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Iarley, o cearense que decidiu um River x Boca e virou ídolo

Ex-atacante que brilhou no Superclássico argentino em 2003 minimiza pressão do Monumental e aposta em nova vitória boquense na final da Libertadores

Por Danilo Monteiro - Atualizado em 30 jul 2020, 20h02 - Publicado em 23 nov 2018, 10h00

O Superclássico argentino entre River Plate e Boca Juniors decidirá o campeão da Copa Libertadores de 2018 no próximo sábado, às 18h (de Brasília). Dentre todos os capítulos da rica história do clássico centenário, um deles remete a 9 de novembro de 2003, quando um atacante cearense de 29 anos se tornou ídolo de meia Buenos Aires do dia para a noite. Pedro Iarley Dantas já havia ficado conhecido no país por marcar o gol da vitória por 1 a 0 do Paysandu contra o Boca Juniors no temido estádio La Bombonera, no dia 24 de abril – tanto que atraiu interesse do gigante argentino, que o contratou em julho daquele ano para disputar o Campeonato Argentino e o Mundial de clubes. Mas foi no Superclássico em que Iarley vestiu a 10 de Maradona que ele se transformou em “hermano de Pelé”.

O atacante nascido em Quixeramobim, pequena cidade do Ceará, era uma incógnita para a torcida xeneize até a quarta rodada do torneio Apertura, no Superclássico contra o River Plate, em um lotado Monumental de Nuñez. Ao distribuir dribles e marcar o gol que guiou o Boca à vitória por 2 a 0 naquela tarde, a vida do brasileiro na capital argentina se transformou. “Fui de um jogador desconhecido para um super astro. Dentro de Buenos Aires, eu já não podia mais andar sozinho na rua, os caras me paravam em todo canto. Quando eu ia comprar coisas no supermercado, as pessoas beijavam meus pés e tudo se tornou uma loucura.”, relembrou Iarley, em entrevista a VEJA.

Iarley se destacou na vitoriosa campanha do Boca naquele ano e levantou a taça campeão argentino, com direito a gol decisivo contra o San Lorenzo – que, praticamente, garantiu o título – e também participou da vitória sobre o Milan nos pênaltis, após empate por 1 a 1, na final do Mundial de Clubes daquele ano. Trabalhando nas categorias de base do Internacional, pelo qual também se tornou lenda e conquistou o Mundial em 2006, e se preparando para virar técnico de futebol, Iarley relembrou uma das partidas que mudou sua vida.

O clássico entre Boca e River é o maior do mundo? O superclássico envolve a paixão de um país inteiro, né. Esse jogo já demonstrou muitos fatores para estar entre os maiores, eu acredito que sim.

É exagero tratar essa como a maior final da história? Não. É a primeira final de rivais nacionais e pelo que vimos no primeiro jogo, foi tudo muito limpo, resolvido dentro de campo e com os dois times jogando em alto nível. Acho que se continuar assim, no mesmo nível e intensidade, aí posso dizer, com certeza, que esta é a maior final de todos os tempos.

Como foi decidir um clássico em pleno Monumental? Até aquele dia, eu era um brasileiro desconhecido em um país diferente, com apenas uma amostra de um gol que eu tinha feito pelo Paysandu contra o Boca, mas era muito pouco, eles queriam ver mais de mim. Esse clássico surgiu como uma grande oportunidade, o Monumental estava lotado e o Boca tinha apenas uns 5.000 torcedores lá dentro. Foi uma tarde histórica, tanto pela minha atuação – que foi muito boa -, quanto pelo 2 a 0 e pelo gol que eu fiz, que até hoje é considerado um dos mais bonitos do Superclássico. No final foi engraçado, porque os torcedores do Boca começaram a cantar ‘olé, olé, olé, é o irmão do Pelé’ (risos).

