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O vermelho e o negro: Marcelo Cirino tenta repetir sucesso no Flamengo

Após passar pelo Vitória e Atlético-PR, Marcelo Cirino quer justifcar, com gols e títulos, por que ganhou da torcida do Flamengo o apelido de Sinistro

Marcelo Cirino brinca que, se jogasse na Europa, provavelmente defenderia as cores do Milan: vermelho e preto. O atacante jogou os primeiros sete anos de sua carreira, desde as categorias de base, no Atlético Paranaense — com uma pequena passagem pelo Vitória, da Bahia, em 2011 —, antes de ser transferido, no início deste ano, para o Flamengo. Apenas clubes rubro-negros. O comentário sobre o Milan é só uma piada do jogador, mas ele parece saber que as cores estão mesmo em seu DNA.

Tanto que caiu imediatamente nas graças da torcida do Flamengo. Mal chegou, ganhou apelido. Já chamado de Marcelo Bolt, por causa de sua velocidade, antes de chegar ao Rio, passou a ouvir a arquibancada gritando por Marcelo Sinistro. “Não sei o porquê. Mas gostei. E se espalhou muito rápido, pelas redes sociais inclusive”, comenta, com um sorriso nada sinistro. Talvez seja porque esteja demonstrando uma fome de gols inédita em sua carreira — ou sinistra, se for para usar um adjetivo que combine mais. Na temporada, já balançou dez vezes as redes adversárias, fruto do seu esforço em campo e de uma mudança de posicionamento promovida pelo então técnico Vanderlei Luxemburgo, substituído em maio por Cristóvão Borges.

No Atlético, Marcelo costumava atuar pelas pontas, com a função de municiar o centroavante. No Flamengo, passou a jogar mais centralizado, partindo ele mesmo, em velocidade, em direção ao gol. “No começo foi complicado, é sempre uma adaptação. Jogava na posição anterior a vida toda. Sempre fui mais responsável por essa parte da assistência. Mas os companheiros foram me entendendo, e eu a eles. Não sou um centroavante nato, mas o Luxemburgo percebeu que, com minha velocidade, chego mais rápido ao gol”, diz ele, que jura não ter se incomodado quando Vanderlei afirmou, em entrevista no  programa Bem, Amigos, do SporTV, que ele não tem a habilidade como uma de suas principais características.

“O Marcelo Cirino não é um jogador habilidoso. Ele é um velocista, com um poder de finalização, de chegada no gol muito rápido. Quando fica do lado, o gol fica muito distante dele. O Willian, Oscar, Neymar, Cristiano Ronaldo podem funcionar do lado porque, quando eles pegam a bola, têm habilidade, técnica para ir conduzindo. O Marcelo Cirino é só velocista. Se eu aproximar ele da área, na hora que lançam a bola para ele, como meteram para o Firmino, em 10 metros, ele chega na cara do gol com uma facilidade muito grande. É muita explosão”, isse o hoje técnico do Cruzeiro. “Estranho seria se ele dissesse que eu sou habilidoso, porque não sou mesmo. Não encarei como crítica, ele estava ali explicando a escolha dele e falando no meu ponto forte, que é a velocidade. Mas, se tiver que dar uma ginga, um drible, eu sou capaz, sim”, pondera o atacante.

Para se adaptar ao novo posicionamento em campo, Cirino conversou muito com Deivid, auxiliar técnico de Luxemburgo e ex-jogador do próprio Flamengo, onde foi centroavante entre 2012 e 2014. Com ele, começou a pegar as manhas de jogar mais perto da área. A saída da dupla e a chegada de Cristóvão não mudaram a rotina. Ao mesmo tempo, Cirino sente que a cobrança é maior. Fica sério ao lembrar as críticas que recebeu nos jogos decisivos do Carioca, quando não marcou gols e teve atuações mais discretas. “Não sou amarelão, jamais. Não fiz gols. Mas, contra o Fluminense, o próprio Cavalieri disse que atraí a atenção dele e além disso dei o passe para o terceiro gol. Contra o Vasco, sofri o pênalti que o Alecsandro converteu. Eu me cobro pelos gols, mas não me omiti. Se puxar pelo scout, vão ver o quanto corri. Ajudei na marcação, dei assistências… A crítica vem porque o pessoal quer gol. E minha posição requer isso. Mas não jogo sozinho”, defende-se.

