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Opinião: afinal, o que sentimos por Neymar, o detestável ídolo nacional?

O craque midiático, irresponsável e carismático, milionário e azarado, tudo ao mesmo tempo, conseguiu a proeza de polarizar tantos sentimentos

BRASÍLIA – Ao longo da história, diversos ídolos de personalidade forte e talento incontestável, como Diego Maradona ou Nelson Piquet, justificaram a máxima de “ame ou odeie” e acumularam fãs e haters (ainda que o último termo nem sequer existisse na época pré-Instagram), ambos fanáticos, numa mesma proporção. Neymar da Silva Santos Junior, um dos mais midiáticos esportistas de sua geração, segue a mesma linha, mas com uma característica peculiar: é capaz de dividir os sentimentos de uma mesma pessoa, num piscar de olhos ou num mergulho no gramado. Afinal, qual faceta do carismático e irritante “menino de 27 anos” nos toca mais?

A surrealista noite de 5 de junho em Brasília foi um belo resumo do potencial de contradição contido no personagem nascido em Mogi das Cruzes (SP). Dias depois de ter sido acusado de estupro por uma mulher, e vindo de uma sequência absurdamente negativa na carreira, com fracassos em campo e vexames fora dele, Neymar recebeu apoio massivo do público na capital federal. No entorno do estádio Mané Garrincha, havia centenas de camisas 10, além de faixas e mimos para o craque. O argumento de que o apoio a Neymar é reflexo de uma sociedade machista, que se apressou em condenar a garota “golpista e aproveitadora” ainda que nada culpe ou absolva claramente nenhum dos lados, é válido, mas é necessário lembrar uma verdade inconveniente: Neymar, o “cai-cai” da Copa, apesar de tudo, é um ídolo nacional e internacional.

Não à toa, tem mais de 100 milhões de seguidores nas redes e dezenas de marcas que insistem em associar seus nomes ao dele – que seria Matheus, não fosse um ataque narcisístico do pai, que tapeou a mãe Nadine e registrou “Juninho”, de surpresa, no cartório. Neymar Senior, aliás, ao contrário do filho craque, é quase unanimidade: com pinta de vilão, o único pai de atleta com poderes para invadir o vestiário da seleção é apontado por muitos como o responsável pela derrocada do menino da Vila, ainda que jure que tentou impedir a desastrada troca do Barcelona pelo PSG. Mas também é apontado pelo próprio Neymar Jr. como o homem que sempre o incentivou e ensinou, por exemplo, a aprimorar chutes de perna esquerda – como os que lhe renderam gols decisivos nas finais da Liga dos Campeões ou da Copa das Confederações, feitos que encheram os torcedores de orgulho.

Pois o mesmo Neymar que irrita com atitudes intempestivas de adolescentes e quedas exageradas é aquele que encanta com um drible atrevido mágico ou qualquer outra molecagem que Garrincha e Ronaldinho Gaúcho assinariam. Também é o mesmo que provocou pena (e preocupação) com uma sequência de infelizes lesões às vésperas ou durante torneios da seleção. “Agora fiquei com dó do Neymar” ou “agora complicou para a seleção” foram algumas das frases que ecoaram, intimamente, na última noite, depois da confirmação de sua ausência da Copa América.

Porque não passa de uma grande injustiça – para não dizer estupidez – a popular tese de que o time de Tite seria melhor sem seu camisa 10 – que, aliás, jamais deveria ter largado a 11, do também indomável Romário, que Neymar usou em seus melhores momentos, no Santos e no Barça. Basta lembrar que, com ele em campo, a seleção jamais perdeu um jogo em casa; e sem ele, novamente machucado, levou sete gols em uma semifinal de Copa do Mundo no Brasil.

Neymar não é um ‘coitadinho’, não é tão “difícil ser Neymar”, nem nada do gênero. Mas tampouco se deve tripudiar de mais um momento dramático em sua carreira – e me refiro apenas à lesão grave e não à polêmica denúncia que a Justiça se encarregará de avaliar – e diminuir os feitos do jovem que já arrancou sorrisos de qualquer um que se ligue em futebol. Para o bem e para o mal, Neymar é um moleque. Aquele que o país aprendeu a odiar e amar na mesma medida.