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O Brasileiro que Muricy viu pela TV

Afastado desde abril, o técnico quatro vezes campeão (três delas seguidas) aproveita para descansar, curtir a família e enxergar o campeonato sob outra ótica: do sofá de casa. Nesta entrevista exclusiva a PLACAR, ele conta o que viu de bom e de ruim

Por Rodolfo Rodrigues - Atualizado em 20 fev 2017, 10h59 - Publicado em 6 dez 2015, 16h12

Técnico com mais títulos brasileiros na era dos pontos corridos – foi quatro vezes campeão, três delas seguidas, pelo São Paulo, em 2006, 2007 e 2008, e uma pelo Fluminense, em 2010 –, neste ano Muricy Ramalho não comandou uma equipe na competição pela primeira vez desde 2003. Após sua saída do São Paulo, no início de abril, ainda durante as disputas da Libertadores e do Campeonato Paulista, passou por um período de recuperação para cuidar da saúde. Com 60 anos completados no dia 30 de novembro, Muricy se considera apto a voltar. Espera por um bom convite para assumir algum clube no início de 2016 e já pensa em exercer a profissão nos próximos anos como coordenador de futebol.

No condomínio onde mora, no bairro Cidade Jardim, zona oeste de São Paulo, Muricy recebeu PLACAR de bom humor. Com boa fisionomia, mais magro e sorridente, contou, principalmente, como viu o Brasileirão: analisou os principais times, jogadores, arbitragem, esquemas táticos. Falou, ainda, de sua rotina e de como e onde acompanha futebol.

Opinou sobre o futebol brasileiro, o europeu, disse por que é “impossível” parar o Barcelona de Messi. E não fugiu de nenhuma pergunta, nem sobre o São Paulo (sua saída e a de Juan Carlos Osorio, a aposentadoria de Rogério Ceni e a crise vivida pelo clube) nem sobre a Seleção Brasileira (desde sua recusa aos 7 a 1, passando pela equipe de Dunga e a nova safra de jogadores).

P :Como é sua rotina diária? 

Acordo cedo e vou para a academia aqui mesmo no prédio. Não sou de sair muito. Como fiquei muitos anos fora de casa, agora não quero mais sair. Estou viciado em ficar em casa. Faço coisas que nunca fiz. Vou muito para Ibiúna, onde tenho uma casa de campo. Minha mulher, Roseli, também gosta muito de lá. Esses dias fui para a praia, na Riviera. Depois da operação viajei para a Itália, fiquei 16 dias passeando. Não fui ver futebol por lá, até porque era época de férias no país. Depois fui para Barcelona, aí, sim, buscar informações sobre futebol, estudar o que é o clube. Fui a convite do Neymar.

Já havia visitado algum outro clube, desses grandes, lá fora?

Não, até porque a gente não tem chance. Você pode até ir, mas chegando lá os caras te barram: “Hoje você não pode entrar”. Pô, isso daí eu não quero. Sou um técnico de futebol, aqui recebo bastante gente também. Por isso que foi uma coisa meio oficial. A família do Neymar intermediou e eu aceitei ir porque tive liberdade para entrar no clube.

Como foi essa sua visita ao Barcelona?

Foi melhor do que eu esperava. O Neymar e sua família me abriram as portas por lá e tive acesso a tudo. Conversei com pessoas da parte profissional, administrativa, da base. Fiz uma reunião de 2h30. Fui muito bem tratado e consegui fazer o que queria, que era conhecer a fundo o clube. Muito gratificante ver de perto que todas as categorias, desde o sub-8 até o profissional, treinam e usam o mesmo esquema tático. Há 15 anos que tinha essa vontade de visitar um time de fora e eu acho que valeu muito a pena.

E agora, quais os próximos passos?

Estou animado após essa viagem. Vou fazer alguns últimos exames, mas quero voltar a trabalhar. Mas vou escolher algo bom, sem pressa. Minha ideia inicial era retornar em janeiro, mas talvez acerte logo em dezembro mesmo para aproveitar a pré-temporada.

Você se imagina trabalhando com categorias de base?

É isso, mas um pouco mais para a frente. Depois que parei, recebi cinco ou seis convites de times muito grandes do Brasil. Isso mostra que o pessoal ainda tem interesse na minha volta. Claro que vou escolher uma coisa boa para voltar. No futuro, uma coisa que eu quero é ser coordenador. Mas não só da base, e sim de um clube de futebol. Quero ser quem faça a ligação entre a presidência e o time. Um coordenador, que trabalha com a comissão técnica do profissional e do amador. Acho que tem um buraco aí nesse meio, e eu me encaixo bem.

E quando pensa em trocar de função?

Não vou muito longe, não. Vamos ver como eu volto agora e depois decido. Não quero ficar como o Telê ficou: doente no futebol. Futebol é bom, mas faz mal pra saúde. Não quero ficar assim. 

Nessa sua rotina, quanto tempo você dedica ao futebol?

Acompanho direto pela televisão. Não só assisto jogos, vejo programas que trazem informações. E não só aqui do Brasil. Quero saber sobre os times de fora e como está o futebol.

Que canais costuma assistir?

Pra mim não interessa o canal. Onde tem jogo eu assisto.

Gosta de quais programas esportivos?

Dos debates. Assisto mais a ESPN, que tem bons caras. 

Quem são esses bons jornalistas?

