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Inglaterra, o novo reino do futebol

Repleta de craques e turbinada por cotas milionárias de TV, quatro clubes da Premier League chegaram às decisões europeias. Não foi mera coincidência

Pela primeira vez na história, clubes de um mesmo país chegaram às decisões continentais na Europa: o Chelsea bateu o Arsenal em clássico londrino na final da Liga Europa na última quarta-feira, 29, e Tottenham e Liverpool lutarão pela sonhada Liga dos Campeões neste sábado, 1º, em Madri. A consagração do futebol inglês não é mera coincidência. Criada em 1992, quando o país ainda lutava para espantar os hooligans – como são conhecidos os torcedores violentos –, a Premier League demorou um pouco a deslanchar e atrair estrelas estrangeiras (vinte anos atrás, havia apenas um brasileiro por lá; hoje são 22, incluindo atletas com dupla nacionalidade, como Jorginho, do Chelsea, que defende a Itália), mas nesta década se consolidou como a nova “Meca da bola”, com cifras exorbitantes de cotas de TV, patrocínio e valor de mercado dos craques. O desenvolvimento econômico e a chegada de gringos também mudaram a forma como os inventores do futebol encaram o jogo: os chutões para o alto deram lugar a um jogo técnico, veloz e vistoso, capaz de desbancar Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique e outras potências.

Há vinte anos, o Manchester United foi o campeão inglês, europeu e mundial com um time repleto de britânicos, como o inglês David Beckham, o galês Ryan Giggs, o técnico escocês Alex Ferguson (e nenhum sul-americano ou africano no time titular). Os astros brasileiros, como Ronaldo e Rivaldo, estavam, claro, na Itália e na Espanha, que até pouco tempo atrás eram os destinos sonhados por nove entre dez estrelas. Hoje, os finalistas da Champions têm treinadores e elencos cheios de estrangeiros – o brasileiro Lucas Moura e o sul-coreano Son Heung-Min, por exemplo, foram os destaques do Tottenham na competição, e o egípcio Mohamed Salah, o senegalês Sadio Mané e o brasileiro Roberto Firmino são as apostas de gols do Liverpool e o City, campeão inglês, tem vinte gringos no elenco, mais a comissão técnica espanhola. A globalização chegou até às cadeiras mais importante dos clubes – do chamado “Big Six”, grupo formado por Manchester United, Liverpool, Chelsea, Manchester City, Arsenal e Tottenham, apenas o último tem um dono inglês.

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Justamente pelo apego dos brasileiros à Liga Espanhola e à Séria A italiana, o Brasil demorou a fincar raízes na terra da rainha. Nenhum dos cinco atletas brasileiros eleitos Bola de Ouro – Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Kaká – atuou no Reino Unido. Mirandinha, contratado pelo Newcastle em 1987, foi o desbravador. Juninho Paulista, ídolo do modesto Middeslbrough na década de 90, o primeiro a fazer sucesso – para então, consagrado, seguir rumo ao futebol espanhol. Nas décadas seguintes, atletas como Lucas Leiva (346 jogos pelo Liverpool, recorde entre os atletas do país) e Gilberto Silva (244 jogos pelo Arsenal) ganharam respeito e se tornaram ídolos.

 

Gilberto Silva e Gomes: referências no Reino Unido (Mike Hewitt / Catherine Ivill//Getty Images)

“Quando era jovem, o Campeonato Inglês nem era transmitido no Brasil. Nessa época todos sonhavam mesmo em jogar na Itália e na Espanha, mas isso foi mudando ao longo dos anos. Acho que o trabalho que eu e outros realizamos também incentivou os clubes a buscarem mais brasileiros e os atletas a se interessarem pela Premier”, afirmou o aposentado Gilberto Silva, ex-capitão da seleção brasileira e pentacampeão em 2002, de 42 anos.

Nos últimos anos, o mapa da seleção brasileira na Europa se alterou. Dos 23 convocados por Tite para a Copa América, seis atuam na Premier League; quatro na França, quatro na Espanha, quatro na Itália, três no Brasil, um em Portugal e um na Holanda. Os novos números comprovam que, além do sonho de vários jogadores brasileiros, o carimbo inglês no passaporte passou a ser almejado, também, pelos jogadores de mais alto nível do mundo.

