apoio total em meio à crise, num acordo anual que rende ao Palmeiras 81 milhões de reais, o maior patrocínio do futebol da América Latina, fora os valores cedidos, oficialmente a título de empréstimo, para a compra de jogadores.

Não se trata, no entanto, apenas de boa vontade. Leila Pereira tem pretensões de ser a sucessora de Galiotte na presidência do Palmeiras – uma ligação que fez ambos romperem laços com o antecessor e ex-aliado de Galiotte, Paulo Nobre. A relação é portanto tão benéfica quanto perigosa para o clube alviverde, que se torna cada vez mais dependente da parceira. Também ajuda bastante na crise o fato de o clube não ter custos com seu estádio, o Allianz Parque, que é administrado pela WTorre, empresa que, aliás, demitiu 15% de seus funcionários recentemente.

A crise e o contexto favorável serviram também para o Palmeiras aparar antigas arestas. As conversas sobre o possível retorno do futebol, do qual Galiotte diz ser “radicalmente contra neste momento”, reaproximaram o clube de federações e até da TV Globo. “Temos conversado muito, feito reuniões quase que semanais, tanto com clubes, CBF, federações, estamos todos buscando informações, desenhando cenários e preparando protocolos para o dia que possamos voltar. Também há conversas com a TV. Como membro da Comissão Nacional de Clubes, me reuni com a Rede Globo para buscar uma evolução no que foi proposto por eles, uma redução nos pagamentos. Chegamos a um acordo, a Globo explicou que também vive um momento de dificuldades, e entendemos, afinal a crise pegou a todos.”

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Galiotte ainda rejeita a tese do técnico italiano Carlo Ancelotti, que diz que a pandemia poderá equilibrar as forças do futebol, reduzindo o valor dos salários e ingressos, e também as distâncias entre os clubes mais ricos e os mais pobres. “Creio que, de uma maneira natural, quem tem menos fonte de recurso e estava mais endividado, terá mais dificuldade” afirma Galiotte, acompanhado por Guilherme Bellintani, do Bahia. “Se isso acontecer vai ser ótimo, mas não tenho essa esperança toda. Acho que uma mudança só aconteceria se aproveitássemos a crise para aplicar regras claras de fair play financeiro. Quem gasta mais do que arrecada e atrasa salários precisa ser punido.”

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