Eu gosto do PVC (Paulo Vinicius Voelho) e do Sormani (ambos são da Fox). Tem também o Bodão (Marco Antônio Rodrigues, do SporTV). São caras que sabem de futebol e falam com base. Isso é legal.

Como tem visto o Brasileirão?

Sempre é assim: quando tem Libertadores os times brasileiros começam a pôr time misto, não se interessam muito. Quando essas equipes saíram da Libertadores, o campeonato melhorou porque todo mundo focou. E, também, quando fechou a janela. Esse é um grande problema que a gente tem. O nosso calendário é ruim por causa disso. O São Paulo, por exemplo, começou com um time e mudou tudo. Daí jogam todo o problema para cima do técnico. Trocam os jogadores e culpam o técnico. Aí é fácil, né?

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O São Paulo poderia ter ido mais longe?

O São Paulo ficou com um time bom, mas não com muitas opções. Alguns setores têm bons jogadores, mas existe dificuldade quando se tem que colocar um time misto, porque não tem tantas peças para repor. Precisaram subir muitos garotos. O número de jogadores que saiu foi muito grande, né? Isso prejudicou.

O Corinthians é o melhor time?

Sim. É o time mais seguro e o mais regular. Tudo isso faz parte do Campeonato Brasileiro, e é preciso ser competente e regular para ganhá-lo. O Corinthians tem sido assim. Em um campeonato como esse, longo, a logística é difícil, tem que estudar bem, tem que ter um cara bom nisso.

O estilo de jogo do Corinthians te agrada?

Cada técnico tem uma maneira de trabalhar: joga um pouquinho mais fechado ou pouquinho mais aberto. Ecada um trabalha com o que tem na mão. Aqui no Brasil, primeiro chegam os jogadores, depois o técnico. Lá fora, não. O técnico de lá manda contratar esse, aquele e aquele outro. Ele faz o time do jeito que ele pensa. Aqui, não. Você tem um time e, às vezes, desmancham, aí você tem que inventar um time tudo de novo.

Por que o Atlético-MG caiu na reta final?

Tirando o Corinthians, que foi muito regular, todos os clubes oscilaram. E isso é normal mesmo no Brasileirão. E isso tem a ver com vários fatores, como lesões, cartões amarelos e expulsões. O time também teve uma sequência dura e essa queda no final do campeonato foi normal. Difícil mesmo um time manter uma regularidade sempre. Não é a toa que o Corinthians tá lá em cima. Mas dos times que vi, depois do Santos, o Atlético-MG foi o melhor.

Você esperava mais do Palmeiras?

Não, não esperava, não. Eu acho que está normal. Um time que foi montado no início do ano e contratou vinte e tantos jogadores não pode dar certo logo de cara. Ele oscila bastante. Vieram jogadores de tudo quanto é lado. No Palmeiras, a cada semana estreava um cara, às vezes dois, três. E está oscilando até hoje. Mas isso é normal, porque está em formação, ainda. Esse time vai ficar bom no ano que vem, mas mesmo assim está fazendo boa campanha. O que ele tem de diferente dos outros são muitas opções.

O Santos surpreendeu?

Foi muito bom. Primeiro, o Marcelo Fernandes fez um bom trabalho no Campeonato Paulista, foi campeão e tudo. Depois veio o Brasileiro, o time não foi bem logo no começo, como o próprio Vasco, que foi campeão do estadual e depois foi muito mal no Brasileiro. É uma coisa natural. Depois veio o Dorival Júnior e o time melhorou muito, encaixou e achou a formação ideal. Hoje, é um dos melhores times para se ver jogar, assim como o Atlético-MG. São times que dão espetáculo. Às vezes perdem, mas são times bons de se ver jogar.

A queda do Fluminense se deu por conta da chegada do Ronaldinho Gaúcho?

Às vezes acontecem coisas e a gente tem que encontrar um culpado, porque no Brasil é assim. Mas eu não vejo dessa forma, porque existe um plantel todo. É um time, não uma pessoa só. E acontece que o time caiu de produção, mesmo. Eu acho que é coincidência. Além do Ronaldinho, que não estava bem fisicamente,o Fred também se machucou muito. E o Fred é um cara muito importante. Além de fazer gols, é um líder, se impõe e os garotos acreditam nele.

Por que o bicampeão Cruzeiro foi tão mal dessa vez?

Aconteceu comigo no São Paulo também. Time que é campeão paga um preço porque os jogadores se valorizam demais, e às vezes as pessoas – a imprensa, a torcida – acusam os dirigentes de vender os jogadores. Às vezes não é o dirigente, é o jogador que quer ir embora. Hoje quem manda no jogador é o jogador, o clube não manda. Se o dirigente diz que vai vender e o cara não quer sair, ele não vai. Se ele quer ir embora, o empresário do cara fica atormentando e o dirigente é obrigado a vender.

Às vezes, também, o jogador deu tudo o que tinha que dar. É o preço que o Cruzeiro pagou: bicampeão, começou a vender todo mundo, teve jogador que parou de render e aí quem acabou pagando o pato foi o técnico (Marcelo Oliveira), que foi mandado embora. Isso é natural, aconteceu comigo no São Paulo, só que eu sobrevivi. Todo ano trocavam o meu time. Ganhávamos os títulos, os jogadores se valorizavam eos caras queriam ir embora. E aí vendiam mesmo. Eu fui aguentando até onde dava. Mas depois do terceiro ano que fui campeão trocaram tudo de novo e aí não deu mais certo. E ainda saí como culpado. As pessoas não dividem derrotas, só as vitórias.

