Clique e assine a partir de 8,90/mês

Maduro ou Guaidó? De que lado do conflito está a seleção da Venezuela

Adversária do Brasil nesta terça-feira, seleção “Vinho Tinto” desfruta de evolução esportiva, mas sente reflexos da crise no país

Por Luiz Felipe Castro - Atualizado em 18 jun 2019, 15h37 - Publicado em 18 jun 2019, 09h00

SALVADOR – “ Eu me sinto orgulhoso de nossos guerreiros da Vinho Tinto (…) Esta é a geração de ouro que escreve a história esportiva de nossa amada Venezuela”, cravou no Twitter o presidente Nicolás Maduro, que não perderia a chance de celebrar publicamente a vitória por 3 a 0 de sua seleção de futebol diante de, veja só, os Estados Unidos em amistoso na casa do eterno inimigo político, no último dia 9. Lá como cá ou em qualquer lugar do planeta, governantes adoram pegar carona no sucesso de atletas e usar o esporte como propaganda política. Mas, em tempos de crise humanitária, econômica e social, com milhões de cidadãos desempregados e com fome ou fugindo do país, o moral do líder chavista anda baixo inclusive entre os representantes da seleção, que nesta terça-feira, 18, enfrenta o Brasil na Fonte Nova, em Salvador, pela segunda rodada da Copa América

Ainda que não fale abertamente, a maioria dos atletas é a favor da saída de Maduro do poder. O que não significa, necessariamente, que seja a favor de Juan Guaidó, líder da oposição e autoproclamado presidente interino, reconhecido, inclusive, por Jair Bolsonaro. “Ninguém do time apoia Maduro, o plantel está a favor de uma mudança de governo”, explica o jornalista venezuelano José Graterol, do site La Pizarra del DT. “Há uma alta porcentagem de atletas que apoia as bandeiras da oposição, mas não se expressa politicamente. A verdade é que a situação está muito difícil, inclusive para os jogadores de futebol”, completa Edwin Matamoros, da emissora Pasión Total TV.

O técnico Rafael Dudamel, ex-goleiro da seleção e grande mentor do desenvolvimento das seleções nacionais, de base e adulta desde 2016, tenta manter postura apolítica. Questionado por VEJA sobre o tema na entrevista da véspera do jogo, brincou no início. “Se quiser, podemos tomar um café amanhã e falar de política, mas hoje gostaria de falar de futebol…”. Em seguida, Dudamel admitiu que o tema é evitado no vestiário.

“Respeitamos as posições políticas dos atletas em suas vida privada, mas aqui todos representam a cor Vinho Tinto e todo o país. Por mais que muitos vivam no exterior, estamos todos por dentro do que ocorre no país, nossa família está lá e todos sofremos. O mais importante é que entendemos que com o futebol pode enviar mensagens de crescimento, de lealdade, de honestidade, de compromisso”, discursou. Dos 23 convocados, apenas dois atuam na Venezuela. Um deles é o goleiro Joel Graterol, do Zamora, que estava ao lado de Dudamel e ficou em silêncio.

O incômodo de Dudamel com o assunto se tornou maior depois de um episódio que quase resultou em sua saída, justamente depois de uma das maiores vitórias do time. No fim do ano passado, depois de a Venezuela bater a Argentina de Lionel Messi por 3 a 1, em Madri, o plantel recebeu a visita do embaixador de Juan Guiadó na Espanha, Antonio Ecarri. Não seria nada demais, não fosse o fato de que a assessoria do governo interino divulgou imagens do encontro como um sinal de apoio do grupo à queda de Maduro.

Sentindo-se traído, Dudamel chegou a colocar o cargo à disposição, mas foi convencido por dirigentes a seguir no barco. E são justamente as conexões de cartolas com o governo que estimulam uma “autocensura”. O vice-presidente da Federação Venezuelana de Futebol (FVF), Pedro Infante, é também o Ministro do Esporte do governo Maduro e a PDVSA (empresa petroleira estatal) é uma das patrocinadoras da seleção. Fora da seleção, no entanto, as manifestações têm sido cada vez mais constantes.

Continua após a publicidade

A combalido Campeonato Nacional, repleto de estádios vazios e clubes endividados, registrou os primeiros protestos esportivos contra Maduro em 2014, quando atletas do Mineros de Guayana, incluindo Alejandro Guerra, hoje no Palmeiras, se negaram a entrar em campo, devido ao início da crise, contrariando até mesmo seus dirigentes. Nos anos seguintes, foram realizados novos protestos contra o governo e homenagens aos mortos pelos conflitos.

O gesto mais simbólico ocorreu no início de 2019, quando os times de Caracas e Zulia decidiram ir ao jogo, mas não jogar. Durante os noventa minutos, os atletas ficaram parados no gramado ou tocando a bola sem objetividade, em desaprovação ao caos instalado no país. Foram aplaudidos por seus torcedores. “Os jogadores do Zulia estavam havia quatro dias sem comer e dormir. Tínhamos de ser solidários com o que ocorria nas ruas”, disse Ricardo Andreutti, jogador do Caracas, na ocasião. Nesta noite, a seleção venezuelana tentará surpreender o Brasil a partir das 21h30, na Fonte Nova.

Relatos da fronteira: Entenda a crise na Venezuela

Continua após a publicidade
Publicidade