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Garotos, mulheres e homens: Corinthians x Flamengo em dose tripla

Clubes mais populares do país se encontraram no Parque São Jorge, no Pacaembu e em Itaquera, com públicos e ambientes bem distintos, neste domingo 21

Por Alexandre Senechal e Kaio Lakaio - Atualizado em 22 jul 2019, 14h13 - Publicado em 22 jul 2019, 13h07

Nenhuma partida de futebol movimenta tantos brasileiros quanto um Corinthians x Flamengo, os dois clubes mais populares do país que, somados, acumulam mais de 60 milhões de torcedores. Neste domingo 21, o empate em 1 a 1 pela 11ª rodada do Campeonato Brasileiro lotou a arena alvinegra em Itaquera e ganhou as principais manchetes, mas, mais cedo, outros dois duelos menos badalados e com entrada gratuita completaram uma inédita rodada tripla do clássico nacional na capital paulista. O primeiro encontro foi pela manhã, válido pela 6ª rodada do Brasileirão masculino sub-20, com apenas familiares, olheiros e alguns sócios curiosos nas arquibancadas do Parque São Jorge. Mais tarde, no Pacaembu, o encontro foi pelo Brasileirão de futebol feminino, com um público razoável – mas dez vezes menor que o do badalado encontro na Arena Corinthians.

Antes do início da partida das jovens promessas, o clima era de calmaria na “Fazendinha”, a velha casa corintiana com capacidade para não mais que 10.000 torcedores. A equipe carioca se divertia no vestiário ouvindo música alta e jogando ‘altinha’, enquanto os primeiros torcedores começavam a chegar e incentivar o clube da casa – além de provocar o adversário com gritos de “cheirinho”, em alusão à eliminação do time profissional do Flamengo pela Copa do Brasil, diante do Atlhetico Paranaense, na semana passada. Um dos poucos flamenguistas no estádio, Rubem de Paula, celebrava o fato de levar seu filho, o pequeno Léo Moura, pela primeira vez a um estádio. “Nem preciso explicar o porquê do nome, né?”, brincou o pai, fã do lateral-direito e ídolo do Flamengo, atualmente no Grêmio. O torcedor rubro-negro também exaltou o fato de poder acompanhar uma partida de seu clube de coração, fora de casa e contra um rival nacional, sem ter de se preocupar com a violência. “Eu trouxe a camisa camuflada, mas quando entrei aqui a recepção foi tranquila.”

Rubem de Paula com o filho Léo Moura nas arquibancadas do Parque São Jorge Kaio Lakaio/VEJA

Como de praxe em partidas de categorias de base, diversos olheiros e empresários se misturaram entre os familiares dos atletas. “Hoje os times que têm menos condições financeiras dependem da base para poder compor profissional. Alguns usam mais para projetar e fazer negócio”, afirmou o empresário Mauricio, de 29 anos, que foi assistir a um de seus clientes atuar pelo clube paulista. “Para fazer um bom negócio, o atleta precisa primeiro subir ao profissional, pois o valor sobe muito”, explicou.

A partida teve um início movimentado com chances para ambas as partes, mas foi o Flamengo quem saiu na frente com o centroavante Vitor Gabriel. Os gritos de euforia de seus poucos torcedores e do banco de reserva do clube carioca ecoaram diante do silêncio dos corintianos no vazio Parque São Jorge. O Corinthians empatou na sequência com Roni e virou o jogo com Ruan, mas ainda no final do primeiro tempo o Flamengo empatou com gol de cabeça de Gomes. Um dos destaques do jogo foi o goleiro flamenguista Hugo, que inclusive já chegou a ser convocado por Tite para para testes na seleção brasileira adulta. “Ele tem a cabeça muito boa, costuma treinar com os profissionais e lida muito bem com a pressão”, elogiou o treinador de goleiros da equipe, Thiago Eler, irmão do ex-zagueiro Fabiano Eller.