O Inter era um dos favoritos no início do campeonato e só foi melhor no final do campeonato. Por quê?

Uma desclassificação na Libertadores sempre machuca muito. Ainda mais numa semifinal. Então o time demora mesmo para voltar a se acertar. E o Argel conseguiu isso. Deu um pequeno azar contra o Goiás (na derrota por 2 x 1), mas colocou o time na briga pela vaga da Libertadores.

O Grêmio, com um técnico novo, foi longe demais?

O Roger, apesar de novo, está fazendo um ótimo trabalho. Acho que a idade não conta muito nesse caso e sim a competência. Ele está se mostrando um ótimo técnico e colocar o Grêmio lá em cima e fruto desse trabalho.

Por que o Vasco demorou para reagir?

Ninguém imaginava que o Vasco poderia se recuperar no campeonato. O time já estava praticamente fora e o Jorginho acabou fazendo um grande trabalho. Mas o Campeonato Brasileiro não perdoa erros. O time perdeu pontos nos minutos finais. O complicado é que ele pegou o Vasco muito lá atrás na classificação etime ainda continua mal na tabela.

Fora os grandes, quais os melhores times?

Sport e Ponte. Esses clubes médios e pequenos têm um orçamento justo. Não podem fazer loucuras em contratações. E quando conseguem montar um bom time, sofrem com saídas de jogadores vendidos, machucados, suspensos. Mas esses dois times conseguiram uma boa base, equipes titulares fortes e mesmo com as saídas dos técnicos e todas as mudanças, voltaram a se encontrar no campeonato. Merecem estar bem colocados.

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Quais jogadores chamaram sua atenção?

O melhor e o mais completo é o Lucas Lima. É um meia armador que chega, que faz gol e que desarma com muita intensidade. Esse é o meia atual, um meia agressivo. Hoje é diferente do meu tempo como jogador. Os meias participam demais das partidas.

O que achou dos estrangeiros nesse Brasileirão?

Sinceramente, ainda acho que os brasileiros são os melhores. O centroavante do Atlético-MG, o Pratto, é o melhor estrangeiro. É o que mais joga, mais faz gols, que decide mesmo. Os demais deixaram a desejar.

O Renato Augusto e o Jadson desequilibram assim no Corinthians?

Também. São os melhores jogadores do time, os caras que pensam, organizam e, além disso, estão fazendo gols. Esses são os jogadores que poderiam ser facilmente apontados como melhores do campeonato, ao lado do Lucas Lima.

No ano passado, o Ganso ganhou a Bola de Prata de PLACAR . Neste ano, porém, caiu de rendimento. Concorda?

Claro que no ano passado ele foi melhor, porque a gente precisava de uma recuperação e o time foi muito bem, principalmente no segundo turno. O Kaká também dividiu a armação da equipe com ele e o orientou bastante. Muitos cresceram com o Kaká, não só o Ganso. Mas neste ano o Ganso continua sendo um dos melhores do São Paulo. Ele é jogador para Seleção, não só para clube. Jogador como ele não tem mais no Brasil. É muito difícil achar um número 10 clássico, que joga de cabeça em pé, passa bem a bola. Temum defeito, que é não fazer muitos gols, mas é diferenciado.

O Pato fez um bom campeonato?

Sim. Foi um dos melhores dele, se não o melhor. Subiu muito de produção, fez muitos gols, e superou esse problema do “vai não vai”, que atrapalha um pouco. Ele é um cara de muita personalidade, um profissional muito bom.

Ele merece voltar para a Seleção?

Eu falei um tempo atrás que se o Dunga precisasse de um cara para jogar mais de lado, como ele, estaria convocando um grande jogador. Apesar de que o Douglas Costa, que joga na posição dele, está arrebentando no Bayern, então é difícil. Mas ele está em um dos melhores momentos da carreira.

O Guerrero fez uma boa escolha ao trocar o Corinthians pelo Flamengo?

É difícil opinar, porque o futebol é muito curto. A carreira do jogador acaba rápido, às vezes uma proposta, como a que ele recebeu, fica irrecusável. As pessoas só veem quando o técnico vai embora, quando o jogador vai embora. Mas e quando ele é mandado embora? É toda hora, é muito maior. Ele tinha ganhado coisas boas no Corinthians. Às vezes, quer buscar outros desafios para não se acomodar.

O Vágner Love foi muito criticado no Corinthians, principalmente no início. Foi justo?

O Love chegou para substituir um grande jogador, que era o Guerrero. Mas eu o conheço bem, foi meu jogador no Palmeiras. O Love é um dos melhores profissionais com quem eu já trabalhei. Os caras têm outra ideia dele. Ele é superprofissional. Muita gente acha que é baladeiro e tal, mas ele sempre chegava mais cedo, treinava bastante. O cara se dedica demais para o time. O grande problema é que ele veio de um futebol de pouca técnica. Todo jogador que vai para a Arábia, para a China, não vem bem, principalmente fisicamente. Um dos lugares onde mais se treina no mundo é o Brasil, nem na Europa se treina tanto como aqui. O condicionamento físico dos nossos jogadores não é brincadeira, eles trabalham demais. Ele demorou um pouco para achar esse ritmo. Nos últimos jogos eu gostei, ele não fez tantos gols como está acostumado, mas está se movimentando muito, está brigando muito. Pelo estilo de jogo do Corinthians e do próprio Tite, onde os caras têm que ir lá na frente marcar e brigar, está colaborando demais.

