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O que é pior: bater um pênalti como Diego ou se omitir como Dudu?

Por motivos opostos, os grandes nomes do elenco de Flamengo e Palmeiras ficaram expostos depois das eliminações na Copa do Brasil

Flamengo e Palmeiras, os clubes que hoje se vangloriam da posição de terem os maiores faturamentos do país, tiveram suas participações encurtadas na Copa do Brasil na noite desta quarta-feira 17 pelo mesmo erro capital: a baixa eficácia diante da marca da cal. Os resultados foram surpreendentes, sim, mas estão longe de serem anormais, sobretudo no contexto de um mata-mata, e diante de equipes organizadas como Athletico Paranaense e Inter, que fizeram por merecer as respectivas classificações para as semifinais do torneio nacional. No entanto, a derrota evidenciou a postura de dois personagens, Diego Ribas e Dudu, mas por motivos opostos.

Ambos são líderes de seus times, com passagens pela seleção brasileira e salários bem acima da média brasileira. Ambos jogaram bem no tempo normal das partidas. E ambos fracassaram na disputa por pênaltis: o flamenguista enfureceu a torcida ao desperdiçar um pênalti de forma irresponsável; o palmeirense deixou a massa alviverde na bronca por, mais uma vez, se omitir num momento tão decisivo.

O caso de Diego chamou a atenção pelo fracasso retumbante, mas evidenciou seu histórico negativo em penalidades: errou cinco dos 14 que bateu pelo clube rubro-negro. Para piorar, a escolha da batida (arriscada, para dizer o mínimo), causou a ira do lado rubro-negro. O chute fraco, no meio do gol, dependia da queda do goleiro Santos para um dos lados. O camisa 10 do Flamengo quis tirar onda, mas acabou passando vergonha. Depois do jogo, o jogador se justificou dizendo que havia treinado suas cobranças dessa forma.

Esse discurso é semelhante ao do atacante Alexandre Pato, autor do pênalti mais displicente de que se tem lembrança no futebol nacional. Em 2013, diante do Grêmio, à época defendido por ninguém menos que o lendário catador de pênaltis Dida, o então jogador do Corinthians praticamente rolou a bola para as mãos do arqueiro adversário, justamente na cobrança decisiva da disputa de quartas de final da Copa do Brasil daquele ano. A empáfia num momento tão crucial inviabilizou a trajetória de Pato com a camisa alvinegra – o mal estar foi tanto que o atacante, contratado por 15 milhões de euros, acabou emprestado para o rival São Paulo até o final de seu contrato. Não cabe, no entanto, paralelo entre as batidas de Diego e Pato.

Primeiro que Diego não tentou uma “cavadinha”. Foi um chute no meio, opção que pode ser considerada uma “bola de segurança” justamente pela imensa maioria de vezes em que o goleiro salta para um dos lados da meta. O argentino Lionel Messi já escolheu essa batida algumas vezes. Foi vista até em final de Copa do Mundo. No Mundial de 2006, foram duas cobranças do mesmo tipo: o francês Zinedine Zidane – este sim de “cavadinha” – e do italiano Andrea Pirlo, em cobrança idêntica à de Diego, marcaram e, até por serem os craques das duas equipes, foram elogiados pela postura (“frios” e “geniais” foram os adjetivos utilizados à época). Mas se não tivessem acertado, é certo que seriam cobrados como Diego. O técnico Vanderlei Luxemburgo, que já teve de lidar com Marcelinho Carioca e Djalminha, dois mestres nas batidas menos ortodoxas, dizia o seguinte: “Eu não quero que cobrem um pênalti assim. Se perderem, o problema é de vocês.” Luxa foi preciso: Diego se arriscou e agora terá encarar a bronca.

Bronca essa que Dudu preferiu não correr o risco de assumir com a torcida do Palmeiras. Maior ídolo recente do clube, símbolo da retomada vitoriosa da equipe desde 2015, o camisa 7 foi também o melhor jogador do país no ano passado. Muitos torcedores cobraram do técnico da seleção brasileira sua convocação para a Copa da Rússia. E boa parte destes mesmos fãs se decepcionaram ao ver Dudu se negar a bater um dos seis pênaltis contra o Inter, no Beira-Rio. Assim como Diego, Dudu tem um histórico traumático: de seus quatro erros em penalidades, dois foram em compromissos importantes, nas finais dos Paulistas de 2015 e 2018, contra Santos e Corinthians, nas quais seu time terminou derrotado.

Apesar de Dudu ser o atleta mais bem pago do elenco – seu salário está na casa do milhão de reais – e referência técnica do time, ele agora prefere a omissão ao erro. As críticas poderiam ser amenizadas caso ele viesse a público para dizer que não mais bateria um pênalti sequer. Não foi o que aconteceu: desde o ano passado, Dudu cobrou penalidades em partidas praticamente decididas, contra Botafogo de Ribeirão Preto e Novorizontino. O mesmo aconteceu com Felipe Melo, outra liderança alviverde, que quis bater contra o Novorizontino para “agradar a família que estava no estádio”, quando o jogo estava 4 a 0. E errou de forma bisonha. Nas decisões recentes, inclusive na desta quarta, o volante também se omitiu.

Não chega a ser grande novidade o fato de um craque não se sentir à vontade para bater pênaltis. Roberto Rivellino, por exemplo, admitia que detestava a responsabilidade. O caso de Dudu, no entanto, lembra mais o de Edilson Capetinha, que até hoje adora dar entrevistas falando sobre sua personalidade, que adora bater no peito para dizer jogava mais que fulano e sicrano, mas que, na hora do aperto, na marca da cal jogando pelo Corinthians, passou a responsabilidade para jovens como Fernando Baiano e Índio.

Em suma, as atitudes de Diego e Dudu não diminuem (e nem deveriam fazê-lo) a idolatria e a gratidão dos torcedores de suas respectivas equipes. Mas são passíveis, sim, de cobrança, sobretudo por parte de quem paga seus salários, direta ou indiretamente. É melhor errar por ação do que por omissão.