Ilbert Estevam da Silva ajuda atleta do Corinthians a se levantar Kaio Lakaio/VEJA

O árbitro Ilbert Estevam da Silva falou sobre a responsabilidade de dirigir atletas em formação. “Trabalhamos de forma didática, porque são jovens ainda, na flor da idade e aprendendo, por isso tentamos evitar um cartão na conversa”. O árbitro comentou sobre as diferenças entre as categorias. “O jogo é mais corrido, geralmente o profissional tem uma média de 10 km percorridos, na base pode chegar a 13km por jogo.” Os torcedores deixaram o estádio ainda a tempo de chegar ao Pacaembu, onde as meninas fariam um novo clássico nacional.

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Festa alvinegra na ‘saudosa maloca’

No Pacaembu, a antiga “casa alugada” do clube que em 2014 se mudou para Itaquera, o Corinthians contou com o apoio dos cerca de 3.800 torcedores para manter a liderança do Brasileirão feminino com uma vitória por 1 a 0. A maioria do público era formado por mulheres e garotas, algumas que nem sequer torciam para um dos times, mas demonstravam esperança com o crescimento da modalidade e se espalharam pela infinidade de lugares disponíveis. A arquibancada laranja, que assim como o tobogã não foi aberto, ostentava uma faixa da campanha “Respeita as mina”, idealizada pelo Corinthians.

Sob forte calor, o jogo foi truncado por diversas faltas, mas o Corinthians, que contratou a lateral Tamires, da seleção brasileira, conseguiu ditar o ritmo e chegar à vitória com um gol de Giovanna Crivelari. Ao final da partida, as atletas foram até o alambrado da “saudosa maloca” agradecer o apoio e tirar fotos com os fãs. Muitas pessoas presentes relataram ter tido a primeira experiência em um estádio, caso de Vânia, que levou seus três filhos e se se surpreendeu pelo clima agradável.”As crianças estavam um pouco ressabiadas, mas depois incentivaram, foi uma experiência muito legal.”

O público, porém, lamentou especialmente o horário do jogo (duas horas antes do início do duelo dos homens em Itaquera), o que impedia que um mesmo torcedor pudesse comparecer às duas partidas, uma na zona oeste e outra na zona leste da capital paulista. O Corinthians alega que não poderia alterar a hora da partida para mais cedo, pois quem o havia determinado era a TV detentora dos direitos de transmissão. Pelo mesmo motivo, tampouco haveria tempo de fazê-lo em Itaquera, em forma de preliminar dos homens, pois atrapalharia o protocolo das partidas, como o aquecimento dos atletas.

Atletas do Corinthians saudaram a torcida depois da vitória Kaio Lakaio/VEJA

Pedrinho e Gabigol levantam a massa

Já na moderníssima Arena Corinthians, as arquibancadas estavam praticamente lotadas, com público pagante de quase 35.000. Os flamenguistas, que encheram o setor de visitantes, entraram cedo no estádio e não demoraram a festejar. Os corintianos respondiam com vaias e cantos para o time, mas sem grandes provocações. O meia-atacante Pedrinho foi o mais ovacionado no anúncio das escalações. E também durante a partida. Mesmo depois o gol de pênalti de Clayson, a torcida gritou o nome do jogador formado no Corinthians, que iniciou a jogada que gerou a penalidade em Vagner Love.

O único momento de silêncio e apreensão foi durante a paralisação de cinco minutos para a revisão do lance que gerou o gol do Flamengo – durante todo o encontro, as duas torcidas cantaram muito, com a voz da maioria alvinegra prevalecendo. No final, graças ao VAR, os cariocas comemoraram o gol duas vezes, mas a partida terminou empatada em 1 a 1. A cena mais curiosa ocorreu atrás do gol. Gabriel Barbosa foi bem próximo ao setor onde se reúnem as organizadas do Corinthians para comemorar o gol e foi ofendido pelos rivais. A comemoração demorou um pouco e alguns atletas do time da casa ameaçaram reclamar com o atacante, mas não houve confusão. Gabigol fez o tradicional sinal mostrando os braços tensionados – sua celebração típica que foi alvo de chacota pelos jogadores do Athletico-PR na semana passada. E a rodada tripla terminou com dois empates e uma vitória corintiana.

Gabriel Barbosa celebrou diante dos corintianos e ouviu diversos palavrões Miguel Schincariol/Getty Images
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