Gabriel Jesus, Malcom, Luan, Valdívia… Qual a revelação do campeonato?

Tem também o Jorge, do Flamengo, que atua numa posição carente (a lateral esquerda) e foi uma descoberta muito boa. Acho que tem uma seleção olímpica muito boa vindo aí. Claro que esses dois jogos amistosos (Haiti e República Dominicana) foram muito sem graça. A gente não teve um obstáculo, mas, se você olhar individualmente, temos uma safra boa. A chance de ganhar medalha de ouro nas Olimpíadas é grande.

Vendo agora pela TV, o que acha das arbitragens no Brasileirão?

Melhorou muito esse negócio de jogador ficar reclamando com a arbitragem. Estava um saco. Eu não sou de reclamar, nunca fui expulso. Pô, o jogo para toda hora. O jogador vai lá discutir, aí vem o técnico discutir, o árbitro precisa ir lá no banco parar… Agora que eu estou de fora, percebo que para quem estávendo o jogo isso é muito chato. É claro que alguns árbitros abusam, mas tem que ter bom senso. Não muita conversa, mas também não muito radical. O jogador reclamava de tudo, se jogava e ainda vinha reclamando, abrindo os braços. Isso não dá mais pra admitir. Essa punição para quem reclama muitofoi legal, porque o tempo de bola em jogo aumentou um pouco. Já não se para tanto por qualquer jogadinha. Estão deixando o jogo correr.

Mas ainda erram muito, não?

Apesar dos erros graves, eu perdoo os árbitros. Pela TV, que tem duzentas câmeras, fica fácil criticar. Até eu sou comentarista de arbitragem, porque tem muita câmera. Todo mundo prega que o árbitro tem que ser profissional. Mas como? O cara treina sozinho, vê teipe sozinho, tem pouca orientação. Outra coisa que eu acho é que não tem sacanagem, não tem coisa errada. O cara erra porque ele erra mesmo. Tem váriosárbitros que são ruins, não têm tanta capacidade. Do mesmo jeito que tem bandeirinha fraco, que arrebenta com o jogo. Mas não tem sacanagem.

O Corinthians é favorecido pela arbitragem?

Não, não existe isso. Eu posso garantir, porque trabalhei muitos anos na beira do campo e você olha os caras que apitam. A gente percebe que são honestos. Isso eu vejo, pois conheço as pessoas e estou no futebol há muitos anos. Um problema que precisa ser corrigido é a maneira como fazem a escala dos árbitros. Tem uns que erram muito e estão sempre lá. Esse negócio de sorteio é muito esquisito. Eu não gosto, não. Árbitro tem que ser sério, porque aí o jogador respeita. Esse negócio de sorteio não dá, tem que colocar os melhores nos jogos mais importantes.

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Tem algum árbitro que você destaca?

Tem uns caras que são bons. Tem um do Pará, eu acho que é o melhor do Campeonato Brasileiro. Não sei o nome dele, mas acho que é um cara muito sério, que não pipoca, que vai e apita do jeito que tem que ser (N.d.R: Dewson Fernando Freitas da Silva). Tem outro que apitou pela Copa Sul-Americana, que era de Brasília e agora está em outro lugar.

O Sandro Meira Ricci?

Isso, Sandro. Ele é um pouco chato, mas é correto. Tem o Luiz Flávio, que é bom também. Tem uns caras sérios. Não dá para pensar nunca que um cara desses está envolvido com coisa errada. Esses dois erram muito pouco e, se erram, é coisa de bola. Hoje em dia o jogador faz o cara errar porque ele está muito rápido. Eles fazem umas linhas de defesa curtas, uns movimentos rápidos, e às vezes não está impedido. Éloucura. Hoje é difícil apitar. O jogador está muito veloz, e às vezes o bandeirinha não consegue acompanhar. Principalmente se o cara faz um lançamento do meio de campo, o cara não chega, é difícil demais. Eu acho que tem que estudar um pouquinho mais e melhorar a escala.

Entre os técnicos novos, qual te agrada?

Acho que o Roger Machado mesmo. Pegou o time lá no começo, levou para o topo e não saiu mais. Outro que destaco é o Eduardo Baptista, que teve um início muito bom com o Sport e vem bem também pelo Flu. Não é fácil pegar um time grande no meio do caminho e ele conseguiu dar jeito em pouco tempo.

Viu inovações táticas neste Brasileiro?

Mundialmente não teve nada espetacular. Todo mundo joga no 4-2-3-1, essas coisas. Está tudo muito parecido. O que está mudando um pouco é que as linhas estão mais justas e de muita velocidade, muita intensidade. Nós estamos indo um pouco na contramão em relação ao que os europeus vêm apresentando. Antigamente, nós jogávamos e eles corriam. Hoje, a gente está correndo e eles estão jogando. Mudou completamente a maneira de falar de futebol. Aqui só se fala em tecnologia, corrida, intensidade, mas não se fala de jogar futebol. Estamos meio que robotizando nossos jogadores. Não deixamos os jogadores livres para criar, pensar, vibrar. Hoje, valorizam muito posse de bola e o tanto que o time correu. Até na imprensaisso é destacado. Pelo amor de Deus! Estamos até vendo o futebol de uma forma diferente. Até o jogador tem se apegado muito a isso. “Está escrito lá que eu corri 12 quilômetros.” Acaba o jogo de futebol e eu recebo aqui no meu celular as informações de todos os jogadores: o quanto ele correu, a intensidade que ele teve, quanto ele passou.

