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O que falta à seleção de Tite

Defesa impecável, ataque decepcionante: time massacra defesas adversárias mas faltam atacantes com faro de gol

PORTO ALEGRE – Aos trancos e barrancos, a seleção brasileira alcançou seus objetivos na Copa América e agora aguarda o adversário da semifinal, Argentina ou Venezuela. Vendo o copo meio cheio, há de se destacar na equipe de Tite a solidez defensiva: não levou um gol sequer e todos os integrantes do setor vêm demonstrando maturidade e boa forma. Alisson e Marquinhos, aliás, vêm se consolidando como líderes das próximas gerações. Por outro lado, o ataque vem decepcionando apesar de ser o mais efetivo do torneio, com oito gols em quatro jogos – cinco foram contra o Peru, na única atuação realmente satisfatória. Sem um grande finalizador nem meio-campistas que surpreendam, o time sofre especialmente diante de retrancas como as de Venezuela e Paraguai. Até o momento, Tite não encontrou soluções.

Técnico e atletas relacionaram os problemas de ataque às péssimas condições do gramado da Arena do Grêmio. “O jogador precisa dar três toques para dominar”, disse Tite. De fato, era evidente, apenas pelo quique da bola, que o trabalho foi dificultado, sobretudo diante de uma defesa firme como a do Paraguai. Mas isso não é tudo: é natural que equipes inferiores tecnicamente optem por “estacionar o ônibus” dentro da área e o Brasil precisa buscar alternativas. Abaixo, os principais problemas:

Meias que não avançam

Tite é um grande fã do futebol de Philippe Coutinho e tenta encaixá-lo numa posição mais avançada, “entre linhas”, o que muitas vezes obriga o franzino meia a atuar de costas para o gol. Coutinho teve bons momentos na competição e não se pode reclamar de falta de esforço, mas lhe falta consistência e, sobretudo, companhia. Arthur, que parece ser o novo dono da posição de segundo volante, tem ótimo passe e tende a brilhar em jogos com mais espaço, como diante do Peru, mas ainda chega pouco ao ataque. Casemiro, Allan e Fernandinho também têm características mais defensivas. Nesse sentido, a seleção se ressente de atletas como Paulinho e Renato Augusto, meias que apareciam como surpresa nos melhores momentos de Tite à frente da seleção. Lucas Paquetá poderia exercer a função, mas tem recebido poucas chances. Bruno Henrique, do Palmeiras, jamais foi convocado, poderia ter sido uma boa opção.

Ótimo passador, Arthur precisa evoluir no setor ofensivo (Jeferson Guareze/AFP)

Time não acerta a ‘casinha’

O maior problema do Brasil no torneio tem sido a imprecisão das finalizações. Contra o Paraguai, foram 26 tentativas, apenas oito no gol e nenhuma na rede. O técnico insiste no fundamento durante os treinamentos. “Não aguentamos mais vê-lo dizer para acertar a ‘casinha’”, brincou Arthur, que ainda não marcou pela seleção brasileira. Neste quesito, quem mais se destaca é Everton, autor de dois gols no torneio em chutes de fora da área. As cobranças de falta também são um problema grave: desde setembro de 2014, com Neymar, o time não marca em tiros livres. Sem o camisa 10, cortado por lesão, o time não tem um grande cobrador – Daniel Alves e até Casemiro, que nunca foram batedores oficiais em seus clubes, tentam a sorte pela seleção.

Coutinho chuta bem de média distância, mas está sempre bem marcado (Buda Mendes/Getty Images)

Falta um 9

Em tempos de “falso 9” e debates sobre a “morte do centroavante no futebol moderno”, há jogos que pedem atletas com características que a seleção brasileira simplesmente não tem neste momento. O Brasil tem um time leve, rápido e de boa técnica, mas pouca precisão na finalização. Em retrancas como as de Venezuela ou Bélgica, jogadores de gerações passadas como Fred, Jô ou Luis Fabiano poderiam ter causado mais problemas aos defensores. Contra o Paraguai, os laterais e pontas foram bem – a aposta de Tite por Willian tem se mostrado acertada –, mas quase todos os cruzamentos encontraram a cabeça dos bons defensores adversários. Enquanto isso, goleadores como os uruguaios Cavani e Suárez, o peruano Guerrero, o argentino Lautaro Martínez, e até mesmo o venezuelano Rondón, são destaques  nesta Copa América. Caso se mantenha no cargo, um dos principais desafios de Tite deve ser encontrar centroavantes com mais faro de gol.

Firmino: boa técnica e visão de jogo, mas falta poder de decisão (Buda Mendes/Getty Images)