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Opinião: CBF querer Neymar na Olimpíada é, no mínimo, desperdício

Não há sentido em buscar o bicampeonato de um torneio inferior sendo que o camisa 10 da seleção precisa (e muito) se firmar em palcos mais relevantes

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 28 Feb 2020, 12h51 - Publicado em 28 Feb 2020, 12h37

As declarações populistas de Neymar sobre o assunto – “sou fominha, estou disposto a jogar Copa América e Olimpíada, mas tem que conversar com o clube” – ecoaram na Confederação Brasileira de Futebol. Segundo informaram alguns portais especializados, o presidente da entidade, Rogério Caboclo, negocia a liberação do camisa 10 para disputar os Jogos de Tóquio junto à direção do Paris Saint-Germain. A chance de o clube francês (ou o Barcelona ou qualquer que seja o seu clube no segundo semestre) liberar o brasileiro é mínima, já que não se trata de data-Fifa, ainda mais se tratando de uma estrela com recorrentes problemas físicos. No entanto, ainda que o xeique desse sinal verde, qual o sentido de desgastar o principal jogador brasileiro em uma competição tão irrelevante?

Recentemente, o espanhol Sergio Ramos manifestou seu desejo de ir ao Japão. Aos 33 anos, a medalha de ouro é a única glória que falta na carreira do zagueiro do Real Madrid, campeão do mundo em 2010. O francês Kylian Mbappé, na flor de seus 21 anos e com uma taça de Copa no currículo, também abriu às portas a essa possibilidade, ainda que com a ressalva de que não quer se indispor com seu clube. Para Neymar, a realidade é totalmente diferente. Participar da maior festa do esporte, confraternizar com estrelas de outras modalidades e subir ao pódio não seria novidade para ele. Foi vice-campeão em Londres-2012, ainda com idade olímpica, e foi a estrela da medalha de ouro na Rio-2016, já com um dos três atletas maiores de 23 anos permitidos. Na última ocasião, Neymar abriu mão da disputa da Copa América Centenário – que acabou marcando a demissão de Dunga –  para comandar o time em uma conquista inédita e em casa. A relevância do torneio olímpico de futebol para o Brasil praticamente morreu naquele 20 de agosto de 2016, quando Neymar balançou as redes alemãs na última penalidade e fez o Maracanã explodir de alegria.

Por que Neymar perderia suas férias para se expor desta forma? O que teria a ganhar com isso? Faria muito mais sentido priorizar a Copa América, torneio do qual ficou ausente no título do ano passado e que jamais conquistou. Mais do que isso, a competição continental tem nível técnico infinitamente superior e seria, de fato, um bom preparativo para o que realmente importa: a Copa de 2022 no Catar. Sua presença no torneio sediado por Argentina e Colômbia também daria mais segurança a Tite, cujo prestígio despenca cada vez mais. O técnico da seleção olímpica, André Jardine, precisa bem menos de Neymar, até porque o ataque é seu setor mais pródigo em opções. Em resumo: quem tem mais a perder nessa história é Tite, e não Jardine.

Além dos promissores Paulinho, Matheus Cunha, Reinier, Antony, Pedrinho e cia, que deram conta do recado no pré-olímpico, a seleção ainda pode batalhar para ter Vinicius Junior, Rodrygo, Gabriel Martinelli (leia sobre a geração 2000 em PLACAR deste mês) e até algum atacante que eventualmente fique fora da seleção adulta, como Gabriel Jesus, Richarlison e David Neres. Por estes atletas jovens, que não são tão indispensáveis para seus clubes e têm mais necessidade de mostrar serviço com a amarelinha, valeria a pena a CBF entrar em uma queda de braço com os dirigentes europeus em busca de liberação. Com 28 anos recém-completados, o adulto Ney já tem sua missão olímpica muito bem cumprida com dois pódios e um ouro inédito. Insistir nessa disputa é, no mínimo, desperdício. Ele e a seleção brasileira precisam sonhar bem mais alto que isso.

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