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Joias repatriadas: Eles chegam à seleção após início de carreira fora

Eles cresceram longe do Brasil e chegaram à seleção sob o assédio de rivais

As pernas tremeram ao ouvir o chamado do técnico Louis Van Gaal. O jogo era contra o Tottenham, na última temporada do Campeonato Inglês. Corriam 32 minutos do segundo tempo quando Andreas Pereira fez sua estreia em Old Tra­fford pelo Manchester United. “Eu fiquei fora do ar. Entrei em campo e passei uns dois minutos só olhando para a torcida”, conta o meia de 19 anos. Filho de brasileiros, ele nasceu na Bélgica e foi para o PSV, da Holanda, com 9 anos. Aos 16, chegou aos Red Devils sob indicação de Alex Ferguson. “Nem acreditei quando meu pai me disse que o Manchester queria me contratar”

Convocado para as equipes de base da Bélgica, Andreas defendeu o país em 27 partidas, mas a aproximação do ex-coordenador técnico da seleção brasileira, Alexandre Gallo, que rodou pela Europa atrás de jovens jogadores que poderiam ser recrutados por outros países, fez com que ele migrasse para o time sub-20 verde-amarelo. Embora reserva, o meia foi um dos destaques da equipe comandada pelo técnico Rogério Micale na campanha do vice-campeonato mundial da categoria, em junho. Na decisão contra a Sérvia, ele entrou no segundo tempo,enfrentou três adversários e marcou um golaço para empatar a partida. “O Andreas Pereira está habituado ao estilo europeu, tem uma leitura de jogo privilegiada. Ele foi fundamental para a nossa equipe”, afirma Micale.

Assim como Andreas, o atacante Jean Carlos também disputou o Mundial sub-20 e nunca atuou no Brasil. Ele se mudou com a família para a Espanha aos 11 anos e, depois de ser reprovado em teste no Atlético de Madri e de um período no Tenerife, foi aproveitado pelo Real Madrid. Com cidadania espanhola, esteve cotado para a seleção sub-18 da Espanha. “Eu ouvi comentários de que iriam me convocar, mas nunca recebi um convite oficial”, afirma. Depois de percorrer todas as categorias da base merengue, Jean Carlos tem a difícil missão de ascender ao time de Cristiano Ronaldo e Benzema. Quando vem ao Brasil passar férias em Prata, sua cidade natal, o centroavante mineiro tenta não se deslumbrar com a curiosidade dos conterrâneos sobre o privilégio de, tão jovem, integrar um dos maiores clubes do mundo.

Do técnico Rogério Micale, ganhou o selo de “melhor finalizador da seleção”. E também recebeu elogios por sua noção de posicionamento na área, algo que ele atribui exclusivamente à experiência precoce na Espanha. “No Real, eu treinei muito a parte tática. É uma dinâmica bem diferente se compararmos com a do Brasil.” Para Micale, a vivência na Europa é benéfica para o time que está sendo formado para a Olimpíada de 2016. “São jogadores habituados ao estilo de jogo europeu, muito aplicados taticamente. Isso, na base, é algo valioso.”

Corrida por talentos

Além de Andreas e Jean Carlos, Danilo, do Valencia, e Alef, do Braga, estiveram com a seleção no Mundial sub-20. A diferença, no entanto, é que eles jogaram por Vasco e Ponte Preta, respectivamente, antes de serem exportados. Titular do Braga na temporada passada, Danilo foi capitão da seleção na Nova Zelândia e acabou contratado pelo clube espanhol na última janela de transferências. Ele foi revelado pelo Vasco, mas fez apenas nove jogos com o uniforme cruz-maltino entre janeiro e junho de 2014. A exemplo de Philippe Coutinho, que foi negociado por dirigentes vascaínos com a Inter de Milão aos 16 anos, o volante teve de esperar seu 18º aniversário antes de seguir para a Europa. Ainda em 2013, quando o jogador também era disputado pelo Liverpool, o Braga pagou 13,5 milhões de reais para contar com a jovem promessa. “Foi um grande passo em minha carreira. Imaginei que a adaptação ao futebol português seria complicada, mas não tive dificuldade para jogar, já que o clube está acostumado a receber muitos brasileiros”, diz Danilo.

Por que nossos jogadores continuam migrando cada vez mais cedo? Apesar da regra da Fifa que impede a transferência internacional de atletas com menos de 18 anos do país para outros continentes, o mercado brasileiro é refém do abismo financeiro que o separa da realidade de clubes europeus. Os atrativos para fisgar revelações vão além dos salários turbinados. Familiares têm sido seduzidos com planejamentos de carreira que incluem “estágios” em clubes ou ligas menores até a maturação para fazer valer o investimento do clube importador. É o caso do meia Gerson, 18, vendido pelo Fluminense para a Roma por 60 milhões de reais. Antes de debutar pelo time da capital italiana, ele deve ser emprestado ao Bologna por um ano. Em alguns casos, empresários visualizam na venda ao exterior uma alternativa para seus pupilos chegarem à seleção – não necessariamente a brasileira. A cidadania europeia serve não apenas para disputar campeonatos mas para garantir a oportunidade de defender outros países.

