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Futebol paulista sairá da pandemia 40% mais pobre, diz presidente da FPF

Reinaldo Carneiro Bastos disse a VEJA não haver pressa (nem pressão) para a volta do Estadual, mas está confiante de que o torneio será encerrado no campo

Por Alexandre Salvador - Atualizado em 8 maio 2020, 17h52 - Publicado em 8 maio 2020, 17h46

“O futebol não é exceção. Toda a sociedade está sofrendo e vai se modificar. Estamos todos nos reinventando, tanto na parte material, mas também na parte mental.” O presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), Reinaldo Carneiro Bastos, dirigente que defende os interesses de um quarto dos clubes que estão no grupo de elite do esporte nacional, está com os pés no chão. Mas, é claro, tem na cabeça os prejuízos causados pela paralisação em virtude do coronavírus.

Em entrevista concedida a VEJA, Carneiro Bastos disse que a pandemia provocará um duro baque nas receitas dos quatro grandes times de São Paulo. O Red Bull Bragantino, o quinto clube paulista na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, seria a única exceção, mas por uma consequência de outra crise, a cambial. E na visão do dirigente, é justamente o grupo que mais fatura o mais prejudicado pela crise. Leia abaixo os principais trechos da conversa:

O senhor está otimista para a retomada do Campeonato Paulista? Não falaria otimista. Estamos diante do cenário que é mais possível. Nós temos apenas seis rodadas por fazer. Dos dezesseis clubes que disputam o campeonato, em apenas duas rodadas ficam apenas os oito classificados para a próxima fase. Após a terceira data de jogos, sobram apenas quatro times. Ou seja, isso simplifica a organização. Mas em todas partidas respeitaremos os mesmos protocolos de saúde. Quando possível, poderemos retomar o campeonato com segurança para todos os envolvidos.

E quando isso deve acontecer? Não há um prazo. Os clubes decidiram, por unanimidade, respeitar a ciência, a medicina. Enviamos os protocolos para as entidades estaduais e municipais para análise e só voltaremos com autorização dos órgãos competentes. Não há pressa ou pressão. É lógico que todos tem vontade de voltar a realizar sua atividade profissional. Mas aquelas que são chamadas de não essenciais precisam ter segurança. Quando os clubes se concentrarem para a primeira partida, todos os jogadores serão testados. E eles só sairão do isolamento eliminados da competição ou na partida final. O protocolo é muito cuidadoso, e compreende a situação a qual vivemos.

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Em que pé está a negociação com a Globo, emissora detentora dos direitos de transmissão? O contrato vigente com a Globo tem a duração de seis anos e acaba agora em 2021. Quando suspendemos o campeonato, a emissora suspendeu o pagamento da última cota. A partir do momento em que nos reunimos e, por unanimidade, os clubes decidiram encerrar a competição dentro do campo, jogando futebol, pedimos à Globo a liberação da cota e ela fez o depósito de uma pequena parte. Mas já sinalizou que quando acontecer a partida final, ela quitará o restante.

A condição é mais difícil para os grandes clubes do estado ou os menores? O drama é igual para todos. Os grandes clubes podem até ter receita maior, contratos mais generosos, mas suas despesas e compromissos também são muito maiores. Se analisarmos a situação dos clubes que fazem parte do calendário nacional de competições, esses times têm contrato com atletas de mais de um ano de duração. Os menores, como por exemplo 90% da segunda divisão de São Paulo, não tinham sequer registrado atletas. Então enquanto essas equipes ficarem sem atividade, seu custo fixo é muito pequeno. É difícil, é. É um drama, é. Mas eles não tem folha de pagamento alta.

No caso dos times da Série A3, a maioria dos jogadores tinha contrato até maio, quando acabava a competição. Esses estão sofrendo também, negociando com os atletas. Mas esse mês acaba sua maior despesa, que é com a folha de pagamento de futebol. Na A2, apenas São Bento (Série C) e São Caetano (Série D) disputam competições nacionais. Os outros clubes, também encerram no próximo dia 30. Será difícil cumprir esse último mês, certamente. Mas também tem uma luz no fim do túnel. Agora, na primeira divisão, com exceção de Santo André, Água Santa e Inter de Limeira.