Essa cobrança de intensidade parte dos técnicos?

Não, o futebol brasileiro está exigindo isso. Os caras querem falar que a Alemanha ganhou porque isso ou aquilo. Mas a Alemanha ganhou jogando futebol, não correndo. Eles entraram com a bola na nossa área e fizeram gol tocando bola. Aqui, não. É uma grande correria, posse de bola. A gente está tirando a nossa criatividade, e isso é um defeito que vem lá de baixo, dos pequenos. Este ano mesmo, na base do São Paulo, eu ia tentar mudar isso. Comecei a ir, só que fiquei doente e tive que sair. Estamos acabando com o DNA dos nossos jogadores. O menino vem com o sonho de jogar futebol, desde pequenininho, quando o pai lhe deu uma bola. Ele quer driblar o sofá, um obstáculo qualquer. Hoje, não: “Olha o posicionamento! Para o jogo!” Pô, aí o cara não aproveita mais e quando faz 18 anos está cansado.

Então os treinadores não são os culpados?

No São Paulo aconteceu isso quando eu estava na base e trabalhava com o sub-12, acho que em 1991, por aí. A gente não tinha ainda o centro de treinamento e trabalhava ali no Rebouças, que é um campo de terra (N.d.R: na Vila Sônia, bairro próximo ao Morumbi). Naquela época, tínhamos liberdade para jogar e não havia a obrigação de ganhar um troféu. Eu me lembro de colocar o próprio Denílson para jogar, que na época tinha 16 anos, contra o Grêmio, lá no Sul. Eu falei: “Você vai marcar o Arce, mas se pegar a bola, vai pra cima”. Ele matou o Arce, deu um monte de drible. Pouco depois, um dirigente do São Paulo me chamou e falou: “Pô, esse moleque dribla demais, tem que falar pra ele parar de driblar”. Eu falei: “Ô, fulano, vocês vão vender esse moleque pelo drible dele, porque ninguém dribla mais que ele”. E o Denílson foi vendido por US$ 30 milhões, o maior valor na época. Por quê? Porque ele driblava. Como o cara me chama e fala isso? Há pouco tempo, também, falaram que o Rogério tinha que parar de bater pênalti. Tá debrincadeira, cara! Eu que inventei isso! Como eu vou falar para o cara não bater mais? Não é coisa do treinador, é coisa do sistema, da cultura implantada aqui no Brasil.

Você disse que gosta de ver jogos do Santos e do Atlético por serem ofensivos. Essas equipes fogem desse modelo de jogo. 

São times muito ofensivos. É isso o que nós temos que ter aqui e alguns técnicos já estão fazendo. O Grêmio também joga assim, ofensivo, o São Paulo. A gente tem que voltar a deixar os nossos jogadores criarem um pouco. A gente está interferindo demais nos jogadores, porque na base é assim.

Quais outros campeonatos você acompanha?

Dos lugares que eu gosto. O Campeonato Francês, por exemplo, não dá. Todo mundo joga igual, ninguém sai do lugar. O melhor campeonato do mundo, hoje, é o Inglês. O Italiano era muito bom, mas piorou demais. E, claro, quando o Barcelona joga eu paro para ver. Adoro o Barcelona.

O Barcelona é o time que mais te encanta?

Sim, o que eu mais gosto. Mas tem o Bayern de Munique também. São os dois melhores times do mundo.

Você curte jogos da NBA também…

Sim, gosto de basquete. Acho o futebol um pouco parecido, até. Claro que com outras regras e com a diferença da quadra, mas acho muito parecido. É muito focado, principalmente o da NBA, com a bola e sem a bola. Tudo o que acontece é muito definido. Acho muito legal, vejo bastante, mesmo.

Tem algo do basquete que gostaria de introduzir no futebol?

O tempo, mas no futebol não dá para ficar parando o jogo. Às vezes, o time está meio perdido e ali da beira do campo não dá pra você arrumar a não ser que tenha um cara bom dentro do campo, um representante seu lá dentro, como era o Kaká no ano passado. Ele já sabia o que a gente pensava. Falava alguma coisa e ele já rebatia: “Pode deixar”. Isso é importante, porque às vezes no jogo você planeja uma coisa, mas chega na hora o adversário muda completamente e vira tudo. Daí não dá tempo para arrumar. E também não dá para ficar esperando chegar o intervalo. É preciso tomar alguma atitude rápido.

Que tipo de notícias você busca na internet?

Procuro principalmente notícias sobre gestão. É onde estamos errando demais. São tantos problemas no futebol… Nosso ex-presidente da CBF está preso, o outro está com problema. Isso, para mim, é lamentável, porque tira a credibilidade. O povo fica descrente da Seleção. As pessoas não se importam mais. A gestão do futebol está muito ruim, muito parecida com o país. Temos que melhorar isso. 

Chegou a ver algum jogo no estádio nesses seis meses?

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Não, nunca mais fui. Fui na abertura da Copa do Mundo, na estreia do Brasil, e foi uma loucura. Nem consegui ver o jogo. Até gostaria de ir, mas não tenho chance. Eu vou ao mercado e já não consigo comprar as coisas. As pessoas têm muito carinho por mim, não só o são-paulino, mas torcedores de vários times. Então é difícil. Me param toda hora. Claro que eu gostaria de ir ao estádio. Faz muito tempo que eu não vou pra numerada, arquibancada. Nem lembro como é.