A cobrança não é apenas dos críticos. Contratado com status de maior estrela do clube deste ano, o atacante tem consciência de que precisa usar suas qualidades para conquistar de vez a torcida: as arrancadas, o chute forte — que já atingiu 126 km/h — e, acima de tudo, a entrega. “Conquistar essa massa não é fácil, não pensei que seria tão rápido. Acho que eles veem que dou a vida em campo”, analisa ele, que sabe a velocidade do chute, mas desconhece seu tempo correndo: “Tenho essa curiosidade… Sempre corri muito rápido, tenho explosão, mas não sei em quanto tempo corro 100 metros, por exemplo. Melhor nem saber, vou passar vergonha em relação ao Bolt verdadeiro.”

DO GOL AO ATAQUE

Cirino, 23 anos, começou a jogar futsal na infância, aos 10 anos, em sua cidade natal, Maringá (PR). Surpreendentemente, era goleiro. Pouco depois, passou a intercalar salão e campo. Nessa hora, o pai, o policial aposentado Cezarino, se meteu. Avisou que ele não seria goleiro, que tinha que ir pra linha. O filho obedeceu. Afinal, Cezarino é seu ídolo, exemplo, referência. “Por tudo o que fez por mim e por meus dois irmãos. Trabalhou 26 anos, na polícia, e todos dizem que era justo e honesto. Isso enche qualquer filho de orgulho. Ele nos educou, nunca deixou faltar nada, esteve sempre presente. Cobrava, mas apoiava. Comigo, estava sempre na beira do campo”, diz. Até se emociona ao lembrar a infância, às voltas com pipa e bola. “Minha mãe era doméstica, hoje não precisa mais trabalhar. Meu orgulho foi ter reformado a casa deles, onde fui criado.”

O semblante se fecha ao ser perguntado sobre os irmãos. No início de abril, o jornal Extra noticiou que um dos irmãos do atacante havia sido preso por receptação de mercadoria roubada. A assessoria de imprensa do jogador divulgou uma nota informando que quem havia tido problemas com a Justiça era o outro irmão, cinco anos antes. Passado um mês, Cirino continuava sem querer falar sobre qual irmão teve que problema. Mas quebrou o silêncio na entrevista à PLACAR. “Nenhum irmão meu está preso, não vou falar mais que isso… Eu prometi que não ia falar nada sobre esse assunto, mas vou. Achei uma falta de respeito. Não invado a vida de ninguém. Mas tudo bem, já está tudo resolvido. Isso deixa a gente mais preparado, mais maduro para a vida. Vou estar preparado quando quiserem falar da minha família, do sangue do meu sangue.”

Apesar da mágoa, o jogador garante que esse não foi nem será o momento mais difícil de sua carreira, por um motivo até bem simples: “Porque isso não tem nada a ver com a minha carreira. O problema não foi comigo, não tem nada a ver com minha atuação”. O início de carreira, sim, foi mais complicado. Cirino sofreu com uma série de lesões musculares nas duas coxas, quando era adolescente, ainda na base, no Atlético- PR. Não sabe dizer se era uma fragilidade de seu corpo ou se a preparação não era adequada. Mas agradece ao fisiologista Oscar Erichsen e ao preparador físico Márcio Henriques por todo o trabalho e atenção que tiveram com ele, além de ao técnico Antônio Lopes, por ter dado as primeiras oportunidades no profissional. “Todo o trabalho deles teve resultado, e esse resultado a gente vê hoje. Tanto que fui o único jogador do Flamengo que não sentiu nenhum desconforto muscular este ano. E olha que joguei todas as partidas oficiais da temporada até agora.” Logo após a entrevista, no entanto, Cirino sofreu um edema na coxa esquerda, o que o tirou de combate em alguns jogos do Brasileiro.