Mas o que isso significa? Que as divisões menores podem não terminar este ano? Não, o futebol de São Paulo, diferentemente de outros, tem cotas comercializadas em todas as divisões. A Série A1 tem uma cota de televisão e de direitos comerciais, mesma coisa na A2. Da parte que cabe à Federação nas cotas da A1 e da A2, damos uma cota para Série A3 e para a divisão abaixo dessa. Todos tem receitas. Mas essa divisão mais baixa, a qual chamamos de segunda, nem começou as disputas. Ela permanece programada. Assim que houver a possibilidade do futebol voltar como um todo, reuniremos os clubes novamente e discutir que tipo de competição pode-se fazer. A conversa que tive com os clubes deu a entender que faremos uma competição, diferente é claro do que estava previamente combinado. Uma disputa modificada, mais enxuta, que envolva menos viagens. Mas do A1 até o A3, os torneios acabarão com jogos de futebol.

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Não há, por exemplo, a possibilidade de jogar esses jogos que faltam mais para frente, espalhando as datas? Não há essa possibilidade. Ela recomeçará e terminará com todos os atletas concentrados, e será realizada no menor tempo possível. Respeitando o intervalo mínimo entre um jogo e outro e os protocolos de saúde definidos pela Secretaria de Saúde do Estado.

Qual é o impacto financeiro desta pandemia no futebol paulista? Em uma análise preliminar, nós sairemos 40% menores em termos financeiros. Esse é o impacto de receita da Federação. Temos conversado com os clubes e esse é o cenário deles também, uma vez que terão déficit na receita de bilheteria (da qual a FPF fica com uma parte). Nesse aspecto, quem mais sofre são os grandes clubes, pois são aqueles que mais levam público aos estádios. Há exceções, é claro. Veja o caso do Red Bull Bragantino, que deve ter um aumento de receitas pela variação cambial (o clube é financiado pela multinacional austríaca de bebidas energéticas). Mas é um caso isolado. A maioria vai sentir negativamente.

Existe o risco de clubes paulistas fecharem as portas? Existe, mas não é um caso isolado. Acontecerá com padarias, farmácias, supermercados, clínicas médicas. O clube de futebol tem uma vantagem em relação a esses outros segmentos. Ele pode ficar adormecido. Muitos estão fora do futebol profissional e outros poderão seguir esse caminho em função da pandemia. Eles deixarão de operar, não de existir. O que vai acontecer é a diminuição do número de competições, de atletas e treinadores empregados, de árbitros em atividade. Os torneios que conseguirem continuar, serão bem disputados. Tínhamos 18 competições marcadas para esse ano. Muito provavelmente, não conseguiremos realizar a metade delas. Mais do que os clubes deixarem de existir, teremos menos campeonatos. Isso não é algo que está em nossas mãos. Depende, é claro, da pandemia.

Quais ficarão pelo caminho? Pela primeira vez esse ano faríamos um campeonato sub-15 feminino. Já tínhamos o sub-17 e o adulto programados. Mas esses campeonatos juvenis envolvem mais de 60 clubes. Sem uma vacina, sem um remédio eficaz para curar essa doença, muito provavelmente não conseguiremos garantir que esses jovens, menores de idade, tenham segurança em participar esse ano de jogos de futebol. O futebol feminino é guerreiro. Só agora começou a chamar o interesse da televisão e patrocínios. Este ano, as equipes começariam a pagar salários melhores. 

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Como o senhor viu a manifestação contrária dos jogadores em relação ao projeto de lei que tramita no Congresso e que pretender revogar algumas das obrigações trabalhistas dos clubes? A meu ver há desinformação. Eles disseram no vídeo que falam em nome da grande maioria dos atletas do futebol brasileiro, que ganham até um salário mínimo. Os que ganham até um salário mínimo só trabalham três ou quatro meses no ano, só jogam competições estaduais. Então a cláusula compensatória não vai impactar a vida deles. Essa e uma série de outros assuntos que foram colocados precisam ser esclarecidos. No projeto de lei há benefício, mas também alguns prejuízos para os atletas, mas o todo, a indústria do futebol, é beneficiada na visão da Federação. É impossível uma legislação atender 100% dos interessados. O futebol precisa evoluir, melhorar sua gestão. Nesse processo, todos os envolvidos precisarão abrir mão de algo para ter um resultado melhor lá frente.

Mas neste caso a pandemia não está sendo utilizada como muleta? Em qualquer atividade econômica pode haver empresários que utilizarão a pandemia para não cumprir seus compromissos. Não é uma característica única do futebol, infelizmente. Temos bons e maus dirigentes.

 

 

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