Quando foi a última vez?

Acho que foi no Morumbi, no tempo em que o Mirandinha jogava. Eu mesmo comprei o ingresso, porque sou sócio do São Paulo. Foi legal, uma sensação boa. Há muito tempo não faço isso. Mas vou conseguir agora em Barcelona. Quero ver um jogo lá.

Em casa, costuma ver os jogos sozinho?

Sozinho! As pessoas não têm a mesma paciência que eu. Gosto de ficar quieto, analisando. As pessoas querem conversar, falar da família, falar do cachorro, aí não dá. Eu não gosto de assistir jogo com ninguém.

Tem trocado ideias com gente do futebol?

O Milton Cruz é um deles. Semanalmente temos um encontro, tipo uma confraria, mas não só de jogadores.Tem publicitário, empresário, pessoal da imprensa… Uma vez por mês a gente se encontra para jantar. Vai o Edmílson, o Dodô, o Gilmar Rinaldi também. A gente dá muitas ideias pra ele, que é nosso porta-voz. Mas eu não sou muito de sair para os lugares. Vou de vez em quando à ESPN (Muricy participa do programa Resenha, aos domingos, ao vivo, às 22h). Eles até queriam fazer um contrato, mas não dá. Não quero compromisso agora.

Você recusou convites de times grandes. O Inter é um deles?

É. Mas acontece que eu sou o tipo de treinador que não faria o que muitos fazem. Quando você é convidado e fala não para um time, não tem que ficar comentando isso no outro dia. Muitos fazem isso para se valorizar. Até técnico que está empregado faz, porque é fácil soltar na imprensa. Dos outros times, até falei para os caras: “Pode ficar tranquilo que não vai vazar”. E nenhum vazou. Tem treinador trabalhando no lugar, e isso é chato pra caramba. O Inter vazou porque o Vitório Piffero é meu amigo particular. Ele me queria de qualquer jeito. Lá em 2002, 2003, quando começaram a arrumar o Inter, ele veio pessoalmente me buscar em São Paulo. Mas foi o único que vazou. Os demais, não. E eram de times muito grandes. Mas prefiro não falar. Não preciso me promover.

Você prometeu que não voltaria a ser técnico até o final do ano…

Segue de pé. Pô, o Internacional queria vir até São Paulo me buscar e teve time do Rio também. Eu falei para eles: “Fiquem aí, não venham, não, eu não vou trabalhar”. As pessoas não acreditam e falam: “É um time grande, o salário é muito bom, estamos pagando em dia”, aquelas coisas que até parece que não são obrigação. Mas já resolvi que este ano não vou trabalhar. Fiquei vinte e poucos anos sem parar. O técnico de futebol não tem férias, quem sai de férias é o jogador. O técnico tem que fazer novo time, tem que contratar. Pô, eu fui parar na UTI. Aconteceu isso e eu falei: “Chega, vou dar um tempo”.

Valeu a pena essa pausa?

O que estou fazendo agora eu nunca fiz. Não pensei que seria tão bom. Viver com a família, como pai mesmo, com os amigos, cuidar da minha saúde, é tudo muito bom. Ia muito no embalo, estava doente e ia trabalhar mesmo assim. Do futebol você não sai. Você está dentro do futebol e não consegue sair, então eu não tinha vontade de parar.

O São Paulo te convidou para assumir o lugar do Osorio?

Não. Já me perguntaram isso, mas não aconteceu nada.

E como você viu o episódio da saída dele?

Quando eu chamei o Athaíde e o Aidar para conversar aqui em casa, em abril, falei para eles que não estava aguentando mais. Eles me perguntaram se dava para ir até o final do ano, mas não dava. Eles me pediram uma ideia de treinador e eu falei do Abelão (Abel Braga), brasileiro, bom cara e com força para dirigir o São Paulo. Não podia ser um técnico mais ou menos. Daí eles me perguntaram sobre treinadores de fora e eu disse: “Olha, estrangeiro tem um problema, porque ele vai chegar no meio do ano e vai demorar para se adaptar. Acho que vocês deveriam contratar no final do ano, já que aí dá para conversar melhor, aprender o idioma, montar o time, fazer a pré-temporada”. Mas mesmo assim eles contrataram. O Osorio é um bom técnico, só que não deu certo porque ele rompeu num momento que não poderia romper. Acho que ele não deveria sair nesse momento, mas tinha esse desejo, uma coisa que não é legal. Pode ser a maior seleção do mundo. Claro, venderam jogadores. A gente não sabe o que acontece dentro do time, mas ele estava aborrecido e ainda assim fazia um bom trabalho. Seria bom se continuasse, pelo menos até o fim do ano.

Assim como o Osorio, você tem o sonho de treinar uma seleção numa Copa do Mundo?

Não tenho. Mesmo falando do México, eu tenho um amigo lá, empresário, que me ofereceu alguns times. Isso é coisa de empresário, não é convite direto. Também me ofereceram a seleção, mas não sei se me aceitariam. Eu falei que não, que não iria trabalhar lá. Mas não tenho essa coisa louca, não. Eu gosto mais do dia a dia. Acho que em seleção se trabalha muito pouco. Você tem que estar viajando o tempo todo, vendo jogadores, essas coisas não são minha praia. Eu gosto de estar no dia a dia, vivendo com os jogadores, com os funcionários, treinamentos. Não tenho esse fascínio para disputar uma Copa.