Fã do português Cristiano Ronaldo, Cirino se espelha no comportamento do craque do Real Madrid. “Não o considero egoísta. Acho que é um cara que procura fazer o máximo sempre e nunca está satisfeito. Um atleta tem que ser assim.” Por isso, admite ficar tão pilhado após as derrotas. Cirino chega a perder o sono. “Sinto como se todos os jogos fossem decisivos. Entro em campo sempre pensando que aquele é o último jogo da minha carreira. Quando não dá certo, simplesmente não durmo. Passo a noite pensando no que poderia ter feito melhor. Revejo o jogo na minha mente e na TV também, gravado.”

Por falar em Portugal, no fim de abril o atacante chegou a ser oferecido ao Benfica pelo grupo que detém seus direitos econômicos, o Doyen Sports, que pagou os 4 milhões de euros ao Atlético-PR, em janeiro, viabilizando sua ida para o Flamengo, que fará o ressarcimento em três anos. “No dia, minha noiva veio falar chateada porque não contei pra ela essa história do Benfica. Não tinha como contar, não sabia de nada”, ri ele, sem esconder que sonha com a Europa. “Claro, jogador tem que pensar grande! Mas o Flamengo também é grande. Vai ser bom ir, se pintar uma chance. E vai ser bom ficar e fazer história.” Um história rubro-negra, com certeza.

VAI OU RACHA?

Nem sempre as promessas reveladas por outros clubes dão certo na Gávea

CHIQUINHO (FALHOU)

ORIGEM: BOTAFOGO-SP

(1985-1986)

Artilheiro do Paulista em 1984 pelo Botafogo-SP, foi contratado pelo Flamengo para ser a referência de ataque. Mas, em 76 jogos, fez 23 gols – menos de um a cada três partidas, média fraca para um artilheiro.

SERGIO ARAÚJO (FALHOU)

ORIGEM: ATLÉTICO-MG

(1988-1989)

Uma das principais promessas atleticanas da década de 1980, foi a principal contratação rubro-negra de 1988, depois de uma excelente Copa União no ano anterior. A missão, dura, era substituir Renato Gaúcho, vendido à Roma. Em dois anos, fez apenas 39 jogos e nove gols.

UIDEMAR (VINGOU)

ORIGEM: GOIÁS

(1989-1993)

Caso raro de afirmação. Foi contratado depois de boas temporadas pelo Goiás, que renderam até mesmo convocações para a seleção brasileira de Carlos Alberto Silva. Pelo Flamengo, foi campeão da Copa do Brasil, do Carioca e do Brasileiro.

ANDRÉ CRUZ (FALHOU)

ORIGEM: PONTE PRETA

(1990)

Foi, certamente, a promessa de zaga mais falada do Brasil na virada dos anos 80 para os 90. Como pouco aparecia na Ponte, em 1990 acertou a transferência para o Flamengo, que atravessou o Vasco na negociação. Durou apenas 26 jogos.

LÚCIO (FALHOU)

ORIGEM: GOIÁS

(1997 e 1999)

Destaque do Goiás no Brasileiro de 1996, foi a grande contratação do ano seguinte. Mas não vingou: foi emprestado para o Santos (onde fez boa temporada em 1998) e retornou em 1999. Mas os resultados sempre foram abaixo da expectativa.

RODRIGO FABRI (FALHOU)

ORIGEM: PORTUGUESA

(1998)

Bola de Prata por dois anos consecutivos pela Portuguesa, foi comprado pelo Real Madrid e ao mesmo tempo repassado ao Flamengo. Jamais conseguiu exibir o futebol dos tempos de Lusa na Gávea — e só teria um brilho efêmero no Grêmio.

LIÉDSON (VINGOU)

ORIGEM: CORITIBA

(2002)

Foi uma passagem relâmpago, mas que o flamenguista não esquece. Fez parte do início fulminante de sua carreira, de empacotador de supermercados a atacante do time mais popular do país em dois anos. Durou 24 jogos e 14 gols.

GABRIEL (FALHOU)

ORIGEM: BAHIA

(2014)

Promessa do Bahia, fez um bom Brasileirão pelo clube baiano em 2013. No Flamengo, nunca encontrou seu lugar de fato. Continua no clube, à espera de um retorno aos velhos tempos de Salvador.