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Opinião: a letra fria da lei e a falta de bom-senso no futebol

A arbitragem, antes de se preocupar com a comemoração do gol, deveria olhar seu próprio desenvolvimento e evitar erros crassos

Por Alexandre Salvador, Danilo Monteiro - Atualizado em 14 fev 2020, 14h37 - Publicado em 4 fev 2020, 16h34

Como se não bastasse a atrocidade da criação dos jogos com torcida única, medida que já foi reprovada por especialistas no tema, o futebol brasileiro ganhou mais uma aberração: a criação de um fiscal de comemorações de gol. No clássico entre Corinthians e Santos (acompanhado apenas por corintianos, claro), o atacante Janderson foi tomado pela emoção de marcar seu primeiro gol contra um grande rival e foi abraçar seus torcedores que estavam ali, clamando por sua vibração. Ao ver a cena o árbitro da partida, Luiz Flávio de Oliveira, não teve dúvidas e tascou-lhe um cartão amarelo. Como era o segundo, o jovem jogador do Corinthians acabou expulso de campo.

O mantra “a regra é clara”, patenteado por Arnaldo Cezar Coelho em rede nacional, é seguido à risca pelos árbitros brasileiros. Ele não deveria ser algo negativo, mas soa como tal quando a regra regula sobre o que não deveria ser regulamentado. O gol é uma explosão de sentimentos que podem levar ao bem e ao mal. Neste último caso, a advertência é válida e incontestável. No primeiro, o sumiço do bom-senso é gritante em casos como o de Janderson. O Corinthians não foi prejudicado no placar final, mas o Grêmio, na final contra da Copa São Paulo de Futebol Júnior, sim. O Inter buscou o empate em 1 a 1 e levou sua 5ª taça nos pênaltis. O excesso na comemoração deveria provocar o desequilíbrio dentro de campo causado por uma expulsão?

“No Brasileiro, você vai ver todos os jogadores que subirem no alambrado serem punidos. Essa é a nossa orientação. Está escrito na regra do jogo. Uma coisa é trabalhar em uma Copa do Mundo, com estádios de alta estrutura, outra coisa é trabalhar no Brasileirão, onde eu tenho de manter o mesmo critério para quem joga no Maracanã e para quem joga em qualquer outro lugar. Subir a escadinha do Maracanã é diferente de subir um alambrado do estádio de qualquer outro clube. Nós já tivemos jogadores perdendo o dedo por subir em alambrado. Já tivemos torcedores esmagados durante comemorações”, explicou Leonardo Gaciba, chefe da comissão de arbitragem da CBF.

A explicação de Gaciba é esclarecedora no que diz respeito aos perigos que envolvem os alambrados, apesar da indignação dos defensores do “futebol raiz” e de raramente acontecer algo em uma comemoração deste tipo. O argumento pautado pura e simplesmente no que está escrito na regra, entretanto, não justifica a expulsão de Janderson, pois a própria norma não é capaz de solucionar um caso deste tipo, em que nenhuma pessoa foi exposta a riscos. Que tal uma punição no bolso do clube ou do atleta, CBF?

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Alexandre Pato marcou dois gols legais, mas não comemorou nenhum deles graças aos erros do árbitro da partida – 03/02/2020 Renato Gizzi/Photo Premium/Folhapress

A arbitragem, antes de se preocupar com a distância da comemoração ou com quantos torcedores o jogador vai abraçar, deveria se preocupar com seu próprio desenvolvimento. Um exemplo disto ocorreu no empate entre Novorizontino e São Paulo, na última segunda, quando o clube da capital paulista teve dois gols mal anulados e dois pênaltis não marcados – a partida não teve auxílio do VAR. O Brasil é o país com mais juízes com a insígnia da Fifa, mas os 30 árbitros do quadro internacional são apenas pequena parte de um universo de mais de 600, todos ensinados sob a o mandamento da claridade da regra, quando na verdade ela abre exceções para interpretações em diversas jogadas. Por que não na comemoração dos gols?

No futebol americano, cuja final foi realizada neste domingo, aprendemos mais uma vez sobre capacidade das organizações esportivas americanas em realizar grandes espetáculos. Na terra do Super Bowl, existe uma comemoração similar a ocorrida na Arena Corinthians e que se tornou, inclusive, a assinatura de uma equipe. O Lambeau Leap (algo como Salto Lambeau, na tradução literal do inglês) foi inventado em 1993, quando o jogador LeRoy Butler saltou em direção aos fãs que assistiam ao jogo da primeira fila da arquibancada. Em vez de punir a equipe, a liga abraçou (literal e figuramente falando) a espontaneidade do ato, reconhecendo tratar-se de algo que agregaria valor a seu produto, um reconhecimento pelo pela excelência esportiva.

 

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