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‘O professor da equipe não viu em mim um deficiente visual, mas um atleta’

Conheça a história do Antônio Tenório, um dos maiores medalhistas paralímpicos do Brasil

“Não sou um cego
lutando; sou um atleta competindo”

 Eu já praticava judô havia uma década quando
um descolamento de retina me deixou completamente cego aos 19 anos. Com um
filho recém-nascido nos braços, não tive tempo de remoer a situação. Precisei
me relocalizar na vida. E comecei pela minha paixão: o tatame. Mal os médicos
me liberaram do repouso, retomei os treinos. Foi a coisa mais acertada que fiz,
porque o professor da equipe não viu em mim um deficiente visual, mas um atleta
que precisava perder 10 kg. Sua postura me trouxe confiança, me senti
completamente capaz de lutar. Três meses mais tarde, ele decidiu que era hora
de eu voltar a competir. Receoso, perguntei: “E aí, como vai ser?!” Resposta:
“Não estou colocando um cego para lutar e sim um atleta para competir; dê o seu
melhor”. É o que tenho feito nos últimos 26 anos.

Só posso lutar porque economizei para isso

Perdi a visão em
duas etapas. A primeira, aos 13 anos: numa brincadeira inocente de guerrinha de
mamonas, fui atingido no olho esquerdo. Uma semana depois, a retina descolou e
passei a não enxergar nada daquele olho. Aí, aos 19 anos, foi o outro olho – eu
era chefe de segurança de um shopping e todo dia batia memorandos no subsolo do
empreendimento. O monóxido de carbono concentrado no local descolou minha
retina direita e fiquei completamente cego.

Foi doído. Muito!
Mas a responsabilidade de um filho para criar me obrigou a deixar a revolta de
lado e encarar a nova realidade. E ela era dura: a Justiça não considerou meu
caso um acidente de trabalho. Não fui aposentado. Recebo, desde então, um
auxílio-doença, que obviamente não me sustenta. O esporte também não tem pagado
minhas contas, embora as bolsas destinadas a atletas ajudem. Se posso me dedicar
ao judô é porque eu guardei dinheiro durante a vida, gastando menos do que
recebia para fazer uma boa reserva.

Eu tinha 9 anos
quando enxerguei no quimono uma profissão. É bem verdade que hesitei em entrar
na primeira aula. Um policial imponente, de voz grossa e firme era o professor.
Mas foi ele me chamar para o tatame para imediatamente me identificar com
aquilo. Como todo moleque arteiro, brigava muito na rua e o judô acabou virando
minha válvula de escape. Passei a treinar no Clube da Volkswagen, onde iniciei
minha carreira nas competições. Despontei ganhando campeonatos regionais. Ia
até aos sábados e domingos! Sabia que, com dedicação, haveria um retorno. Mas
jamais podia imaginar que seria na forma de seis medalhas paralímpicas. A mais
recente acabou de chegar: levei a prata nos jogos do Rio na modalidade até 100
kg.

Antônio Tenório em treino da Seleção Brasileira – Daniel Zappe

Cego, venci atletas com a visão perfeita

Foi o meu histórico
anterior à perda de visão que inspirou um professor a me levar para o esporte
paralímpico, em 1993. No mesmo ano fui campeão brasileiro – conquista sem
precedentes para mim. Desde então, o pódio paralímpico foi meu seis vezes,
quatro delas banhadas a ouro. Vou até 2018 representando o Brasil no mundial da
modalidade e então me retiro do time. Vou me aposentar e me dedicar a ensinar
novos atletas. Contar para eles como a perda da visão me fez perceber o quanto
lutar é fácil pra mim: exige apenas vestir um quimono e fazer aquilo que amo.

A maior barreira
que enfrentei na cegueira foi a pessoal. Aceitar o auxílio de uma bengala era
inadmissível na minha cabeça. Isso mudou quando venci a luta contra um atleta
que enxergava completamente, em 1991, em um campeonato chamado Budokan. Comecei
a aparecer para a região do ABC (Grande São Paulo) e despontei de vez no
esporte. A partir dali eu me senti capaz, me vi campeão. Se até então não
conseguia aceitar ajuda para atravessar a rua, hoje saio de casa sem óculos
escuros e peço numa boa para o garçom cortar meu bife. Eu me venci.

Perder um sentido
aguça os outros. Comecei a prestar muita atenção em tudo que acontece ao meu
redor. Preciso dos quatro sentidos em perfeita sintonia para vencer qualquer
competidor. Diferentemente de outras modalidades, no tatame não há divisão de
classes. Sou B1 (não enxergo nada) e luto contra B2 e B3 (enxergam bastante, de
30 a 60 metros). Mas isso não me deixa necessariamente em desvantagem. Se
estiver bem treinado, luto de igual para igual. Pois, como me disse um cara há
muito tempo, não sou um cego lutando; sou um atleta competindo.

Antônio Tenório da Silva, 45 anos,
Judô paralímpico até 100 kg

Antônio Tenório é um dos maiores medalhistas do Brasil – Flickr

Ficha Técnica – Judô

Antônio Tenório, 45 anos – São
Bernardo do Campo, SP

Deficiência

Cego

Conquistas anteriores

Seis
medalhas em Jogos Paralímpicos (ouro em Atlanta 1996, Sydney 2000, Atenas 2004
e Pequim 2008, bronze em Londres 2012 e prata em Rio 2016); ouro por equipes no
Mundial da Turquia 2014; três medalhas em Jogos Parapan-Americanos (ouro no Rio
2007, prata em Guadalajara 2011 e bronze em Toronto 2015).

Conquistas Rio 2016

Prata
no Judô até 100 kg