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O afago de Luís Pereira em Rivellino em 1974: a falsa imagem da derrota

Por muitos anos, o flagrante de PLACAR em dérbi histórico foi considerado a gota d’água para a saída do craque corintiano. Mas não foi bem assim

Por Gabriel Grossi - Atualizado em 8 ago 2020, 19h05 - Publicado em 7 ago 2020, 18h36

No início dos anos 1970, não havia nenhum jogador mais identificado com o Corinthians do que Roberto Rivellino. Depois de atuar como amador no Clube Atlético Indiano e no futebol de salão do Esporte Clube Banespa, o jovem de 19 anos tinha sido recusado pelo Palmeiras quando conseguiu uma chance no Parque São Jorge, em 1965. Disputou a Copa do Mundo de 1970, no México, improvisado na ponta esquerda. Se é que há alguém que duvide do seu talento, basta dizer que, depois que Pelé se aposentou da seleção, Rivellino herdou a camisa 10 do time canarinho, pelo qual atuou até 1978.

Quatro anos antes, porém… O Reizinho do Parque, ídolo da torcida, dono da Patada Atômica, foi acusado de covarde e de entregar o jogo na decisão do Campeonato Paulista de 1974, justamente contra o arquirrival Palmeiras, em 22 de dezembro. A primeira partida, realizada quatro dias antes, havia terminado empatada em 1 a 1. Naquele domingo, era tudo ou nada, e o jogo terminou 1 a 0 para o Verdão. Boa parte da imprensa criticou Rivellino por sua atuação apagada. PLACAR publicou uma foto, feita por J.B. Scalco (1951-1983) , em que o grande zagueiro Luís Pereira (titular da seleção na Copa da Alemanha, em 1974, e ídolo do Atlético de Madri, clube do qual faz parte da comissão técnica atualmente) passa a mão na cabeça do atacante adversário, como se o estivesse consolando. Por muito tempo, acreditou-se que a imagem tinha sido registrada após o fim do jogo e, como tal, foi considerada a “prova definitiva” da falta de motivação e empenho do camisa 10 alvinegro.

Rivellino virou um dos bodes expiatórios da derrota — e pouco depois a diretoria corintiana selou sua venda ao Fluminense, que iniciava a montagem do time que ficou conhecido como Máquina Tricolor em meados da década de 70. Anos mais tarde, PLACAR mudou a prosa da história, ao publicar o chamado “contato”, a sequência das fotos, exatamente como haviam sido registradas no negativo. E o fato é que o afago de Luís Pereira em Rivellino ocorreu no segundo tempo, sim, mas quando a decisão ainda apontava 0 a 0. O gesto registrado por J.B. Scalco se deu logo depois de uma disputa entre os dois jogadores, na qual Rivellino se queixou de falta. O juiz não apitou e, logo em seguida, Ronaldo marcou o gol do título palmeirense.

Rivellino e Luis Pereira, em dérbi de 1974
A sequência de fotos no chamado “contato”, recurso da fotografia do passado J.B. Scalco/Placar

Em 2017, num programa de TV, Luís Pereira relembrou o evento: “Rivellino estava reclamando da não marcação do árbitro, e eu fiquei provocando, fazendo com as mãos o sinal de que ele tinha se jogado, era tudo simulação”. Os dois craques, que estiveram inúmeras vezes lado a lado com a camisa do Brasil, se tornaram também amigos. “Íamos à casa um do outro, conheci o sítio dele, ficamos próximos”, lembrou o zagueiro na entrevista, pouco antes de confessar: “Naquele lance, eu fiz a falta, sim”.

Em fevereiro de 1975, Rivellino estreou pelo Fluminense e marcou três gols na vitória por 4 a 1 sobre o… Corinthians. Em dezembro do ano seguinte, a Fiel invadiu o Maracanã e ajudou o Timão (que já contava 22 anos na fila por um título) a derrotar a Máquina Tricolor e passar para a final do Brasileirão. O grande camisa 10 foi para o Al Hilal, da Arábia Saudita, em 1979. Pretendia seguir nos gramados até completar 42 anos, mas aposentou-se quando tinha “apenas” 35, em 1981. Apesar do triste episódio da venda para o Flu, Rivellino ainda é um dos maiores ídolos da torcida corintiana.

Publicado em PLACAR de junho de 2020, edição 1465

Capa da Revista Placar da edição de Julho de 2020 Divulgação/Placar

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