Para você, existe uma predisposição negativa dos jogadores brasileiros contra técnicos estrangeiros?

Não, de jeito nenhum. Aceitaram muito bem o Osorio, e olha que ele fez e falou um monte de coisa. Tiveram paciência até demais com as coisas que ele falou do clube. Se fosse um brasileiro no lugar dele, Nossa Senhora, já estaria fora faz tempo! O Brasil é um país que aceita estrangeiro muito fácil.

Você achava interessante o esquema de rodízio no time feito pelo Osorio? 

Isso é uma coisa velha e que todo mundo faz. No Brasil, quando tem dois ou três campeonatos, todos os times fazem. Não tem como manter o jogador atuando em duas, três competições, num país do tamanho do Brasil. Rodízio é uma coisa velha. O fulano fazia, o Telê fazia, todo mundo faz. É uma coisa natural. Só que o Osorio fez e falou, e todo mundo acreditou. O Souza, comigo, jogava de lateral direito, de volante, decentroavante, de ponta esquerda. O Michel Bastos jogava de ponta direita, lateral esquerdo, meia. É que,como a gente ficou muito zangado com o 7 a 1, tudo o que é de brasileiro, hoje, a gente não acredita. E tudoo que é de fora é bom. O próprio Tite abriu mão da Copa do Brasil. Num jogo importante contra o Santos, tirou o Fágner e o Jadson, porque precisava poupar. Isso é rodízio e uma necessidade, senão estoura o jogador. Hoje, eles correm de 12 a 13 quilômetros em um jogo, e a intensidade é muito forte. Outra: o Brasil é enorme, aí vem aeroporto, um monte de coisa. O cara estoura mesmo. Tem exames, o cara chega lá e o fisiologista fala: “Olha, Muricy, esse aqui está perigoso. Se você não tirar, pode perdê-lo por um mês”. E aí, o que você faz? Tem que tirar mesmo.

Você viveu muito tempo no São Paulo, em períodos diferentes, e, no começo, num momento de calmaria no clube, sem brigas políticas, com muitas conquistas. Como vê o São Paulo hoje, após a renúncia do ex-presidente Aidar?

Para nós, que somos do São Paulo, é triste. O clube sempre foi um modelo a ser seguido, uma referência, e hoje está ficando para trás. O São Paulo sempre foi um clube organizado e tudo se discutia lá dentro. Hoje, o negócio está muito escancarado, está feio. Agora tem que remar tudo de novo. Vai ter um novo presidente, uma nova mentalidade. Isso não é bom para nenhum clube. O São Paulo está sem patrocínio forte, e nesse cenário ninguém investe mesmo. Vai ser difícil. Eu sinto muito, porque são pessoas que eu conheço há anos. O pai do Aidar (Henri Aidar) foi meu presidente quando eu jogava (entre 1972 e 1978). Conheço todas essas pessoas, é chato ver tudo isso. 

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Você acha que ainda dá para o Rogério Ceni continuar jogando?

Eu acho que dessa vez não, mesmo que tenha um convite. Ele está sentindo muitas dores e nunca ficou tantas vezes de fora como agora. O Rogério é fominha, não cansa de jogar, de viajar. Se tivesse uma dorzinha que desse para suportar, iria para o jogo. E não faz isso agora porque está sentindo muita dor, eu o conheço bem. O treinamento do goleiro é duro demais e ele está sentindo muito isso. Eu fui um dos caras responsáveis por ele ficar mais dois anos ainda, porque eu insisti (em 2014 e 2015). A verdade é que, lá dentro, as pessoas não queriam. Eu insisti muito e provava para os dirigentes. “Vocês vão contratar quem? Quem está jogando melhor que ele hoje?” E sempre nos finais de cada temporada ele pegava tudo. Era impressionante. Mas os caras não estavam querendo, não. No final de 2014 foi mais difícil ainda de convencer, mas consegui. A torcida ajudou também. Agora acho que ele não quer. Ele se cuida pra caramba, é um cara que treina muito, sempre teve a vida regrada. Vai que de repente ele se animae fala: “Mais um aninho, seis meses”. Não é de se duvidar.

Após a Copa, nosso futebol piorou, evoluiu ou ficou na mesma?

Minha opinião é de que, depois do 7 a 1, a gente tinha que ter parado o futebol brasileiro. É claro que tínhamos compromissos, amistosos, mas a gente colocaria o Alexandre Gallo, que estava lá mesmo, para ser o treinador. Teria que parar, se reunir em algum lugar, ficar uns 15, 20 dias, chamar todos os segmentos do futebol: representantes dos jogadores, técnicos, marketing, imprensa, e ficar num lugar conversando sobre futebol até se achar uma saída. Mas isso não aconteceu. Seguiu o barco. Depois de uma semana, chamaram uma coletiva e colocaram toda a culpa no Felipão, o que é uma baita sacanagem. A CBF não faz nenhum tipo de congresso, porque sabe que, se fizer, vai ouvir coisa que não quer. Se eu fosse convidado, falaria coisas que eles não querem ouvir. Acho que foi isso que aconteceu e mudou praticamente nada, não inovou. Só o que vimos foi a prisão do ex-presidente (da CBF).

Isso reforça sua recusa para dirigir a Seleção Brasileira em 2010?