“Hoje há mais craques, incluindo os brasileiros, porque os clubes têm condição financeira. Que clube, além de Barcelona e Real Madrid, poderia pagar a um goleiro o que o Liverpool pagou pelo Alisson? Isso deixa o campeonato mais chamativo”, afirma o goleiro brasileiro Heurelho Gomes, 38 anos, de passagem marcante pelo Tottenham (2008 a 2014) e atualmente no Watford. Segundo dados do site Transfermarkt, apenas Espanha (31) e França (29) têm mais representantes que o Brasil na Premier.

Os ingleses também demonstram cada vez mais interesse na contratação de jovens atletas do Brasil, investindo alto em jogadores mais novos, como no caso do atacante Richarlison, que se transferiu do Fluminense para o Watford, e depois para o Everton, e hoje faz parte do time de Tite para a Copa América. João Pedro, de 17 anos, a mais nova revelação do Fluminense, também já foi vendido ao Watford. O investimento nos mais velhos também impressionou nesta temporada: o Chelsea, que tinha como espécie de regra não fazer contratos de mais de um ano com jogadores acima dos 30, anunciou há pouco tempo a renovação com o zagueiro David Luiz, de 32 anos, por mais duas temporadas – algo que o clube não fez com Frank Lampard, Didier Drogba e John Terry, grandes ídolos de sua história.

‘Beautiful game’

A Premier League foi pioneira no investimento em mercados alternativos (figuras como Beckham e Cristiano Ronaldo no passado e o egípcio Salah e o gabonês Pierre Aubameyang foram importantes garotos-propaganda) e é hoje a liga mais rica do mundo (confira no gráfico abaixo), com faturamento estimado para a temporada 2018/2019 de 5,6 bilhões de euros (25,1 bi de reais), incluindo cotas de TV, patrocínios, bilheteria e outras fontes de recurso. Ainda que Barcelona e Real Madrid tenham dominado o futebol europeu na última década (na esteira do sucesso dos gênios Cristiano Ronaldo e Lionel Messi), a liga inglesa se consolidou como a mais atrativa do planeta. É cedo para falar em “troca de guarda” no futebol europeu, mas as perspectivas para as equipes britânicas são mais animadoras que para a concorrência.

“É a melhor do mundo, sem dúvida, e bem distante das outras. Estou há onze anos lá e a cada ano que passa percebo uma melhora. Os atrativos são a competitividade, a visibilidade, o dinheiro envolvido, a seriedade, estádio cheio, gramado perfeito, torcida… tem tudo. É o campeonato mais visto do mundo e hoje em dia todo jogador quer jogar lá”

Heurelho Gomes, goleiro

Gilberto Silva também destaca as cotas de televisão mais equilibradas e a forma como todos os clubes participam das negociações. “Os ingleses tiveram muito mérito, souberam transformar um campeonato que não tinha tanta relevância, ligado a hooligans e outros problemas, em um excelente produto. Os clubes são rivais em campo, mas fora todos se unem para elevar o potencial da liga.” A média de público da Premier da última temporada foi de 38.168 torcedores (a do Brasileirão foi de 18.821). Mesmo em má fase, o Manchester United teve média superior a 74.000 fãs por partida no Old Trafford.

A qualidade do futebol apresentado também evoluiu de forma notável, muito graças à presença de treinadores estrangeiros, como o português José Mourinho, os italianos Roberto Mancini e Antonio Conte, o alemão Jürgen Klopp, o argentino Maurizio Pochettino e, especialmente, o espanhol Pep Guardiola (atual bicampeão pelo Manchester City). “Quando cheguei lá, em 2008, o Tottenham dava chutão, bola longa, até que vieram técnicos de fora, com outra mentalidade. Continua sendo um jogo de muito contato físico, mas com muito mais qualidade, o que também ajudou a atrair os melhores jogadores”, afirmou Gomes.

Outro aspecto extraordinário da liga inglesa é o equilíbrio e imprevisibilidade bem acima das vizinhas. Há dois anos, o modesto Leicester City conseguiu desbancar os gigantes e conquistou seu primeiro título da Premier em 132 de história – trazendo para nossa realidade, seria como se a Ponte Preta vencesse o Brasileirão. Em 2019, o campeonato teve uma de suas edições mais espetaculares, com o Manchester City levando o troféu com incríveis 98 pontos, um a mais que o Liverpool, que segue em busca do primeiro título no formato moderno (não vence a liga nacional desde 1990, mas pode encher os fãs de alegria neste sábado se conquistar o sexto título europeu.)

Vincent Kompany, do Manchester City, ergue o troféu da Premier League (Frank Augstein/AP)