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Maradona: ‘Brasileiros mandam na Fifa’

Em 1995, em sua primeira aventura desastrada como técnico, gênio argentino deu de ombros para reportagem da PLACAR em Buenos Aires

Por Amauri Segalla Atualizado em 26 nov 2020, 11h43 - Publicado em 25 nov 2020, 15h47

Em 1995, como repórter da revista PLACAR, viajei à Argentina para entrevistar o recém-contratado técnico do Racing, Diego Maradona. Seus assessores tinham assegurado que ele falaria, mas Maradona é Maradona. Ele, claro, faltou à conversa e não se deu ao trabalho de dar explicações. Nos três dias seguintes, dei plantão na porta da casa de Dieguito (era assim que o staff se referia a ele), mas nada de o sujeito aparecer. Por sorte, um assessor do Racing autorizou a minha entrada no jogo do campeonato argentino. Vi a partida dentro do gramado (à época, os repórteres entravam literalmente em campo) e pude acompanhar os gritos e fanfarronices do gênio que ensaiava um retorno ao futebol, agora como treinador.

No final da partida, mais um golpe de sorte. Consegui entrar no vestiário do Racing e me aproximar de Maradona. Um enxame de jornalistas o rodeava. No centro da roda, ele gesticulava, reclamava da imprensa, falava de coisas que pareciam sem sentido. Estava completamente suado e, sério mesmo, achei que teria um infarto. Ao lado, dois seguranças enormes, quase o dobro do baixinho Maradona, riam e afastavam os microfones. Até que Maradona parou o bate-papo para fazer um pedido. Ele queria uma laranja. Sim, uma laranja. Pensei que o craque usaria a fruta para fazer embaixadinhas e exibir o monumental talento. Do nada, alguém apareceu – certamente algum assessor prestativo – e ofereceu a fruta já descascada. Maradona, infelizmente, não fez embaixadinhas e apenas comeu a fruta, enquanto amaldiçoava as chatices que lhe perguntavam.

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    Esperei por um bom tempo até que o último jornalista sumisse. O assessor do Racing, afinal, tinha prometido que me colocaria diante de Maradona. E não é que agora parece que ele falaria mesmo? Bloquinho na mão e, admito, um pouco trêmulo – Deu do céu, eu estava diante de uns dos personagens que me fizeram amar o futebol – lembrei o craque que havia marcado uma entrevista com ele. “Brasileiro? Não falo com brasileiros. Vocês mandam na Fifa e roubaram o futebol”, Maradona disse, enquanto virava as costas. A única coisa que me ocorreu foi dizer que tinha ido à Argentina apenas para falar com ele. Maradona, então, deu meia volta, pegou o meu bloquinho e tascou um autógrafo: “Assim você não volta pro Brasil de mãos vazias.” E foi embora, sem dizer nenhuma palavra a mais.

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