Também. Parece que Deus põe a mão em mim para me tirar desses lugares. Eu sou assim, eu não me empolgo. Tem que ser muito forte para falar não após conversar com o presidente da CBF e ser convidado para ser o técnico da Seleção na Copa do Mundo em seu país. É um baita glamour ser técnico da Seleção, só que isso não me empolgou. Ficamos conversando três horas e meia e o Ricardo Teixeira não me convenceu nem por um minuto.

Você se arrependeu em algum momento?

Nunca, de jeito nenhum. Não me arrependo de nada. A sequência mostrou que eu estava certo. A minha recusa fortaleceu o Fluminense, o time e a torcida. Uma semana depois, assumimos a primeira colocação do Brasileirão e depois fomos campeões. No ano seguinte, tive um problema no Fluminense, fui para o Santos, onde fui campeão da América, bicampeão paulista, campeão da Recopa. Isso mostra que fiz as coisas  certas. Depois fui para o São Paulo, tirei o time daquele sufoco da zona do rebaixamento. Para mim, isso é importante. Eu sou muito apegado a essas coisas de parceria, de camisa, de gostar do lugar. Meus amigos do México me ligavam e falavam: “Pô, você é maluco?” Não sou maluco, não. O que aconteceu com o Mano Menezes podia ter acontecido comigo. É que ele, no outro dia, acertou correndo. Mas você viu, na hora em que ele estava melhorando o time, tiraram o cara.

O Dunga corre o mesmo risco?

Agora mudou, já não é mais o cara (Ricardo Teixeira). O Dunga vai depender de resultado. No futebol, todo mundo prega que tem que ser trabalho a longo prazo. É a maior mentira do mundo. Não existe isso! Não tem projeto, não tem nada. Tem que ganhar e acabou.

Como você vê a Seleção Brasileira hoje?

Está reformulando de novo, né? Perdeu a Copa e tinha que mudar alguma coisa em termos de jogadores. Temos até 2018 para formar uma nova geração. Pouco a pouco vamos ter que nos acostumar. Mas ele vem acertando muito. A gente está vendo uma boa base para 2018.

E o Dunga está no caminho certo?

Ele tirou muitos jogadores que disputaram a Copa, e toda reformulação tem prejuízos. Está aí o Chile provando isso. Eles têm um grupo que joga junto há muito tempo. O Brasil está tentando fazer um novo time, e isso custa. A Seleção não tem dia a dia, o cara chega dois, três dias antes e joga. Teremos que ter paciência. Tem que fazer reformulação, mas ganhando. Não dá para fazer a reformulação empatando ou perdendo.

Levar veteranos, como Ricardo Oliveira, foi uma boa aposta?

Não é que ele apostou. Eu acho que é o único centroavante no Brasil ou de fora do país mesmo que faz gols. Ele está com 35 anos, tem um condicionamento físico fantástico e não tem ninguém melhor que ele.

Quem é o melhor jogador do mundo hoje?

O Messi. Ele é uma coisa rara, igual ao Maradona. Esses caras que não existem. Só vão aparecer de novo sabe-se lá quando. O cara é monstro, diferente. É igual ao Kobe Bryant no basquete. O Lakers está em dificuldade, daí dão a bola para ele e ele encaixa, não tem erro. O Messi é igual. Quando o jogo está duro, como estava na semifinal da Liga dos Campeões, contra o Bayern de Munique, ele vai e resolve. Pô, ele deixou o Boateng no chão, fez o gol e acabou o jogo. Isso é coisa de gênio. Aqui tínhamos o Neymar. Quando estava apertado o moleque se virava e atropelava os caras. 

Na final do Mundial de 2011, Barcelona 4 x 0 Santos, o Messi acabou com o jogo…

Ali teve uma diferença muito grande. Vimos um time de futebol, que era o nosso, contra uma seleção mundial. Do goleiro ao ponta esquerda, só tinha cara que jogava em seleção. Aquilo não era um time, era uma máquina. 

Não tinha muito o que fazer? 

Só se desse um revólver para cada um e saísse matando [risos]. Foi bom para a experiência dos meninos. O Neymar cresceu, o Ganso, todo mundo.

Você é a favor do uso da tecnologia na arbitragem no futebol?

Eu acho que sim. Por exemplo, essas bolas que batem na trave e não entram, essas coisas não pode ter mais. O cara vai lá e em um segundo resolve. Ou para tirar algumas outras dúvidas também. O lance da expulsão do Egídio que o árbitro voltou atrás (no jogo Chapecoense 5 x 1 Palmeiras). Que papelão! Só faltava o cara estar tomando banho, penteando o cabelo e o juiz chamar ele de volta e falar: “Vem cá, faz tudo de novo”. Agora, no vôlei, também tem lance assim, importante, que é só olhar na câmera. Tem uns velhinhos aí no futebol que só querem aquela coisa antiga. Eles têm que parar. Tem que pôr gente nova. Tomara que o Zico entre mesmo. Tem que melhorar, tem que mudar um pouco a regra, tem que fazer alguma coisa.

E sobre esses escândalos de corrupção da CBF, da Fifa?

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Eu gosto de tudo o que é aberto, e a CBF é uma coisa escondida. Ninguém sabe de nada. A CBF não é das pessoas, é do futebol brasileiro. Mas quem são os culpados? São os clubes. Quem tinha que mandar na CBF não é o presidente, mas os clubes. Eles têm que se organizar. É bom que esses escândalos aconteçam para abrir, para escancarar…

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