O “caso Diego Costa” tornou-se emblemático depois que o atacante nascido em Sergipe escolheu defender a seleção espanhola em 2013, aos 25 anos, indiferente aos planos do técnico Luiz Felipe Scolari de convocá-lo para a Copa do Mundo que seria disputada no país. A partir daí, alarmada, a CBF decidiu fazer um mapeamento de atletas brasileiros “esquecidos” em outros países para evitar que outras seleções se apropriem da mão de obra nacional. Entre os rastreados pela antiga comissão técnica da base, estavam Raphael Guzzo, 20, do Benfica, e Rony Lopes, 19, do Manchester City, que enfrentaram o Brasil nas quartas de final do Mundial sub-20 por Portugal. Mesmo diante da sondagem para defender a seleção brasileira, ambos preferiram seguir na equipe lusitana. “Acredito que tenho mais chances em Portugal, já que fui formado longe do Brasil, onde a concorrência é bem maior”, diz Guzzo.

Há o temor de que outros brasileiros, mesmo aqueles que se destacaram com a camisa amarela no Mundial, como

Jean Carlos, sejam cortejados por seleções como Espanha, Itália e Portugal. A Fifa permite que um jogador defenda outro país independentemente de já ter representado uma segunda nação em amistosos ou competições de base. Assim, Raphael Guzzo e Rony Lopes ainda podem jogar pelo Brasil caso mudem de ideia. Da mesma forma, Andreas Pereira pode retornar ao esquadrão belga. Porém, se depender de sua escolha, ele não deve virar a casaca novamente. “Meu sonho é jogar uma Copa pelo Brasil.”

No Manchester United, ele vive a expectativa de ganhar mais oportunidades nesta temporada, já que conta com o apreço de Van Gaal e renovou seu contrato com o clube até 2018. Apesar do berço belga e de nunca ter jogado no Brasil, Andreas torce por um time alvinegro. Os olhos brilham ao falar dos ídolos Robinho e Neymar, com quem sonha dividir o gramado na seleção principal.

Do exterior para a seleção

Quatro “gringos” brilharam na Nova Zelândia e podem puxar a fila do time olímpico. Alef impressionou pela capacidade de marcação e a facilidade em bater na bola com os dois pés. Danilo, seu companheiro na proteção à zaga, foi eleito o segundo melhor jogador do Mundial sub-20. Jean Carlos começou na reserva, mas chamou a responsabilidade após a lesão de Judivan. E Andreas Pereira, mesmo sem vaga cativa entre os titulares, consagrou-se como o coelho na cartola de Rogério Micale.

Danilo

Volante – 19 anos

Clubes: Vasco (2013-2014), Braga-POR (2014-2015) e Valencia-ESP (desde 2015)

Capitão da Seleção e um dos craques do Mundial, é o único “estrangeiro” do grupo que atua como titular em seu clube na Europa. Negociado pelo Vasco com investidores portugueses que o levaram para o Braga aos 18 anos, chegou a ser cobiçado pelo Liverpool.

Alef

Volante – 20 anos

Clubes: Ponte Preta (2013-2014), Olympique de Marselha-FRA (2014-2015) e Braga-POR (desde 2015)

Revelado pela Ponte Preta, foi emprestado por seis meses ao Olympique de Marselha, mas acabou ignorado pelo técnico Marcelo Bielsa. Em julho, fechou com o Braga por cinco temporadas.

Andreas Pereira

Meia – 19 anos

Clubes: PSV-HOL (2011-2012) e Manchester United-ING (desde 2012)

Renovou contrato com o Manchester United por mais três anos. Descoberto por Alex Ferguson em um torneio com o PSV, é uma das apostas de Van Gaal para o futuro. Integrou o time de Schweinsteiger e Rooney na pré-temporada nos Estados Unidos.

Jean Carlos

Atacante – 19 anos

Clubes: Real Madrid-ESP (2010-2015) e Fuenlabrada-ESP (desde 2015)

Aos 10 anos, mudou-se com a mãe para a Espanha. Antes de ser garimpado pela base do Real, passou por Tenerife, Yanida e Parla Escuela (escolinha de Madri). Emprestado ao Fuenlabrada, time treinado pelo ex-atacante Morientes, que joga na terceirona espanhola.