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Opinião: O realismo fantástico do futebol no Brasil

A mistura é ruim: do Brasil, que cuida de modo desleixado da pandemia com o ambiente permanentemente afeito a contrafação do futebol

Por Fábio Altman 5 set 2021, 18h14

Um dos quatro jogadores da Argentina que passou pelo Reino Unido e, portanto, não poderia estar na delegação que disputaria a partida contra o Brasil, em Itaquera, é Emiliano Buendía. O sobrenome do argentino de Mar de Plata, meia do Aston Villa, da Inglaterra, remete, sem muito esforço, ao clã dos Buendía, a interminável linhagem da família que ocupa as páginas de Cem Anos de Solidão, o clássico de Gabriel García Márquez, obra-prima do realismo fantástico. Buendía, o jogador, e o ridículo da tarde histórica de 5 de setembro de 2021 na Zona Leste de São Paulo, a improvável Macondo inventada pelos cartolas da CBF e da Conmebol com a ajuda das autoridades da Anvisa, poderiam ser coisa da imaginação do escritor colombiano. E, no entanto, são reais.

Evidentemente, os quatro atletas argentinos que esconderam ter passado no Reino Unido nos últimos catorze dias mentiram, e mentiram com a anuência de seus chefes. Era segredo de polichinelo. A Anvisa só entrou em cena para valer quando o jogo tinha começado, em cena transmitida para o mundo todo, vergonhosamente. Mas fizeram a coisa certa, ao impedir que o trio irregular permanecesse em campo – Emiliano Buendía, ressalve-se, não estava no gramado.

Haverá, a partir de agora, o clássico empurra-empurra de culpa. Mas há uma certeza: a confusão é resultado de uma mistura ruim: a de um país, o Brasil, que cuidou de modo desleixado da pandemia, em decisões sempre apressadas e tomadas em cima da hora, com o ambiente permanentemente afeito a contrafação do futebol. E então chegamos ao realismo fantástico dos Buendía.

Fez bem a Globo, depois da suspensão, e com um buraco na programação, ao pôr no ar o filme Círculo de Fogo, de 2013. Relata, no exagero de sua ficção científica, a luta da humanidade contra criaturas monstruosas que emergem do mar. Contudo, os robôs montados para a guerra são fracos em demasia para combater o mal – a esperança é um velho robô, comandado por um veterano piloto. E assim terminou a partida entre Brasil e Argentina pelas Eliminatórias da Copa do Mundo do Catar.

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