O que o técnico Carlos Bianchi falou para você antes do jogo? Não só ele, todos os jogadores me deram apoio, estavam preocupados porque eu seria o titular nessa partida. Eles tiveram a preocupação de me orientar, de me explicar como era o clássico, da importância de vencê-lo. Eu deixei eles bem tranquilos, expliquei que no Brasil também temos grandes clássicos, não daquele tamanho, mas também importantes e eu tinha jogado alguns, como Paysandu x Remo, Ceaá e Fortaleza. Garanti que eu ia me sair bem, dar o máximo de mim e os tranquilizei.

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O que mudou para você depois daquele clássico? Tudo, minha vida mudou, praticamente, da água para o vinho. Fui de um jogador desconhecido para um ídolo, um super astro. Dentro de Buenos Aires, eu já não podia mais andar sozinho na rua, os caras me paravam em todo canto. Quando eu ia comprar coisas no supermercado, as pessoas beijavam meus pés e tudo se tornou uma loucura. De repente, tinha que andar com escolta, o pessoal enlouqueceu. Por onde eu ia, as pessoas me abraçavam, pediam fotos, tudo isso por causa do gol no clássico.

Como era a sua relação com a torcida do River? Era bem tranquila. Nunca fui um jogador polêmico, sempre respeitei bastante os adversários, principalmente o maior rival. Acho fundamental o atleta ter isso muito claro, por mais que a tua torcida queira que você faça alguma coisa para motivar mais, falando mal do outro torcedor, do adversário, fazendo gol e indo para a torcida, reproduzindo gestos que possam desmerecer o adversário. Nunca fui este tipo de jogador, então tenho uma relação muito boa com todos os rivais que tive.

Você vivenciou alguma situação tensa durante os clássicos? Em todos os clássicos tem um pouquinho de empurra-empurra, mas não passou disso na Argentina. Na minha época, era um período até mais hostil do que hoje, o país passava por um problema muito maior, com vários protestos nas ruas. Então o futebol, para a torcida, era uma forma de desabafo, porque se vivia um clima de muito nervosismo. Mas, no geral, foi tudo tranquilo. O único problema que tivemos foi contra o Chacarita, que tinha alguns torcedores violentos e toda vez que jogávamos contra eles, o jogo tinha que ser com torcida única, mas contra o River não havia problemas.

Qual o estádio mais difícil para se jogar na Argentina? O Monumental nem se compara com a Bombonera. A Bombonera é muito mais difícil de se jogar. No Monumental, a torcida está longe, é muito parecido com o Morumbi. Apesar da grande capacidade que o estádio do River tem, o jogador está distante, enquanto que na Bombonera os caras cospem em você, jogam cerveja, é bem mais difícil, o ambiente é mais pesado.

Algum estádio brasileiro se compara aos argentinos? Tem vários. O Pacaembu é um estádio que era muito complicado de se jogar contra o Corinthians, o Beira-Rio contra o Inter, o Olímpico contra o Grêmio… todos esses são bem mais complicados do que jogar no Monumental.

Como era a sua relação com o Guillermo Barros Schelotto, seu colega de ataque e hoje técnico do Boca? Muito boa, ele era um cara bem tranquilo, calado e muito inteligente. Ele sempre conversava com o Bianchi sobre táticas, sobre os jogos. Já víamos nele um perfil de treinador. Dentro de campo, ele era muito importante taticamente, se posicionava muito bem. Hoje, eu não tenho mais contato com ele, perdi faz um certo tempo e ainda não fui em Buenos Aires para conversar com ele e com o restante do elenco. Pretendo fazer isso em 2019.

Existe algo da rivalidade entre Boca e River que marcou você? Eu acho que o que me marcou muito era a devoção que o torcedor tem pelo Boca. O que eu via no rosto deles me fazia deixar tudo em campo, jogando o máximo que poderia e mais. Essa paixão que tem o torcedor do Boca é transmitida para o jogador. É algo que nunca vou esquecer.

Palpite para o segundo jogo? 2 a 1 para o Boca, minha torcida é para eles sempre.

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